Opinião

Reconstruir e desenvolver

É exactamente neste processo de reconstrução que devemos ser mais assertivos na alocação
dos recursos financeiros que o petróleo nos proporciona, ou seja, naqueles investimentos estruturantes para que as empresas possam criar empregos

As três foram retiradas duma entrevista concedida à TPA e foram preferidas quando o histórico nacionalista e ex-primeiro-ministro da Angola Independente, Lopo do Nascimento, classificou as linhas mestras da liderança do Presidente José Eduardo dos Santos.
Somos uma Nação adolescente e muitos de nós já nos esquecemos disto, pois temos apenas 15 anos de paz efectiva antecedidos de 27 anos de evasões externas e guerra civil e mais de 500 anos de colonialismo português. Somos um país que em tempo de guerra deambulou pelo socialismo feroz e guinou para uma economia de mercado selvagem.
E o fez sem acumulação de capital próprio destas situações, sem a experiência de governação, com a sombra maléfica e olhar agoirento do seu colonialista, e claro, com um enorme esforço financeiro para fazer a guerra e manter o que ainda restava do pouquíssimo que o colono deixou.
Angola prevaleceu, resistiu e hoje quando olhamos para as nossas crianças com 15 anos lá em casa, certamente, que somos condescendentes com alguns erros e comportamentos próprios da idade.
Erramos sim, e vamos continuar a errar, mas cada vez menos, porque hoje dói mais do que ontem, e já vimos que temos de ser precoces e fazer com 15 anos o que os outros já fazem com mais de 500 anos e sem descolonização mal feita, guerra civil e sendo um dos epicentros da guerra fria.
Somos obrigados a reconstruir (e construir o que nunca existiu) e ao mesmo tempo crescer, pois são processos distintos e sucessivos, mas temos que fazê-los em simultâneo, não temos exemplo de países que cresceram às taxas que nós crescemos, ao que ao mesmo tempo se vão reconstruindo. Por estas e outras, somos sim únicos e especiais.
Este advento dos 15 anos de paz é especial, porque coincide não apenas com a passagem de testemunho do político, mas também geracional. Esta passagem corresponde ao confiar às rédeas de um país ainda jovem, de uma geração de libertadores que sacrificaram tudo pela pátria, para outra geração muito mais e melhor preparada tecnicamente e principalmente vivenciada pelos erros do passado.
Ao contrário do que muitos auguravam, até aqueles que se dizem mais próximos e com laços centenários, estamos a fazer uma transição política estável e exemplar que deverá servir de exemplo para os nossos irmãos de África, e desde já, pensamos que esta é a chave para continuidade de um processo de consolidação de Nação e de um processo de desenvolvimento que se quer sustentável e inclusivo.
Temos plena noção de que o processo de crescimento económico é sustentado pelo aumento generalizado do que se produz internamente e é tido como numérico, mas estes números atraem mais investidores, pois confirmam a capacidade deles terem retornos mais rápidos e crescentes e só assim poderemos chegar ao desenvolvimento económico que se sente na melhoria efectiva da vida das pessoas.
Para crescer, precisamos de paz, que já a temos, além de estar bem connosco mesmo. Precisamos de ultrapassar as dificuldades tribais e regionais muito frequentes em Carica e Médio Oriente e estamos a conseguir, pois temos uma reconciliação nacional possível, mas ainda assim está a léguas de distância de muitos outros países.
Seguidamente estarão criadas as condições para a próxima etapa que já está em movimento. Precisamos de reconstruir o que a guerra destruiu e principalmente construir o que a guerra não deixou construir e aquilo que não interessou ao colono construir.
É exactamente neste processo de reconstrução que devemos ser mais assertivos na alocação dos recursos financeiros que o petróleo nos proporciona, ou seja, naqueles investimentos estruturantes para que as empresas possam criar empregos, como as vias de comunicação, energia eléctrica, saneamento básico e demais infra-estruturas básicas.
A formação do homem foi a possível para o que se impunha, pois aí está que nos anos de guerra, as forças armadas formaram muitos de nós de forma mais capaz do que o ensino civil, mas hoje é diferente, pois se em 2002 tínhamos já 14 mil estudantes universitários, em 2015 tínhamos mais de 216 mil angolanos, ao passo que no ensino anterior na universidade em 2002 éramos 2,5 milhões ao passo que em 2015 já éramos 8,3 milhões.
Não temos outra opção, se não a de crescer do que crescemos (de 2002 a 2013 nosso PIB cresceu 993,6 por cento), mais do que nunca, tendo como ponto de partida e chegada o angolano que hoje está em paz, reconciliado com o seu irmão, e que terá de construir e reconstruir esta Angola que tudo pode, mas que tudo precisa.
Rui Malaquias economista e docente universitário