Opinião

As jeans deram à costa

O primeiro-ministro de Portugal, António Costa, criou um novo paradigma nas relações internacionais: A Diplomacia Jeans. Quando desembarcou na última segunda-feira no Aeroporto Internacional de Luanda, o chefe do Governo luso chamou a atenção das entidades oficiais angolanas e de outros observadores pela indumentária “cool”, informal, fixe, moderna.
O “blazer” escuro sobreposto a uma camisa branca de mangas compridas, com o primeiro botão desabotoado a expor a “maçã de Adão”, sem o espartilho de uma incómoda gravata, deixava à vista um par de calças jeans.
Algumas pessoas torceram o nariz, sem dar a entender, perante uma suposta falta de respeito de um ilustre hóspede de tez escura, que não sofre de qualquer preconceito racial e de superioridade. Pelo contrário. Filho de pai português natural de Goa, Índia, e de uma jornalista branca, também portuguesa, o lisboeta que abraçou a política com 14 anos de idade nas fileiras da Juventude Socialista, tem perfeita noção da responsabilidade do cargo que detém e da importância desta visita histórica a Angola. Como sempre acontece nestas ocasiões, os viciados em redes sociais não perderam a ocasião para desancar no chefe de Governo de Portugal, um apreciador de rock, cosmopolita e poliglota, que se move como peixe na água no mundo da política.
O antigo aluno do professor Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente de Portugal, foi vilipendiado injustamente por pessoas que usam o horário de trabalho para receber e enviar mensagens nojentas nas redes sociais.
António Costa veio a Angola em missão diplomática de boa vontade, para fortalecer as relações entre dois países que estão “condenados” a conviver para sempre, por muito que doa aos contaminadores das redes sociais. A fotografia da chegada de António Costa a Luanda estampada em quase todas as capas dos diários portugueses valorizou, salvo uma excepção, uma iniciativa diplomática importante para os dois países, depois de um ano de relacionamento marcado por momentos de tensão, devido ao “irritante” conflito do antigo Vice-Presidente de Angola, Manuel Vicente, com a justiça portuguesa. Sanado este problema, os governos de Luanda e Lisboa trataram de restabelecer a harmonia nas relações bilaterais. Como dizia o antigo Presidente de Moçambique, Samora Machel, relativamente à África do Sul na era do “apartheid”, os vizinhos não se escolhem.
Não sendo o caso nas relações de Angola com Portugal, distanciados por oito horas de voo comercial, os dois países estão mais próximos do que nunca. As ligações ancestrais entre os respectivos povos favorecem a cooperação bilateral em todas as áreas, agora relançada, depois de um momento de crispação política, acentuado pela crise económica e financeira que afecta Angola desde 2014, com a queda do preço do petróleo bruto no mercado internacional, e condiciona os pagamentos devidos a empresas portuguesas.
O mal estar nas relações oficiais veio à tona em Setembro do ano passado, no acto de posse de João Lourenço como Presidente da República. No seu discurso, marginalizou Portugal perante uma vasta assistência de Chefes de Estado e de Governo, entre os quais Marcelo Rebelo de Sousa, quando designou os aliados estratégicos a nível económico. Perante a passividade do Presidente português, como é de timbre nestas ocasiões, mesmo depois de receber uma enorme ovação dos milhares de presentes na cerimónia, ficou no ar a ideia de que as relações bilaterais estavam por um fio, a ponto de se especular sobre uma ruptura diplomática.
Alguém no seu perfeito juízo acreditava nesse desfecho radical? No meio da tormenta, a diplomacia tratou de acalmar os ventos da discórdia e o resultado está à vista. António Costa foi o primeiro Chefe de Governo a visitar Angola em sete anos e João Lourenço desloca-se a Portugal em Novembro, dez anos depois de José Eduardo dos Santos.
Mais do que um “milagre” da diplomacia, prevaleceu o bom senso entre as duas partes, porque “valores mais altos se levantam”, como soe dizer. Entre estes, destacam-se os laços sanguíneos entre dois povos irmãos, que jamais serão rompidos.
A irmandade é o esteio da cooperação económica e comercial, facilitada pelas relações políticas e diplomáticas entre Luanda e Lisboa. Os voos diários entre as duas capitais, com passageiros em lista de espera, é uma prova dessa ligação umbilical, que António Costa pretende fortalecer com a sua visita.
Nos bolsos da calça jeans, roupa de trabalho celebrizada nos Estados Unidos da América por Levi Strauss a partir de 1873 e que lhe assenta bem, o pupilo do professor Marcelo Rebelo de Sousa trouxe uma agenda que reflecte bem a importância da cooperação bilateral em várias esferas. No topo, estava o relançamento da cooperação estratégica na Educação, Saúde, Agricultura, Indústria, Construção e assistência técnica às Forças Armadas e Polícia Nacional. A assinatura de uma convenção para o fim da dupla tributação e o aumento da linha de crédito de apoio às exportações portuguesas para Angola, de mil milhões de euros para mil e 500 milhões, são marcos assinaláveis desta “diplomacia de jeans” que “deu à costa”.