Opinião

Harley-Davidson e Trump

O Presidente do Estados Unidos da América, Donald Trump, “comprou” mais uma “briga”, desta vez contra uma das mais famosas empresas industriais das terras de Tio Sam.

O Presidente do Estados Unidos da América, Donald Trump, “comprou” mais uma “briga”, desta vez contra uma das mais famosas empresas industriais das terras de Tio Sam.
Logo agora que os EUA estão envolvidos numa disputa comercial - há quem lhe chame guerra - com o Canadá, China, União Europeia e México, o inquilino da Casa Branca tirou da “cartola de mágico” mais uma carta viciada, que promete processos judiciais.
Desta vez, o alvo da diatribe do milionário de cabelo platinado nem é estrangeiro, por estranho que pareça. Estranho? Nem por isso.
O nacionalismo exacerbado de Donald Trump conquistou a maioria do eleitorado norte-americano na última disputa pela Casa Branca, há dois anos, com apelos ao proteccionismo da economia nacional, sob a bandeira de “América primeiro”.
As promessas de mais investimento na economia interna, redução de impostos e aumento de barreiras alfandegárias, com uma subida das tarifas aplicadas a produtos importados, colheu a aprovação de grande parte da população norte-americana, até mesmo do campo da oposição democrata.
Em teoria, o proteccionismo estimula a produção interna e o consumo de bens fabricados localmente, com reflexos positivos na balança comercial, devido à redução das importações. Mas esta política comercial tem efeitos perversos para a economia, a começar nos custos de produção interna e na sua comparação com os preços finais dos bens importados.
Os baixos salários e as leis trabalhistas restritivas em vigor nos países em vias de desenvolvimento para onde as grandes multinacionais - muitas delas norte-americanas -deslocalizaram fábricas, explicam essa diferença. A título de exemplo, é mais caro fabricar um automóvel ou um telemóvel nos EUA do que na China, Indonésia e Índia.
No entanto, Donald Trump a acredita que a política de incentivos fiscais, com a respectiva redução de impostos, acompanhada da subida de taxas alfandegárias aplicadas a bens importados, impulsiona a economia norte-americana e contribui para o engrandecimento do orgulho nacional.
Visto desse ângulo, as medidas proteccionistas dão razão ao Presidente dos EUA. A redução dos impostos sobre as empresas e o consumo estimulou a economia, criou empregos e fortaleceu a posição negocial face à China, à União Europeia e aos vizinhos Canadá e México.
Quem dava como contado que o “isolacionismo” dos EUA, baseado na arrogância, prejudicava os interesses económicos e, também, geopolíticos da principal superpotência mundial enganou-se.
O “gigante asiático” teve mais perdas do que ganhos depois de retaliar contra o agravamento de tarifas alfandegárias aplicadas às mercadorias exportadas para o Novo Mundo. O México subscreveu na semana passada um acordo comercial vantajoso para os EUA, depois de Donald Trump ter “rasgado” o tratado Nafta, de livre comércio com o vizinho do Sul e o Canadá.
A União Europeia está dividida na atitude a tomar em relação à “guerra comercial” desencadeada por Donald Trump. O Reino Unido reforçou a aliança transatlântica, agora que está de saída da comunidade de nações europeias. O Presidente francês, Emmanuel Macron, moderou as críticas contra a política norte-americana, depois de ser recebido na Casa Branca como um amigo e aliado. Angela Merkel finge não perceber que a Alemanha só tem a perder se entrar em conflito comercial com os EUA.
Por estranho que pareça, nem todas as empresas norte-americanas estão de acordo com a política comercial da Casa Branca. Em resposta, “gigantes” informáticos como o Google, Twitter e Facebook são alvos predilectos de Donald Trump. Mas ninguém esperava que a marca centenária de motocicletas Harley-Davidson anunciasse a intenção de encerrar fábricas em terras do Tio Sam.
Fundada em 1903 na cidade de Milwaukee, Estado de Wisconsin, terra de “cowboys”, pistoleiros, criadores de gado e agricultores na América profunda, a empresa de William S. Harley e Arthur Davidson é tão famosa como a Estátua da Liberdade de Nova Iorque.
Com uma facturação de 5,25 mil milhões de dólares norte-americanos em 2013, a marca centenária, celebrizada no cinema de Hollywood e na II Guerra Mundial, tem fábricas nos EUA, Brasil e Índia.
Descontentes com a política proteccionista de Donald Trump, os accionistas e administradores da Harley-Davidson ameaçam encerrar fábricas nos EUA e deslocalizar a produção para a Europa - segunda maior fonte de receitas da empresa - e a Tailândia. As famosas motocicletas de alta cilindrada ficam mais baratas se forem directamente vendidas nos mercados locais ou nas regiões periféricas, em vez dos modelos exportados pelos EUA, cujos preços são onerados pelas tarifas alfandegárias aplicadas em resposta à “guerra comercial”.