Opinião

Produção e importação

Quando o preço do barril de petróleo alcançou a fasquia dos 30 dólares americanos e com fortes sinais de contínua queda, a nossa economia quase entrou em convulsões: em pouco tempo as divisas, simplesmente, escapuliram e por conta disso as importações caíram drasticamente, o que fez com que os preços dos principais bens de consumo subissem duas ou mais vezes. Alguns lojistas oportunistas fechavam os seus estabelecimentos, esperando preços maiores no dia seguinte. A farinha de trigo tornou-se rara e o preço do pão virou destaque nos órgão de comunicação social, para não falar dos acesos debates que o mesmo provocou nas redes sociais.

Enquanto alguns dignitários do Estado se desdobravam em contactos com as instituições financeiras internacionais, outros, nos seus discursos, colocavam o acento tónico na necessidade do aumento da produção no país. Paralelamente a isso, alguns países, incluindo angola defendiam a necessidade de se efectuarem cortes na produção global de petróleo de modo a desencharcar o mercado, trazendo assim os preços para níveis mais ou menos aceitáveis. Devido a um conjunto de factores, essa pretensão acabou sendo depois efectivada. Assim, os preços do barril de petróleo iniciaram uma ligeira subida, o que lhe permitiu situar-se acima dos 50 dólares.
Devido a essa ligeira estabilidade dos preços do petróleo, o país conseguiu equilibrar as importações, reduzindo, em certa medida, os preços dos principais produtos de consumo. Contudo, não devemos nos esquecer que, por incrível que pareça, algumas potências mundiais usam o preço do petróleo como arma para alcançarem os seus objectivos. Assim, quando lhes convém, manietam o mercado, trazendo os preços para níveis que bem entendem. E nestas situações, além de atingirem os seus adversários directos, abalam também os países “distraídos” que se apegam apenas no petróleo como principal âncora da sua economia.
Tendo tantas potencialidades, o nosso país não pode continuar a gravitar em torno do petróleo. Não sei o que seria de nós se o preço caísse abaixo dos 15 dólares! Curiosamente, algumas pessoas, sobretudo as que não gostam do governo, vaticinavam este cenário, o que felizmente não veio a acontecer. Apesar disso, esta hipótese (do petróleo cair para níveis impensáveis) não se descarta totalmente. Daí que, na nossa pobre visão, Angola tem de estar atenta, para não ser apanhada com as calças na mão.
Se temos milhares de hectares de terras aráveis, bom clima, rios caudalosos e mão-de-obra jovem, por que é que temos de submeter a nossa economia à tortura de importações absurdas? Enfim…muitos dos principais produtos que o país importa, não levam mais de cinco meses a serem produzidos até chegar à mesa dos consumidores. Tal é o caso dos cereais e das leguminosas, por exemplo. Pelo que, volvidos cerca de 15 anos de estabilidade, já era tempo do país ter apenas uma importação residual destes produtos.
O excesso de importações é um dos principais vilões da nossa economia. As importações drenam para o exterior uma boa parte das nossas divisas, que até já são escassas. Há que repensar a produção interna. Hoje é comum ouvirmos muitos dignitários do Estado angolano a defenderem o aumento das exportações, o que é salutar. Mas se ainda não produzimos o suficiente para o consumo interno, por que falar tanto em exportações? Alguém dirá que se tratam das exportações de matérias-primas como a madeira em toro, o petróleo bruto, o café em grão, etc. contudo a estes, é pertinente alertar que exportar matérias-primas, em vez de produtos acabados ou semi acabados, é tão-somente um erro estrondoso, do ponto de vista económico; uma grande distração, pois a transformação destas matérias-primas fora do país, potencia outras economias em vez da nossa.
Para nós está mais que na hora de produzirmos efectivamente para mitigar as importações. São mais de três mil milhões de dólares que o país perde anualmente com as importações. Precisamos ser ousados, produzir e remover todos os factores que emperram a produção interna, caso contrário, um dia destes, seremos mesmo apanhados com as calças na mão.