Opinião

Linha vermelha da governação

Na sessão de encerramento do 6.º Congresso Extraordinário do MPLA realizado em Luanda há uma semana, o Presidente João Lourenço lançou mais um dardo certeiro no alvo, que reafirma o novo espírito de governação que adoptou em Setembro do ano passado.

Na sessão de encerramento do 6.º Congresso Extraordinário do MPLA realizado em Luanda há uma semana, o Presidente João Lourenço lançou mais um dardo certeiro no alvo, que reafirma o novo espírito de governação que adoptou em Setembro do ano passado.
O prometido combate cerrado à corrupção, à bajulação, ao nepotismo e à impunidade ganhou agora um novo impulso, na sequência de uma séria advertência aos militantes do partido no poder, em especial aos dirigentes e, em geral, a todos os detentores de cargos públicos.
O sucessor de José Eduardo dos Santos na chefia do Estado e também do MPLA, desde o último conclave, recebeu uma prolongada ovação quando traçou uma “linha vermelha”, que não pode ser transposta. Por outras palavras, referiu que ninguém está acima das leis, nem mesmo altos dirigentes que tenham infringido as leis e atentado contra os interesses do Estado e da Nação.
Doravante, ninguém ficará impune se forem descobertos eventuais desvios de conduta no exercício de funções políticas, governativas e administrativas no Estado e no partido. Com este aviso aos militantes e à Nação, o mais alto magistrado do país definiu a “linha vermelha” para a prática de crimes associados à corrupção endémica.
Instalada há muitos anos e raramente combatida, apesar de muitas promessas, a corrupção causou elevados e irreparáveis danos à sociedade e à economia, minadas a partir do aparelho de Estado. A apropriação de bens públicos comprometeu o cumprimento de objectivos na esfera social e económica, em momentos cruciais como a defesa da Independência e da integridade territorial, numa primeira fase, e, posteriormente, no período de reconstrução nacional.
Os responsáveis por desvios de dinheiro público raramente foram levados à barra dos tribunais, salvo alguns funcionários do escalão intermédio. Apressados em fazer fortuna de forma fraudulenta, acabaram por deixar “pontas soltas” no esquema de corrupção, com destaque para os sinais exteriores de riqueza. Estes, por incúria ou por não comerem à mesa dos manda-chuvas, responderam perante a Justiça e estão a pagar pelos crimes cometidos. Mas aqueles que estão nos camarotes, acima dos “espectadores” da plateia, continuam a desfrutar da riqueza de origem duvidosa.
O cidadão comum, afundado numa vida desgraçada imposta pela austeridade, pobreza e desemprego, sabe distinguir a árvore da floresta e interroga-se: Como é que pessoas que nada tinham há vinte ou trinta anos, hoje são ricos? E no topo desta classe minoritária ainda está uma pequena franja da sociedade sedenta de riqueza e insensível ao drama da maioria da população angolana.
A guerra civil e as suas consequências são apenas uma das muitas causas da terrível situação económica, financeira e social actual. A conjuntura tem origens profundas e antigas, radicadas nos erros de governação, na falta de visão estratégica, na escolha de alianças estratégicas inadequadas aos interesses nacionais, nos investimentos supérfluos e ruinosos, na promoção da incompetência para beneficiar familiares e pessoas próximas - por via do nepotismo -, na sobreposição dos interesses partidários aos do Estado, na promiscuidade entre a política e o mundo dos negócios, na dependência económica da indústria petróleo em detrimento de sectores produtivos como a agricultura e a indústria transformadora, na subalternização do ensino, da investigação científica e da educação moral.
Angola e o seu povo estão a pagar pelos erros e desvios de rumo acumulados anos a fio. Vai ser necessária mais do que uma geração para repor o “comboio nos carris”, apesar da boa vontade várias vezes manifestada pelo Presidente João Lourenço, sobre quem recai a ingente tarefa de inverter a situação.
Com o discurso proferido pelo novo líder do MPLA no encerramento do 6.º Congresso Extraordinário, renasce a esperança num futuro melhor, se as palavras tiverem uma expressão prática através do combate cerrado à corrupção, à bajulação, ao nepotismo e à impunidade.
A mudança na esfera do poder abre um longo caminho, cheio de dificuldades, em direcção ao desenvolvimento, ao crescimento da economia e à moralização da sociedade. Face à grandiosidade do desafio, é preciso dar tempo ao tempo para os angolanos começarem a sentir os benefícios materiais da nova estratégia de governação.
Porém, a “linha vermelha” traçada pelo Presidente da República é um “selo de garantia” para o que aí vem, pois, como diz o ditado popular, “o que nasce torto, cedo ou tarde endireita”.