Mercados

Batemos no fundo

No fim de 2017, vaticinávamos um ano 2018 difícil, complicado e muito longo, no sentido em que íamos querer vê-lo passar rápido para que novos ventos cruzassem o nosso céu. A verdade, é que não erramos, o ano foi longo, difícil e muito complicado. Contudo, foi um ano que sentimos que batemos no fundo, mas que estamos preparados para decolar.

No fim de 2017, vaticinávamos um ano 2018 difícil, complicado e muito longo, no sentido em que íamos querer vê-lo passar rápido para que novos ventos cruzassem o nosso céu. A verdade, é que não erramos, o ano foi longo, difícil e muito complicado. Contudo, foi um ano que sentimos que batemos no fundo, mas que estamos preparados para decolar.
O presente ano começou com uma autêntica limpeza e arrumação política, o partido no poder mudou e reformulou-se, e a quem diga que vêm mais mudanças por aí, em termos do Executivo, nunca vimos tantas exonerações em tão pouco espaço de tempo, pois o Governo ficou mais curto, a imprensa pública mudou, e temos um Presidente que fala mais e parece querer ouvir de tudo e de todos.
Abriu-se o combate à corrupção de forma aberta e inequívoca, convocou-se a sociedade civil e os partidos políticos para a luta. Conferiu-se poder e respeito à Procuradoria Geral da República e à Polícia Nacional, sendo que ao mesmo tempo apelou-se (com uma lei branda e carinhosa) ao patriotismo dos angolanos que subtraíram o dinheiro do povo para que retornassem estes recursos ao país e investissem no futuro dos seus
próprios netos e bisnetos.
Foi o ano da operação resgate, resgate da legalidade, da ordem esquecida e principalmente da consciencialização de que sacrifícios devem ser feitos por todos e que não há angolanos mais angolanos do que outros. Entenda-se aqui também que se pretende resgatar o caminho certo para o crescimento económico, com respeito ao erário público e a iniciativa privada.
Foi ainda o ano do piscar de olho e de lançar o charme ao empresariado privado estrangeiro, com uma lei do Investimento Privado que não faz distinção entre o investidor nacional e estrangeiro. A diplomacia económica deu um empurrão decisivo. O Presidente pessoalmente fez questão de falar com investidores e convencê-los a vir para Angola, mas não como antes, pois hoje Angola precisa que venham para cá
produzir e não revender.
Foi também o ano da coragem para exorcizar fantasmas. Aqui falamos claramente das privatizações, que era um assunto que ninguém ousava colocar por cima da mesa, mas que todo mundo sabia que era inevitável, pelo que se começou pelo exemplo mais marcante, a tão poderosa Sonangol, que finalmente vai ter a oportunidade de ser uma petrolífera ao invés da bombeira nacional.
Foi o ano dos programas do Estado, virados essencialmente para a revitalização da produção nacional, para que se reduzam as importações (poupando divisas para aplicar no sector produtivo) e se relance as exportações (para deixarmos de depender do petróleo como fonte única de entrada de divisas).
Entendemos também que os programas do Estado que estão de mãos dadas com o amigo circunstancial, FMI que, de forma nada subtil impõe a sua presença e dita as suas regras.
Em termos da economia real, foi um ano complicadíssimo e esperamos que valha o esforço, apesar de termos plena consciência que importamos mais de 90% do que consumimos, “libertamos” a taxa de câmbio com o intuito de tornar as nossas exportações mais apetecíveis e para fechar o gap entre o mercado formal e o informal, mas claro ao custo de perda constante do poder de compra das famílias e das empresas, mas como já dissemos, esperemos que valha o esforço.
Foi um ano de oscilação do barril de brent que de um preço médio mensal de acima do usd 69,00 em janeiro, chegando aos usd 81,03 em novembro, sendo que tais oscilações são facilmente entendidas pelas posições extremadas e pouco inteligíveis do presidente norte-americano, pelas movimentações enigmáticas da Rússia e pelo esforço de união circunstancial da Opep, mas claro, Angola sofre, e enquanto não produzir
internamente sofrerá sempre.
Foi o ano que o orçamento da defesa e segurança não foi maior do que educação e saúde juntos, mas foi um orçamento do optimismo, em que o barril de brent está cotado a usd 68,00, quando no momento está abaixo dos usd 54,00.
Este optimismo é que move as nossas expectativas para 2019, pois o país precisa de divisas para aplicar nas infra-esturas e no sector produtivo e um barril de brent com um preço abaixo do orçamento enviesa a capacidade do Estado fazer a despesa pública de capital e aumenta a possibilidade de alargamento do défice orçamental.
Entendemos que o ano termina com a certeza de que teremos o apoio financeiro e tecno do FMI, pois os empréstimos bilaterais assinados pelo Presidente da República deverão ser operacionalizados, bem como os recursos que cremos que sejam repatriados, vão de facto impulsionar uma boa execução orçamental para 2019.
Mas é mesmo no executar bem que entendemos estar o ganho, porque nos orçamentos anteriores, o que mais pesou foi a má execução, que leva a repetir no orçamento seguinte, a forma como a despesa será feita. Acho que deverá ser a chave para o crescimento da economia nacional, pois a despesa de capital deve ter em vista a redução dos custos de contexto do nosso empresariado.
Esperemos que 2019, traga outro fôlego e outro espírito aos empresários nacionais, que deixem de ser meros comerciantes e enveredem pela produção, que deixem de vender apenas ao Estado e vendam para o mercado, pois só assim serão resilientes e competitivos porque a Zona de Comércio Livre está ai à porta.
Que 2018 seja tido como ano em que sofremos, mas mudamos, batemos no fundo mais decolamos e principalmente que seja o ano de muitas lições sobre medidas e acções que não devemos repetir, pois errar duas vezes já não é normal, tem sim outra denominação. Então, que seja o ano que começamos a rebuscar a angolanidade e o sentido
de responsabilidade.