O período das “vacas gordas” terminou definitivamente no segundo semestre de 2014, quando a situação económica e financeira de Angola sofreu um forte abalo, na sequência da queda abrupta do preço do petróleo bruto nos mercados internacionais.
O período das “vacas gordas” terminou definitivamente no segundo semestre de 2014, quando a situação económica e financeira de Angola sofreu um forte abalo, na sequência da queda abrupta do preço do petróleo bruto nos mercados internacionais.
Este ciclo de crescimento negativo que o Governo espera encerrar no final deste ano está a ser marcado pela recessão económica, tendo como consequências dramáticas o encerramento de empresas, a redução dos índices de produção e produtividade, a escassez de divisas cambiais e o aumento do desemprego.
Segundo a UNTA-Central Sindical, principal confederação de organizações trabalhistas, mais de 100 mil angolanos, em todo o país, perderam o emprego desde 2014, com especial incidência em Luanda, principal parque industrial e praça de negócios, onde se concentra a maioria da população.
A diminuição de postos de trabalho desencadeia graves problemas sociais nas famílias humildes com rendimentos baixos, obrigadas a desenvolver actividades de subsistência por conta própria, mal remuneradas e precárias. A instabilidade social impulsiona a criminalidade, principalmente nas grandes cidades, onde a população carenciada também se debate com a degradação da rede pública de cuidados médicos e saneamento básico deficiente, gerador de doenças.
Resultante da dependência da economia à indústria do petróleo para exportação, o actual ciclo de recessão teria sido evitado, ou no mínimo atenuado, se a estratégia de diversificação em curso desde o último trimestre de 2017 começasse muito antes, no tempo das “vacas gordas”, quando o preço da principal matéria-prima angolana flutuava sobre uns confortáveis 100 dólares norte-americanos por barril.
Os anteriores governos tiveram cerca de 12 anos, desde o fim da guerra civil e o início da crise financeira, que alastrou como um cancro a todo o tecido empresarial, para pôr em prática a estratégia de diversificação económica. Em vez disso, ignoraram todos os sinais de alerta para os riscos derivados da dependência das receitas comerciais e fiscais da exportação de petróleo bruto e, em menor escala, do gás natural.
O antigo regime não soube tirar as lições das crises económicas e financeiras do passado, ou se o fez guardou-as numa gaveta. Com a sua atitude de passividade perante a degradação dos índices de crescimento e do nível de vida da maioria da população, em contraponto à subida dos preços das matérias-primas e mercadorias importadas, produtos e serviços, deixou escapar várias oportunidades para operar uma reviravolta na estratégia de desenvolvimento, preferindo continuar acomodado à dependência da produção petrolífera.
O ciclo de recessão coincide também com o abrandamento da actividade de exploração da principal matéria-prima de exportação, devido ao esgotamento das reservas dos jazigos mais antigos e à redução dos investimentos em pesquisa geofísica e prospecção, face à incerteza do rumo político do país no declinar do antigo regime.
A inversão do crescimento económico negativo está no topo da agenda do actual Governo que, em cerca de ano e meio, adoptou medidas que inspiram confiança entre os investidores estrangeiros e a classe empresarial angolana.
No entanto, a solidez do edifício económico e do sistema financeiro dependem mais de medidas concretas e eficazes de carácter universal e menos da boa vontade dos governantes, por mais bem intencionados.
A solução global para a saída da recessão é conhecida e deu resultados em outras paragens. Ela passa por um conjunto de acções focadas no investimento privado na indústria, agricultura, pecuária, pesca, construção civil e obras públicas, apontando ao crescimento da produção de bens e à disponibilização de serviços, com o Estado a reservar para si os grandes investimentos públicos.
Entre estes, destacam-se o fornecimento regular e a custos moderados de electricidade e água, indispensáveis ao desenvolvimento das actividades produtivas, o alargamento e modernização das redes de transportes rodoviários e ferroviários, o renascimento da marinha mercante e a dinamização da cabotagem, sem negligenciar a formação técnica e profissional em institutos politécnicos e locais de trabalho.
Se estas são algumas das condições exigidas ao Governo para o relançamento da produção material e a diversificação da economia para abastecimento do mercado interno e exportação, a fim de travar o encerramento de empresas ou, na menor das consequências, o desinvestimento privado, atirando para o desemprego milhares de trabalhadores, não menos importante é o acesso às divisas cambiais para a importação de peças e matérias-primas, a par do combate à desvalorização do kwanza e ao mercado paralelo da moeda nacional.
Depois de uma análise minuciosa da realidade, comparada com a leitura da História, só mesmo a falta de coragem política e de boa vontade dos governantes, pode condicionar o fim das crises económicas e financeiras, começando pela saída da recessão e o início de um ciclo virtuoso de crescimento.