Opinião

Produção de alimentos básicos

Produzir localmente produtos da cesta básica tem sido um sério problema para a maioria dos países da África Subsaariana e para Angola também

Produzir localmente produtos da cesta básica tem sido um sério problema para a maioria dos países da África Subsaariana e para Angola também. Embora tenhamos um mar de potencialidades (que nos permite driblar este problema), não temos conseguido propiciar a produção de alimentos, em quantidades suficientes, para fazer face às necessidades internas. Assim, para contrabalançar a demanda nacional por comida, a solução continua a passar, em certa medida, pela importação.
A importação e a exportação são operações económicas normalíssimas em qualquer país. Porém, quando se importa (e quase sempre), até aquilo que se pode produzir localmente, significa que se está a cultivar e a perpetuar deliberadamente um quadro económico nebuloso, com consequências incalculáveis para o presente e para o futuro.
Nos últimos tempos, quando as instâncias competentes do Executivo apresentam dados sobre a quantidade de divisas despendidas para importar isto ou aquilo, os números são quase sempre assustadores e contam-se tranquilamente aos dedos os mortais que não ficam boquiabertos. Ou seja,o nosso país perde muito dinheiro “tipo nada” e, às vezes, nem nos demos conta.
Precisamos ter consciência de que, um país que quer crescer e diversificar a sua economia nunca deve dar-se o luxo de perder tantos recursos financeiros, sobretudo com importações daquilo que pode tranquilamente produzir, num abrir e fechar de olhos, com pequenas doses de atenção, visão e trabalho abnegado.
Temos a sensação de que,desde que as fragilidades da nossa economia ficaram totalmente expostas, em 2014, a situação pouco ou nada melhorou até hoje. Parece que continuamos no mesmo ponto e com as mesmas fraquezas.Quer dizer que, se por qualquer azar o preço do barril de petróleo cairpara a casa dos 30 dólares americanos ou menos (que o diabo seja surdo), poderemos voltar a ficar com os olhos arregalados.
Pensamos que temos perdido muito tempo, buscando soluções “miraculosas”, e sobretudo vindas de fora, quando daí, pouco ou nada virá por vários factores. Aliás, o investimento externo, embora seja bem-vindo, é quase sempre interesseiro. Ninguém virá investir no nosso país pelo facto de sermos muito bonitos. As soluçõespara muitos problemas, que nos apoquentam, devem ser encontradas, em primeira instância, cá dentro do país.
Muitos se calhar não sabem,mas a verdade é que, a maioria dos produtos da cesta básica, para serem produzidos, só precisam de três mesitos, desde o lançamento das sementes, até à colheita. E, estes mesmos produtos, em muitas partes do território nacional, podem ser produzidos em todas as épocas do ano, com a máxima simplicidade, sem precisar de aditivos químicos e muito menos de sistemas complexos de irrigação.
Ainda nesta senda, uma parte significativa do território nacional apresenta condições naturais propícias para a criação de todo o tipo de gado, com pastos rigorosamente planos e verdejantes. Mesmo assim, e depois de muitos anos de “tranquillitasanimi”, a maior parte da carne que se consome no país é, simplesmente, importada.
Como sabemos, várias medidas já foram tomadas para propiciar o incremento da produção massiva, sobretudo dos produtos da cesta básica no país. Também já oramos, como dizia alguém. Porém, os resultados nunca são famosos.
Paralelamente a isso, o problema do desemprego, nos últimos tempos, parece agravar-se ano após ano. Centenas de jovens recém formados no país ou no estrangeiro não conseguem encontrar um emprego formal. Não conseguem sobretudo porque a nossa economia não cresce há um bom número de anos.
Mas, este quadro pode ser mudado radicalmente, se for do nosso interesse. Para o efeito, precisamos começar a produzir os nossos próprios alimentos com destaque para os produtos da cesta básica, pelo menos a nível das necessidades internas. Desta forma, o processo de produção, até colocar os produtos à mesa dos consumidores, vai criar um número incalculável de preciosos postos de trabalho.
Por outro lado, e porque já não será preciso gastar mais tantos recursos para assegurar a importação de comida, o país vai poupar dinheiro, o que poderá ser usado para financiar a própria economia, lançando-a para a rota do crescimento sustentável. Mas nunca podemos perder de vista que isto só se consegue com rigor, audácia, sagacidade e disciplina que, de resto,são qualidades que nos têm faltado, daí, vezes sem conta, falharmos no alcance de certos objectivos.