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Vida de município envolve o Golfe 1

O bairro Golfe 1 tem história e os seus próprios mistérios, cujas circunstâncias oferecidas pelo tempo e o hábito da sua gente fez daquela localidade, um dos sítios mais conhecidos de Luanda. Hoje, este imponente bairro ganhou vida de município e o comércio domina o dia-a-dia das pessoas, abafando inclusive o nome do município sede, o Kilamba Kiaxi, que ficou apagado no tempo.

A comuna tem uma extensão de 31 quilómetros quadrados e uma população estimada em 475 mil 733 habitantes. O acesso à ela faz-se pela rua Machado Saldanha e atravessa a comuna Neves Bendinha, ambas degradadas, entretanto com consideráveis obras visíveis, que dão esperança àquela população que acredita em dias melhores.
A zona do Avô Kumbi, entre o presente e o passado, é o nome que mais se ouve entre os que lá frequentam e é sem dúvidas a circunscrição de maior destaque. O nome do bairro gera muitas controvérsias entre os luandenses, reunindo entretanto algum consenso à tese de que Avô Kumbi não é o nome do bairro, mas, sim a zona mais famosa da área.
A designação surge da veia empreendedora de Manuel Constantino ao homenagear o seu avô que se chamava Kumbi, um ancião que viveu na localidade até princípio da década de 80, disse Vasco Amado irmão mais novo de Manuel Constantino.
Segundo disse, o centro recreativo, foi a principal fonte de renda da família na década de 80 até princípio do ano 2000. O empreendimento gerou vários postos de trabalho e renda para muitas famílias. No local já não existem memórias do espaço, pois este deu lugar ao “Estúdio fotográfico Avô Kumbi”. “O nome desta zona nasce principalmente por causa da fama do meu avô”, contou.
Os outros compartimentos da antiga discoteca foram transformados em armazéns de bens alimentares e bebidas, geridos sobretudo por cidadãos eritreus, malianos e libaneses. Regista-se igualmente na zona o centro comercial com o mesmo nome, o hospital materno infantil, a feira do “Divórcio”, hoje feira “Nova vida com garra”, a biblioteca kilamba, bem como a praça dos Correios, a principal fonte de acessórios novos e de ocasião para as viaturas na capital. As casas de pau-a-pique que predominavam na década de 80 deram lugar aos novos edifícios, lojas, armazéns e casas de processo para mercadorias.

Paragem de táxis

A paragem Avô Kumbi, constitui a principal zona de confluência para os vários destinos da capital, desde os congolenses, Golfe II, kimbango, Titanic, Calemba II, Sanatório e outras.
A paragem empoeirada em tempo seco e lamacenta em tempo chuvoso, alberga tudo e todos, desde zungueiros, muambeiros, matocheiros, cobradores, lotadores, kínguilas, polícias e até mesmo gatunos e burladores. Estes últimos apesar da mão pesada da Justiça, não poupam esforços para prejudicar os menos atentos. O kimbundo, kikongo bem como outras línguas nacionais vão sendo substituídas paulatinamente pelo “lingala” que soma e segue e domina a área.
O pincho, macaiabo, kikuanga, magoga, ginguba, banana assada, “cabrité” e “franguité” constituem uma das principais iguarias para quem pretende saciar a fome na rua de forma rápida. Pratos como funje, mufete, calulu e muamba de ginguba, precisam de tempo e comodidade, condições oferecidas pelo restaurante do hotel Almeida Monteiro, a Feira do Divórcio, bem como o restaurante Imbondeiro, a escassos metros do antigo fontenário, que já não jorra o precioso líquido faz tempo.
A feira do “Divórcio” dispõe um total de 44 barracas prontas a servir, com um total de 150 pessoas entre homens e mulheres que dão o seu melhor para ganhar o pão de cada dia. Os preços variam de acordo com o prato, rondando
entre 500 e 2.000 kwanzas.
O jango Kilamba mais conhecido por Imbondeiro, hoje em estado de degradação, regista ainda a existência de seis funcionários. A gestão do espaço é da responsabilidade do kota José Bassanjo. “Registamos maior facturação nos fins-de-semana, porque as pessoas têm tempo para relaxar e procurar diversão”. A cozinha está entregue à Solange, cozinheira de mão cheia. Apesar de robusta , Solange prefere roupas apertadas, pois sente-se melhor diante dos seus clientes.
Os preços constituem o principal chamariz no espaço,sendo que o prato de carne, funge, rama e feijão custa 700 kwanzas. Já a cerveja é comercializada a 100 kwanzas.
Por sua vez Ilídio Molowenda, que se dedica a comercialização de telefones na entrada principal da Feira do Divórcio há dois anos afirmou, que as vendas baixaram muito dado a conjuntura económica, resultante da queda do preço do petróleo no mercado internacional. “Vendemos e reparamos todo tipo de telefone disponível no mercado”, afirmou.
A sua apetência pela telefonia deve-se a formação superior em telecomunicações, concluída no ano passado. Reclama da falta de energia que constitui a principal dificuldade para os investidores daquela circunscrição.

Lembranças do passado

Quanto ao antigo centro comercial do Golfe, resta apenas a estrutura. As lojas de bens de primeira necessidade desapareceram, dando lugar as lojas da Unitel e Movicel, os bancos BIC, BFA, BAI e Atlântico. O lugar é muito frequentado devido as instituições bancárias e as lojas voltadas à telefonia. Mas, os terminais de multicaixa são os que registam mais aderência, em função das várias operações diárias.
Para João Paquete, que presta serviço de segurança no local, a movimentação é frenética ao longo do dia. Nos arredores do centro comercial, vende-se de tudo um pouco. Peixe fresco, seco e fumado, rama, gimboa e quiabos. Diariamente as quitandeiras pagam 100 kwanzas para comercializar no local. O lado esquerdo no sentido mercado dos correios, também está apinhado de pequenos comerciantes, com realce para os congoleses democráticos. As pequenas pracinhas, as vendedeiras e lotadores invadiram o local de tal forma que ofuscam o busto de António Agostinho Neto e a biblioteca municipal do Kilamba Kiaxi.