Opinião

O bom e o mau crédito

Tal como tudo na vida financeira, o crédito é um bem ou um produto transacionável, que é desenhado, produzido, vendido e posteriormente consumido e os bens com tais características são de vária ordem qualitativa, há bons, menos bons, maus e muito maus, então o que será um créditobom ou mau, ou para quem ele é efectivamente bom ou mau?

O crédito corresponde a ponta do iceberg, pois lá em baixo existe ou deve existir uma base que se quer sólida e que define a qualidade do produto, como todo bem final, a sua utilidade (aqui a utilidade delimita à qualidade) depende dos imputes utilizados.
O bom crédito é sempre aquele que dá origem a outros bons créditos, pois são cumpridos os requisitos de base e o risco é perfeitamente “assumível” pelo promotor e financiador, pois aqui os projectos de investimento são realistas e ajustado às reais projecções económicas.
Neste contexto, para a economia gerar cada vez melhores créditos é necessário que haja um bem sucedido financiamento inicial (que também pode ter origem num crédito), que dê origem a um investimento, este deve ter viabilidade (que com as vendas possa pagar custos e também devolver o capital e juros).
Para tal, é essencial que aquele investimento se transforme em uma ou várias unidades de negócio que gerem empregos e paguem salários condignos e os seus fornecedores a tempo, que arquem com as suas responsabilidades para com o Estado e, por fim, gerem lucro para quem arriscou na sua criação e juros para quem emprestou o dinheiro, pois de outra forma não valeria apenas investir.
Quando são criados empregos dignos, haverá bons salários que são aqueles que cifram-se sempre acima do consumo, pois apenas desta forma é possível haver poupança. Por outro lado, só com os lucros da unidade de negócio é possível haver reinvestimento naquelas unidades, acumulação de riqueza e mais poupança.
Por outro lado, quando se geram mais, melhores empregos e salários, as pessoas consomem mais, as unidades de negócio facturam mais e a dinâmica económica é mais acentuada e voltada para o crescimento.
Desta forma, o Estado arrecada mais e investe cada vez mais e melhor na economia, aumentando a “dimensão” da capacidade de contratação pública e de forma directa, deverá potenciar a utilização de mais recursos pelo sistema financeiro acrescendo desta forma o caudal de capital para ser emprestado.
É o mesmo que dizer que a poupança das unidades de negócio, das famílias e do próprio Estado, constituem tudo o que nós conhecemos como “fundos emprestáveis” pelos bancos ou por outros financiadores. Para tal, é necessário que exista uma diferença positiva entre o rendimento e o consumo para que se consiga poupar e posteriormente voltar a emprestar aos que estão mais atrás na fila da obtenção do crédito.
Educadamente, respondendo a outra parte da pergunta: poderemos afirmar que estaremos em presença de um crédito mau, quando a dívida a ser contraída não é sustentável ou quando não se cumprem os requisitos básicos para se emprestar o dinheiro, quando a sombra do risco é tão intensa que cobre o clima ensolarado do retorno?
Não é bom crédito quando é concedido sem a “mínima garantia” (pois nunca é 100 por cento garantido) de retorno, o que vai impactar, por exemplo, na capacidade do investimento, gerar um negócio com cabeça tronco e membros, pois a capacidade produtiva nunca será alcançada, os compromissos com os clientes, trabalhadores, fornecedores e com o Estado jamais serão honrados.
Num cenário de muitos maus créditos, o efeito bola de neve é indubitável, pois se não se entrega a mercadoria ao cliente este não produz (não vende e não paga os seus custos), se não se pagar aos fornecedores deixam de fornecer às várias empresas (deixam de vender e pagar os seus custos).
Se não se pagam os trabalhadores estes deixam de ter condições para trabalhar (deixam de poder sustentar as suas famílias), e por fim, quando não se paga ao Estado, este deixa de prover as infra-estruturas básicas para a vida do cidadão, bem como para o funcionamento do próprio sistema económico.
Neste contexto, para haver crédito e bom crédito é preciso que as instituições sejam fortes e isentas para fazerem cumprir os critérios e que os projectos sejam realistas e versáteis (para acomodarem os processos de ajustamento) e por fim gerem riqueza e dignidade para quem arrisca (investidor), para quem emprega (mão-de-obra) ou quem ele transacciona (fornecedores e clientes), de outra forma não passará de um cocktail envenenado demasiado perigoso para quem empresta, bem como para quem o solicita.