Opinião

Um tiro certeiro

Segundo Steve Jobs e passo a citar “Algumas pessoas acham que foco significa dizer sim para a coisa em que você irá se focar. Mas não é nada disso.

Segundo Steve Jobs e passo a citar “Algumas pessoas acham que foco significa dizer sim para a coisa em que você irá se focar. Mas não é nada disso. Significa dizer não às centenas de outras boas ideias que existem. Você precisa seleccionar cuidadosamente”.
A citação acima é para dizer que Angola pode sim alcançar tudo que almeja, mas não tudo de uma vez. É importante resolvermos tudo, mas o que é prioridade diante de tantas prioridades? Essa é a grande questão.
Até ao momento o petróleo ainda é responsável por mais de 80 por cento da receita fiscal. A volatilidade nos preços que se verificam desde 2014, altura em que o país entrou numa recessão que até agora não conseguimos sair, colocam a economia angolana de forma tão vulnerável que não pode ser arrastada por mais tempo.
Os prejuízos que se registam com as oscilações do preço do petróleo, criam constrangimentos económicos e sociais de difícil reparação. Por isso devemos a todo custo evitar que o nosso país passe de novo pelo triste cenário que viveu em 2014. O petróleo em Angola deve deixar de ser comparado ao sangue que circula no corpo de um ser humano, temos de aprender a sobreviver sem ele.
Estamos há muitos anos a falar de diversificação da economia para até agora não termos atingido por exemplo a auto-suficiência em fertilizantes no sector. Devia ser prioridade nos anteriores planos se realmente o que se pretendia é atingir a auto-sustentação.
O programa do governo em limitar para 7,5 os juros para créditos virados sobretudo a agricultura, bem como a obrigação dos bancos em alocar 2 por cento do total do activo registado no balanço final de 2018, foi um tiro certeiro, mas é preciso garantir que se cumpra.
Um exemplo real de inexistência de foco foi o que aconteceu com o surgimento de fazendas em diversas províncias do país. São no total seis os projectos de desenvolvimento agrícola, dentre eles o de Caimangala, do Longa, Sanza-Pombo.
Mas o que importa aqui é realçar que essas fazendas custaram aos cofres do Estado mais de 10 mil milhões de dólares, de acordo com secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, José Carlos Bettencourt.
Numa entrevista concedida ao JE, José Carlos Bettencourt, aliás alguém que deve ser tido em conta, pelo seu alto domínio no sector, tinha dito que “Cometeram-se erros de avaliação na implementação desses projectos”.
Em Julho do ano passado foi anunciado pelo Igape, o leilão de pelo menos 4 delas no âmbito das privatizações das empresas públicas, a preços que variam de 22 a 35 milhões de dólares, totalizando uma arrecadação de cerca de 110 milhões de dólares.
Consta que “as quatro fazendas já funcionavam e estavam prontas para começar a produzir,”, na voz do membro da comissão de avaliação do Ministério da Agricultura, Carlos Paim.
O mesmo citou na ocasião, como exemplo, a Fazenda Caimangala, que na época agrícola 2014/2015 produziu 4 mil toneladas de arroz.
Segundo ele, a fazenda custou ao Estado 80 milhões de dólares, sendo que o grupo de avaliação independente contratado pelo Igape estabeleceu um preço de referência para a privatização no valor de 24 milhões de dólares. Portanto são menos 56 milhões de kwanzas. É muita diferença para um projecto que deve ter todo equipamento novo, mesmo que a justificação seja para atrair investimento...!
Estes projectos a meu ver, com a inflação que o país sofreu, bem avaliado mereciam ser sobrevalorizados e não ao contrário como tem acontecido. Foram vendidos a um preço bem abaixo do investido quando a esta altura deveriam estar a dar outros resultados, sendo que aquando da sua implementação o programado era de que num horizonte de quatro, cinco anos, essas fazendas criariam sustentabilidade no mercado.
E a pergunta que não se quer calar é: porquê que essas fazendas faliram e a quem deve ser responsabilizado o insucesso das mesmas?
A ideia aqui não é dizer o que deve ser feito mas temos de aprender a delinear timings e responsabilizar culpados para os projectos falhados.
Precisamos parar de cometer os mesmos erros. Os falhanços que tivemos até agora, devem pelo menos nos servir de exemplo. Cada erro deve nos aproximar do acerto.
Já dizia Charles Chaplin, “A persistência é o menor caminho do êxito”.
Devemos ser capazes de traçar planos, implementar, mas, sobretudo concluir e apresentar resultados. Enquanto mantivermos a demagogia característica, continuaremos a andar às voltas e permanecer por muito tempo no mesmo lugar.
O esforço de mudança é visível, mas, é necessário diversificar e recrutar novas valências. Sangue novo para mudar a dinâmica. Nada contra os antigos, mas foram esses que em muitos anos de governação não conseguiram melhorar.
A vantagem de sermos um país rico em recursos naturais e humano nos leva a crer que podemos sim alcançar o desenvolvimento. E se a cada um que se delegar uma responsabilização (uma de cada vez), criar valências e fazer o seu melhor, conseguiremos sim, tudo de uma vez, em menor tempo, com eficiência e para bem de todos nós.