Opinião

A “guerra comercial” de Trump

O principal slogan da campanha eleitoral de Donald Trump na “corrida” à Casa Branca, residência oficial e gabinete do Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) desde os primórdios da Independência, tem tanto de nacionalismo como de conservadorismo.

O principal slogan da campanha eleitoral de Donald Trump na “corrida” à Casa Branca, residência oficial e gabinete do Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) desde os primórdios da Independência, tem tanto de nacionalismo como de conservadorismo.
A disputa pelo Salão Oval, onde o homem mais poderoso do mundo despacha - no futuro, eventualmente, uma mulher ocupará o cargo -, foi atiçada pelo candidato multimilionário por apelos ao patriotismo e aos valores mais arreigados da história e cultura dos EUA.
Durante o habitual folclore em que se transformaram as eleições nas Terras do Tio Sam, em todos os níveis políticos, o slogan “America First” (A América Primeiro) colheu o apoio da maioria dos norte-americanos habilitados a votar.
Como era esperado, Donald Trump ganhou nos estados dominados pelo Partido Republicano, pelo qual concorreu contra a rival Hillary Clinton, mas surpreendeu quando conquistou a maioria em regiões onde o Partido Democrata, seu opositor tradicional, detinha maior influência.
O apelo ao nacionalismo e ao proteccionismo da economia funcionou na perfeição, mesmo se subsistem dúvidas sobre a transparência do processo eleitoral, alimentadas por declarações e relatórios de três agências de segurança governamentais, que asseguram haver provas da interferência da Rússia, através de redes sociais, para desacreditar a mulher do antigo Presidente Bill Clinton.
O alegado favorecimento das autoridades de Moscovo à candidatura de Donald Trump, a ser verdadeiro, teve menos impacto do que os discursos de campanha do actual Presidente dos EUA.
A retórica do inquilino da Casa Branca assentou sempre na defesa dos interesses dos industriais, agricultores e demais empreendedores, contra o que qualificou de concorrência desleal de outros países, com a China à cabeça.
A balança comercial dos EUA com a China é largamente favorável ao país asiático, que exporta para a primeira potência mundial produtos de consumo baratos, de larga aceitação.
Durante a campanha eleitoral, Donald Trump prometeu inverter a situação. O sucessor de Barack Obama cumpriu, ou não fosse ele um “político” coerente com a retórica, ainda que tenha desencadeado uma “guerra comercial” contra a China, Canadá, México e União Europeia, que se crê venha a ter efeitos devastadores para a economia mundial.
A retórica do homem de negócios convertido à política faz lembrar a célebre frase de um antigo deputado angolano: “Eu mato a cobra e mostro o pau.”
Acontece que o “pau” parece ser curto para o tamanho da “cobra”. A “guerra comercial” é uma faca de dois gumes que atinge os interesses de todas as partes e não apenas os inimigos de “estimação” de Donald Trump.
Ao elevar as tarifas aplicadas a produtos importados de países específicos, o inquilino da Casa Branca atingiu os interesses de aliados tradicionais dos EUA, como o Canadá e a União Europeia, e despertou a ira da rival China e do vizinho México.
Algumas das medidas anunciadas contra o Canadá, México e União Europeia estão a “marinar”, como se os EUA tivessem como principal alvo a China, que já respondeu na mesma proporção.
Mas nesta disputa, por enquanto quem leva a melhor são os EUA, porque podem agravar as tarifas de produtos importados da China até 500 mil milhões de dólares norte-americanos, uma fasquia que o país asiático jamais conseguirá alcançar em retaliação.
Todavia, esta disputa tem consequências económicas e comerciais para os EUA, mas também políticas, porque a retaliação da China e eventuais agravamentos das tarifas por parte dos outros países directamente visados pelas prometidas penalizações, afectam os estados rurais do Mid-West, centro do país, bastiões do Partido Republicano, cujo eleitorado votou maioritariamente em Donald Trump.
É certo que o mercado norte-americano é um dos maiores do Mundo e a economia dos EUA a mais forte, mas existe uma produção excedentária de produtos alimentares e outros bens de consumo de origem nacional. Neste âmbito, o agravamento das tarifas de importação aplicadas aos EUA pelos países visados pela “guerra comercial” encarece os produtos norte-americanos, ficando menos competitivos.
Apesar disso, Donald Trump não recua nas suas intenções, numa altura em se que perspectiva a possibilidade de concorrer à sua sucessão, porque o eleitorado do Partido Republicano mantém o voto de confiança no inquilino da Casa Branca.
Perante este “braço-de-ferro” só resta esperar para ver quem resiste mais tempo e vence o desafio. Nada garante, para já, que as ameaças contra o Canadá, México e a União Europeia venham a ser concretizadas, o que dá uma margem de manobra aos EUA, que vêem na China o principal alvo.