Opinião

De regresso à lavoura

Na quarta-feira (11) o Cachiungo, emblemático município da província do Huambo, dá o lançamento, qual tiro de largada, para mais uma Campanha agrícola.

Na quarta-feira (11) o Cachiungo, emblemático município da província do Huambo, dá o lançamento, qual tiro de largada, para mais uma Campanha agrícola.
O Ano Agrícola 2017/2018 é de muitos desafios, pois precisamos produzir comida em quantidade e qualidade suficientes para abastecer-se o mercado interno e haver excedentes capazes de serem exportados aos vizinhos africanos e noutras partes do mundo. Há, sobretudo, um mercado externo, onde a produção de comida é só miragem e a nossa necessidade de captar divisas longe das plataformas de petróleo, faz com o “ouro verde” venha do campo da lavoura.
Não nos queixaremos da fome, até porque há em Angola milhões de hectares de terras aráveis. Os dados apontam que são no total trinta e cinco (35) milhões de hectares de terra arável, dos quais trinta milhões (30) ainda virgens, classificados como potencialmente aráveis, destinados ao desenvolvimento. Dito doutro modo, nas nossas 18 províncias apenas cinco (5) milhões de hectares de terra são cultivados.
A todo este potencial salta à vista a existência de 47 bacias hidrográficas, as quais devem ser colocadas ao serviço da produção agrícola, para aproveitar convenientemente estes recursos naturais e diversificar a economia nacional. O momento é apenas de um casamento entre o tradicional - a enxada e a catana - com o moderno - as alfaias e os sistemas de ragadio.
O solo angolano é fértil em quase tudo, só não dizemos mais porque sempre necessitaremos do complemento externo para reforçar a nossa capacidade de produzir a partir do chão e crentes de que a chuva do amanhã é para não permitir “hoje” que ninguém passe fome.
A aposta na agricultura como fonte de geração de emprego, de sustento familiar e de geração de rendimento, deve manter o foco em tornar a nossa lavoura mais comercial e industrial, e cada vez menos de subsistência ou familiar. Mesmo nas hortas de famílias, o que se pede, hoje, é uma produção capaz de dividir a colheita com a necessidade do vizinho operário de quem sempre precisaremos a experiência da indústria para a transformação do que pode parecer menos aproveitável.
Não se deve ignorar que, em Angola, a agricultura familiar ocupa mais de dois milhões de famílias (2,4 milhões de camponeses) e produz cerca de 90 por cento dos alimentos locais, de acordo com dados do Ministério da Agricultura reportando 2016. Conta-se também com 13 mil explorações empresariais.
No passado já fomos potência. Frase bela e capaz de trazer boas lembranças a quem viveu os tempos áureos da nossa propdução agrícola, seja pela fama do café no Uíge, do algodão nos Cuanza Norte e Sul, além de Malanje, seja pelos tubérculos (batatas e mandioca) do Huambo e Bié. A realidade é que temos, actualmente, força de vontade e muito querer para permitir que o que resta da nossa experiência agrícola possa reflectir-se na oferta de ano em ano do que somos capazes de colher de nossos campos familiares ao que resultem do cooperativismo na agricultura.
Enquanto a cidade cria condições com estradas melhoradas e uma rede de transportes (comboios, autocarros e outros meios) capazes de gerar mobilidade interna, nos campos há que se voltar a dar dignidade aos camponeses. Do que somos capazes de produzir, teremos de ser suficientemente audazes para fazê-lo com mestria e a engenharia necessária, mesmo quando tivermos de improvisar.
No início do ano, o Executivo fez a emissão de 5.850 milhões de kwanzas (33 milhões de euros) de dívida pública para financiar a concessão de crédito a produtores agrícolas, no âmbito de uma emissão especial de Obrigações do Tesouro em Moeda Nacional.
A nossa caneta já foi a enxada noutrora. E como as memórias de um inusitado escritor de nossos dias, o rato dos computadores que seguramos nos escritórios, em sinal do nosso encontro com a globalização, já foi a caça de ratos comestíveis nesse ambiente de lavoura de onde boa parte de nós viemos.
As universidades devem produzir estudos e informações capazes de transformar o solo agreste em zonas aráveis. O fenómeno de queimadas que aqui e acolá ainda assistimos tem de ser acompanhado com campanhas de sensibilização em como esta prática mata o solo ou ao menos diminui o seu tempo de vida útil. Há mesmo solos virgens, mas inférteis. Desde logo, a produção agrícola nacional terá de ser capaz de devolver a alegria de quem come o nacional, na sua qualidade e gosto.
A vida do campo é dura, mas agradável. A chuva entristece e alegra, pois da impossibilidade de trabalharmos em simultâneo, também dela depende-se em boa parte para que a natureza se encarregue do regadio do chão arável, ali onde o plantio daqui a dias começa em máxima força.
Angola tem um potencial de sete milhões hectares para perímetros irrigados para produção agrícola, 3,5 milhões dos quais de exploração tradicional. Estão a ser utilizados 45 mil hectares, envolvendo nomeadamente investidores privados.