Opinião

Mês mais longo do ano

Janeiro está prestes a terminar, quando as famílias em geral fazem contas à vida, depois de aliviarem em Dezembro as contas bancárias, ou as reservas domésticas, com despesas acima da média, devido aos festejos de Natal e Ano Novo.

Janeiro está prestes a terminar, quando as famílias em geral fazem contas à vida, depois de aliviarem em Dezembro as contas bancárias, ou as reservas domésticas, com despesas acima da média, devido aos festejos de Natal e Ano Novo.
Definido como o “mês mais longo do ano”, Janeiro é um tormento para a maioria da população, em termos de gastos, superiores a qualquer outro período, em condições normais, apesar de ter 31 dias, como os restantes seis da mesma característica.
São 31 dias de austeridade que parecem uma eternidade, até ao próximo pagamento de salário, quando “chega” no final da última semana, na melhor das hipóteses, porque nem sempre é assim.
Com excepção das empresas sólidas, na maior parte das vezes, os trabalhadores recebem o salário na primeira semana de Fevereiro, o que torna ainda mais difícil gerir o orçamento doméstico.
Os trabalhadores precários, como as zungueiras, outros ambulantes e biscateiros em geral, passam por cima dessa aflição, assobiam para o lado e sobrevivem com o mínimo rendimento proporcionado pelo negócio informal, porque estão por conta própria, ao contrário dos assalariados, dependentes da entidade patronal.
Mas aqueles que trabalham 11 meses numa empresa em regime de efectividade, sujeitos ao cumprimento de um horário rígido, ansiosos com a chegada de Dezembro, para receberem o salário e o “décimo terceiro mês”, ou eventualmente o subsídio de Natal, sofrem da tentação de gastar em poucos dias os rendimentos excepcionais.
O dinheiro suplementar dá jeito para despesas extraordinárias, com comida, bebida, prendas de Natal e outras compras adiadas para o último mês do ano. Em geral, os assalariados desfrutam dessa época especial para efectuar gastos supérfluos, ignorando um princípio básico da economia doméstica: nunca gastar mais do que as necessidades.
Uma pessoa esclarecida ou, como se diz agora, instruída na literacia económica, faz contas antes de gastar em prazeres efémeros, bens de consumo de curta duração e despesas inúteis.
Como se diz amiúde, o “tempo não está para brincadeiras”, com a crise que “estamos com ela”, para empregar uma expressão popular.
Janeiro é um mês crítico para a maioria dos angolanos no que diz respeito a encargos. Além das despesas habituais com a alimentação, renda de casa, conta da água e luz, combustíveis e transportes, há pagamentos inadiáveis relacionados com matrículas escolares e compra de material didáctico, cujos montantes atingem valores quase impraticáveis, principalmente quando o agregado familiar é vasto. A isto acresce, entre outras obrigações, o pagamento da taxa de circulação, para quem possui um veículo, e impostos de vária natureza, com algum alívio devido à extensão dos prazos de liquidação.
Todos os anos repete-se a “dose” em Janeiro e no final da primeira semana a maioria da população começa a “travar no ferro”, como se diz na gíria. Depois, vem a aflição da austeridade nas três semanas seguintes, em que a vida parece estar suspensa no tempo, numa comparação exagerada com o preso que risca traços na parede da cela a descontar os dias que faltam para o regresso à liberdade.
Janeiro é um espartilho que asfixia ao ponto de tirar as pessoas do sossego, com contas de somar e dividir, sem margem de erro, para ajustar o deve com o haver. Depois - oh!, que felicidade - chega Fevereiro, o “cambuta da família”, com menos três dias - dois em ano bissexto, e tudo volta à estaca zero.
Para trás ficaram os dias de aperto, com contenção de despesas e começa um novo ciclo até Janeiro do ano seguinte em que se repetem os erros, porque a tentação do despesismo é grande quando, de um momento para o outro, os bolsos ficam mais pesados e a conta bancária engorda com dois salários num mês, ou um subsídio extraordinário.
Em vez de desperdiçar dinheiro com gastos supérfluos, um chefe de família avisado, por exemplo, só tem a ganhar se aproveitar esse rendimento ocasional para realizar uma poupança. O dinheiro excedentário, depois das despesas ordinárias, representa uma “almofada” financeira, como se diz agora, muito útil em tempo de crise económica para fazer face a despesas imprevisíveis.
Essa gestão parcimoniosa de recursos garante estabilidade financeira e tranquilidade espiritual ao longo de Janeiro, evitando os apertos característicos do “mês mais longo do ano”.
Depois da euforia da quadra festiva, é tempo de fazer contas à vida, sobretudo neste início de ano ensombrado pela grave crise económica e financeira que persiste desde o II semestre de 2014, com um desfecho longe da vista. Até lá, prevalece o ditado popular “no poupar é que está o ganho”, para que ninguém diga, daqui a doze meses, que entrou no novo ano com os dois pés e saiu de costas.