Opinião

Estado irracional

O objectivo principal da Economia, enquanto ciência, centra-se nos fenómenos relacionados com a escassez. Neste contexto, o Estado, as empresas e as famílias deparam-se, diariamente, com situações de restrições orçamentárias, facto que compromete a satisfação cabal das suas respectivas necessidades.

O objectivo principal da Economia, enquanto ciência, centra-se nos fenómenos relacionados com a escassez. Neste contexto, o Estado, as empresas e as famílias deparam-se, diariamente, com situações de restrições orçamentárias, facto que compromete a satisfação cabal das suas respectivas necessidades. Apesar disso, a economia mantém a sua coerência e fundamento: “evitar que a escassez elimine a vida ou a torne pouco apreciável”.
Se um indivíduo se propõe a gastar todo o seu dinheiro na compra de uma casa luxuosa, lhe faltará o carro; de igual modo, se uma empresa gastar inescrupulosamente, sem apurar as necessidades de manutenção dos equipamentos ou o pagamento dos salários, terá comprometida a continuidade operacional; e o mesmo sucederá se o Estado gastar de forma irracional os recursos financeiros que consegue com a tributação das empresas e das famílias, comprometendo a construção de mais estradas, hospitais e escolas públicas à altura das necessidades das populações.
Todo o problema económico gera um problema social. Essa é uma condição elementar para o entendimento dos problemas económicos, sobretudo, em situações em que a actividade económica parece distanciar-se, cada vez mais, em dar resposta às inúmeras necessidades dos agentes económicos, como hoje se verifica.
Lidar correctamente com a escassez pode representar um aumento da riqueza e/ou redução da pobreza, um facto que remete os agentes económicos a fazerem escolhas de modo diligente. Como tudo tem um custo, devemos reflectir se é preferível comermos tudo que temos hoje e amanhã passarmos fome, ou comermos uma parte hoje e a outra amanhã.Diante dessas dicotomias, temos de fazer escolhas de forma racional. Se formos firmes na abstinência de amanhã, então podemos usufruir hoje do que estiver à nossa disposição!
A economia, ao indicar os possíveis caminhos para as melhores escolhas, em geral, não é plenamente objectiva, pois, em cada decisão repousa um juízo de valor: o indivíduo que decidiu comer tudo hoje e passar fome amanhã não é pior ou melhor do que aquele que foi mais comedido. Como alega Valdemir Pires “cada um sabe a dor ou o prazer das suas próprias decisões”.
As discussões de praxe tais como o que produzir, como, onde e quando, são questões vinculadas à escassez, eleva-nos a tomar decisões dos metódos de produção que pretendemos para o país. Parece não estar claro, ainda, se queremos cebola, inhame ou se continuaremos a preferir o petróleo. Com que tecnologias estamos a contar, da mais barata e poluente ou da eficiente, mas cara? Onde vamos investir? Nas zonas costeiras ou em zonas com real potencial agrícola?
Se não conseguirmos digerir essa dura realidade, será difícil reconhecermos que todo o dinheiro que o país consegue, com a venda de recursos naturais ou não, é pouco e escasso diante das necessidades colectivas da Nação. Se a terra para a prática de agricultura é escassa, porquê não dar o devido uso, com procedimentos agrícolas sustentáveis? Se a mão-de-obra qualificada é escassa, porquê não aproveitá-la para produzirmos internamente aquilo que mais se necessita e assim deixarmos de sufocar as reservas cambiais?
Se os factores de produção (equipamentos, máquinas e infra-estruturas, carros, hospitais, escolas, bancos, etc.) custaram caro, porquê subutilizá-las ou estacioná-las?
A não utilização máxima dos factores de produção denota falta de racionalidade e ignorância do princípio da escassez.Os materiais, os equipamentos depreciam-se; o conhecimento fica desactualizado e, assim, seremos incapazes de produzir coisa alguma.
O Japão, um pequeno país cheio de pedras, que mal consegue produzir tomate e sem uma gota de petróleo que possa chamar de minha, desponta diante de países enormes como a 3ª maior economia do mundo, com um Produto Interno Bruto per capita acima do 39 mil dólares. Porque será? Não será a disciplina, a racionalidade e compreensão do fenómeno da escassez, do foco, da educação e do ensino que fizeram daquele país um dos maiores exportadores de tecnologia e automóveis do mundo?
Não basta termos petróleo, é necessário sabermos se o seu valor agregado na economia é sustentável e se pode resolver o problema do exército de mão-de-obra desempregada. É necessário não perdermos tempo com retóricas, precisamos de pragmatismo ao ponto de conseguirmos transformar o lixo em asfalto, pois, algumas vezes confundimos com flores.
Para Thomas Malthus, a escassez era de natureza física, vinculada à dotação limite da terra. Hoje, o capital (dinheiro, equipamentos, maquinarias, etc.) e a mão-de-obra (qualificada) são recursos escassos, que podem colocar em perigo, inclusive, a soberania nacional.
Portanto, recomenda-se aproveitar a força motriz dos jovens, para que estes percebam que a vida faz sentido e que “estudar é mesmo um dever revolucionário” e não retórica política. Samuel Gonçalves-Economista