Opinião

Arborização e qualidade de vida

É cada vez mais preocupante o aumento do nível de calor. No ano transacto, a Europa e alguns países ao redor do mundo registaram um aumento significativo dos níveis de calor, fortemente sentido, sobretudo, nas zonas não arborizadas.

É cada vez mais preocupante o aumento do nível de calor. No ano transacto, a Europa e alguns países ao redor do mundo registaram um aumento significativo dos níveis de calor, fortemente sentido, sobretudo, nas zonas não arborizadas.
E se registássemos esse aumentono nosso país? As nossas cidades estão suficientemente arborizadas para atenuar os seus efeitos? Ora, dada a pertinência do tema, propusemo-nos reflectir, resumidamente, sobre este componente essencial do ambiente – a arborização urbana.
Em linhas gerais, a arborização urbana traduz-se no acto de plantar árvores no meio urbano. Porém, note-se que não significa plantá-las em ruas, avenidas, jardins, praças ou criar áreas verdes de recreação pública, de forma aleatória ou arbitrária.
Ela exige planeamento e cuidados específicos para que contribua, realmente, na melhoria da qualidade do ambiente - que é um direito constitucionalmente protegido(art.º 39.º da CRA) – pelos inúmeros benefícios que nos oferece.
Entre os benefícios, importa destacar que a arborização urbana(i)ajuda na purificação do ar,(ii)reduz a poluição sonora, (iii)auxilia na diminuição da temperatura,porque absorve os raios solares e refresca o ambiente pela quantidade de água transpirada pelas folhas, (iv)diminui o impacto das águas das chuvas,(v)aumenta a preservação da fauna silvestre, (vi)protege-nos contra o vento e (vii)proporciona – quando bem concebido – um ambiente estético agradável nas cidades.Por outro lado, a arborização contribui para uma boa saúde física e mental, aumenta as opções de recreação e o valor das propriedades pela existência de áreas verdes. Isto implica, uma boa selecção das árvores.
Neste particular, Pivetta& Silva Filho (2002) recomendam que as árvores devem ser resistentes a pragas e doenças, não podem conter princípios tóxicos ou de reacções alérgicas, os troncos e ramos devem ter lenho resistente para evitar danos a terceiros, com a queda das mesmas na via pública e devem apresentar bom efeito estético e não exalar odores fortes e a folhagem deve ser de renovação e tamanhos favoráveis para evitar o entupimento de calhas e canalizações ou a danificação de coberturas e telhados.
Para o efeito, é necessário - na concepção do plano de arborização e para que se evite gastos sucessivos do erário -a participação, entre outros, de biólogos, ambientalistas e arquitectos paisagistas, sobretudo, nas etapas de plantio, podas de árvores e de supressão.
No que a iniciativa de arborização diz respeito, é certo que o Estado tem tido várias ao longo dos anos, o que é positivo. Contudo, as mesmas revelam-se ainda muito aquém do expectável, quer em quantidade, quer em qualidade. Parece-nos que o desconhecimento das características de algumas zonas, particularmente ambientais, determinou o fracasso de algumas iniciativas. É o caso, por exemplo, da iniciativa de“palmeirização”
da cidade de Luanda.
Nesta iniciativa, ficou visível que o desconhecimento das especificidades de algumas zonasdificultou o sucesso do plantio.
Além disso, o sistema de rega através de camiões cisterna – com intervalos de tempo frequentemente longos - é arcaico e deve ter contribuído seguramente para o insucesso das iniciativas de arborização, pelo que se exige a adopção de um novo sistema,e maior cooperação entre as entidades envolvidas no processo.
A este respeito, vale notar que a arborização das cidades não é um dever exclusivo do Estado. À luz da nossa Constituição (art.º 39.º, n.º 1, da CRA), este dever é extensível a todos os cidadãos, incluindo as empresas, por sinal, os principais agentes poluidores do ambiente, pelo que todos devem cooperar.
Com os recursos que dispomos - água e clima -é possível termos arborizações à semelhança das de cidades como a de Joanesburgo ou do Cabo. Para terminar, entendemos que o modelo de governance desta política pública deve ser substituído. Isto é, através de concurso público, a concepção, a planificação e a execução de algumas iniciativas de arborização urbana, deviam passar à esfera privada, cabendo apenas ao Estado a fiscalização do referido processo. Também é um meio de mitigar riscos e reduzir custos.