Opinião

As expectativas no mercado

Qualquer transição gera sempre uma expectativa. Quer nos governos, quer nas empresas, nas instituições de ensino, nos sistemas económicos até mesmo em casa.

Qualquer transição gera sempre uma expectativa. Quer nos governos, quer nas empresas, nas instituições de ensino, nos sistemas económicos até mesmo em casa.
Por isso, as expectativas em relação ao futuro desempenham um papel central em qualquer economia de mercado, influenciando basicamente, quase todas as transacções e decisões económicas. Se por exemplo os clientes estiverem convencidos de que um determinado banco vai falir, é provável que isto venha a acontecer. Os clientes entram em pânico e começam a retirar todo o seu dinheiro nas contas.
Este tipo de expectativas tem especial interesse para os macroeconomistas, pois elas podem empurrar a realidade económica, não apenas numa direcção negativa, mas também na positiva. Por isso é que muitos economistas pensam que, em alguns casos, o governo tem de ajudar a cultivar as expectativas positivas.
Mas, na realidade, gerir as expectativas é a função mais importante da política macroeconómica, tanto no campo monetário como fiscal, pois, nem as empresas nem os indivíduos querem ficar a perder com a inflação. Se por exemplo, os trabalhadores esperarem que os preços ao consumidor nos meses e anos seguintes irão subir, é provavelmente que venham a exigir salários mais elevados para assegurar os seus rendimentos reais, ou seja, para que os seus rendimentos após o ajustamento a inflação não diminuam.
E o mesmo acontece com as empresas, pois se elas saberem que os salários e os preços das matérias-primas venham a aumentar, é provável que tentam aumentar os preços para assegurar que os seus ganhos não diminuam.
Para isso não ocorrer, o banco central deve ser credível, isto é, fazer com que as expectativas sejam baixas, levando o público acreditar que vai combater a inflação efectiva (através do aumento das taxas de juro, por exemplo).
Pelo contrário, um banco central que sofra de falta de credibilidade tem graves problemas com as pressões inflacionárias a surgir por todo lado e a todo o instante.
Este tipo de credibilidade é, na verdade, difícil de obter, porque combater a inflação é um exercício muito “arriscado”, pois o banco central, tem de aumentar a taxa de juro (o que envolve provavelmente, um corte ou pelo menos um abrandamento do crescimento da oferta da moeda). À medida que as taxas de juro vão aumentar devido a uma política monetária mais apertada, o consumo e o investimento pode abrandar, dado que os empréstimos, tanto ao consumo como às empresas se tornam mais caros. O próprio produto pode crescer a um ritmo mais lento, ou mesmos contrair-se, e é provável que o desemprego aumente.
Por exemplo,nos Estados Unidos América, para acabar com a elevada taxa de inflação desde os anos 70, o então presidente da reserva federal, Paul Volcker elevou a taxa de juro a níveis sem precedentes (20 por cento no seu pico), induzindo a pior quebra económica americana desde a crise dos anos 30.
O PIB real desceu 2 por cento em 1982 e o desemprego atingiu quase 10 por cento nesse ano. Os políticos das duas principais formações (Partido Democrático e Republicano), exprimiram a sua indignação e um candidato republicano ao senado americano declarou que “a política de taxas de juro elevadas estariam a estrangular a economia e a atirar milhares de americanos ao desemprego”. Volcker acabou com a inflação de dois dígitos, mas na altura foi largamente criticado.
Se o presidente da FED estivesse sujeito as eleições directas poderia ter sido afastado perante a pressão pública, por ser o principal responsável de elevar o desemprego, e as suas hipóteses de vencer as eleições seriam remotas. Mas Volcker, como todo os presidentes do FED tinha sido nomeado pelo presidente dos EUA e não podia ser despedido até o final do seu mandato de 14 anos à frente da instituição.
É precisamente por essa razão, que a maioria dos economistas monetaristas defendem que os bancos centrais sejam independentes do processo democrático de curto prazo, e até certa medida independentes dos políticos e da política no seu todo.