Opinião

Quem mais viu Pompeo?

Pelo número de batedores e a forma como se interrompeu a circulação, indicava, a priori, que se estava perante uma ilustre visita. Entre os escoltas, com as cabeças de fora da janela das viaturas blindadas, estavam americanos.

Pelo número de batedores e a forma como se interrompeu a circulação, indicava, a priori, que se estava perante uma ilustre visita. Entre os escoltas, com as cabeças de fora da janela das viaturas blindadas, estavam americanos. Era o Secretário de Estado norte-americana que passava pelas artérias de Luanda, a cumprir uma agenda diplomática por alguns países, incluindo Angola.
Num dos semáforos da Baixa luandense, por onde passou, estavam três senhoras a vender saldo de 500 e dois engraxadores. Um cliente a limpar o sapato e dois outros zungueiros. Ao passarmos, um deles, dado ao movimento inédito de escoltas brancos, disse para os demais: “É o Mike Pompeo”. Despertou a curiosidade de uma outra senhora que vendia banana pão com ginguba naqueles fogareiros modernos. “E é quem”?, questionou. “ É o dono da diplomacia dos Estados Unidos. Trabalha directamente com o Presidente Trump”.
Gerou-se aí uma conversa interminável. Ficamos a ouvir também até onde ia a visão dos nossos, “na rua”, sobre a relação entre os EUA e Angola, agora reflectida na visita do Secretário de Estado norte-americano. Entre eles, alguns faziam um esforço para entender o que tal significava. Outros, participavam por participar da conversa. Mas todos despertaram quando um deles rematou: “Ele veio trazer de volta os dólares”.
As senhoras, com outros negócios agora, na esquina onde ficavam as kinguilas, encostaram mais ao informante e daí deu para perceber que bastou falar de dólares que a conversa já interessou mais. Será que antes da banana pão com ginguba, dos saldos de 500, elas também trocavam dólares? Se os fizeram, por que deixaram?
Resumindo, para aquele grupo de pessoas que viu Mike Pompeo a passar pressupunha, acima de tudo, o regresso aos dólares com toda a força do mundo. O que se depreende é que quem está “na rua” a ganhar a vida também tem preocupação com a questão da estabilidade e quer ver a sua vida a prosperar. Percebe que este estreitar de relações de cooperação faz renascer a confiança americana.
O Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, garantiu que os Estados Unidos vão apoiar o Executivo angolano no processo de repatriamento de capitais desviados para o exterior de forma ilegal, por via de esquemas de corrupção.
Para ele, o seu país quer que “todas as transacções no mundo sejam transparentes”.
Justificando, disse que quando verificam a ausência de transparência, usam os seus recursos para corrigir essas acções. “E é isso que faremos para auxiliar Angola”.
“Vim por um motivo muito especial: existe uma oportunidade imensa e a América quer fazer parte desse processo, auxiliando-a na melhoria do nível de prosperidade.
Prometeu, por via de várias empresas norte-americanas, investir mais de dois mil milhões de dólares em Angola em projectos de petróleo e gás natural. “EUA querem ser “bons parceiros do povo angolano”.
Falou da agenda de reformas de transparência financeira e combate à corrupção, implementada pelo Presidente angolano, João Lourenço, que, para ele, “precisa continuar e se enraizar”.
E se for conjuntamente bem feito, mais acordos serão alcançados e as instituições tudo farão para promover o emprego e a riqueza. “Faremos a nossa parte para o povo angolano alcançar a prosperidade”.
Entretanto, entende-se que a visita de Mike Pompeo tem muito mais para além de uma simples visita do chefe da diplomacia dos Estados Unidos da América. Por ser uma das principais economias do mundo, Angola tem muito a ganhar. Aliás, o mesmo sucede com os acordos rubricados com outras potencias económicas. Caso da Alemanha, cuja Chanceler esteve também há dias em Angola. Uma cruzada de relações comerciais interessante.
Como mesmo concluiu o zungueiro informante: “São os americanos. Eles são os donos do mundo”. Se prometeram ajudar Angola a reaver o dinheiro saído do país ilicitamente. Se assumiram ajudar no combate à corrupção. Se, pela voz de Mike Pompeo, consideram positivo o trabalho do Presidente João Lourenço, logo, está-se na direcção correcta.
Se tudo isto serve para o retorno à normalidade da vida nacional, se traz prosperidade, se em muito pouco tempo combate à fome e à pobreza, então se está no bom caminho. Sendo assim, e agora sim: o país começa a ter rumo certo… A ganhar consciência de que refinar não é só o petróleo.