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Sopro vocal das acácias em terra de samba

Hoje foi o econtro deste grande talento e figura da música angolana que faz carreira de sucesso musical e empresarial além fronteiras para conferir o que é feito do artista nos dias de hoje, numa entrevista exclusiva com um cantor que perpectua nas suas canções as línguas nacionais.

Por onde tem andado Abel Dueré?

Antes vivia no Rio de Janeiro. Actualmente estou a morar em Rio Claro, uma cidade do interior de São Paulo, com a minha
família e os meus filhos.

Mas deixou de estar ligado à música ou tem outros projectos?
Tenho um projecto educacional “Meu Brasil Africano”, que consiste em dar aulas show para adolescentes. Esta iniciativa é uma grande contribuição do povo bantu na formação da cultura e história do Brasil. Além disso, tenho outro projecto social de percussão na favela da Maré no Rio de Janeiro. Lá, damos aulas de percussão, teórica e prática, cavaquinho e sopro. Este ano fui também convidado para organizar o carnaval em Rio Claro trazendo os blocos de carnaval do Rio de Janeiro. Estou também a preparar um musical para teatro, que tem como título “Bantu”. Portanto, é uma extensão do projecto educacional que falei antes, mas agora escrito para o teatro. No que toca à música, já estou em estúdio a gravar as músicas e a estreia está prevista para 2019.

Como começou essa viagem pelo mundo da música?
A minha viagem musical começa ainda no ventre da minha mãe. Filha do Huambo, ela adorava cantar. Tinha uma voz muito doce. Por outro lado, a senhora Josefa, nossa lavadeira e minha ama, vivia cantando em umbundo. Quando vou para a escola, participo do coral e logo sou escolhido para cantar solo nos espectáculos internos. Quando vou para o Brasil, resolvo arriscar no programa de calouros do Chacrinha, mas o sotaque atrapalhava demais o meu desenvolvimento. Então, resolvi cantar nas línguas nacionais, umbundo, kimbundo e kikongo, porque a senhora Josefa ensinou-me a fonética destas línguas nacionais. Eram muito mais melodiosas e foi assim que resolvi gravar o meu primeiro LP o “Criolinha“. Nessa altura acabava de chegar ao Rio de Janeiro, a banda Afra Sound Star e com eles tudo ficou mais fácil voltar às origens.

Quais foram os ganhos com esse álbum?
Esse álbum me faz reconhecido no Brasil como cantor revelação. Passei a fazer parte da nata dos cantores que mais apareciam na tela da Globo, daí o reconhecimento e Abel Dueré é convidado pelo Governo do seu país para participar do primeiro Fenacult em 1989. Na altura as pessoas perguntaram, “Mas quem é esse pula que canta em kikongo?”, indagavam desconfiados os senhores da música angolana. Pena é que o Ministério da Cultura não percebeu o quanto isso poderia ser potencializado para o bem da cultura
angolana no estrangeiro.

Considera a sua música voltada para pessoas com gostos mais apurados ?
A minha obra sempre foi voltada mais para música de raiz, que tivesse um conteúdo mais histórico e cultural. Por isso, o público tem que ter uma percepção musical maior. Foi um caminho que escolhi e não me arrependo, pois, estou muito feliz com o que faço e minha carreira é muito sólida. Tenho esperança que esta onda comercial seja passageira. Angola é um país rico na sua cultura e diversidade. As pessoas querem ter acesso à diferença, à criatividade ao genuíno. O comercial surge e passa rápido. O que tem história não se apaga. Um país sem cultura é um país pobre na sua essência.
Cultura é necessária a todos.

Que avaliação faz ao estado actual da música angolana?
A necessidade de sobrevivência faz com que o artista muitas vezes tenha que vender a sua alma. E o caminho que tem se apresentado é cruel e promíscuo. Para tocar na rádio, nos bailes, enfim! O importante é ser imediatista e as vezes imoral para facilmente chamar atenção. Cultura não é isso. A última vez que estive em Luanda fui assistir a uma programação cultural maravilhosa sobre cultura bantu. Tudo muito bem organizado, som fantástico, programação maravilhosa, lugar fantástico, fácil estacionamento, entrada grátis, mas vazio, completamente vazio. Doeu na alma, fiquei triste. Será que cultura virou coisa banal? Será que nos tornamos uma sociedade fútil?

Como é que tem se desdobrado para garantir financiamento para as suas obras?
A música comercial tem que ser auto sustentável. Se a música é o produto, ela tem que ser paga quando executada, nas rádios, nas TVs, nos bares, nas discotecas, nos shows. É assim que funciona no mundo inteiro...direitos autorais. Já os projectos culturais têm que ter financiamento do Ministério da Cultura. Assim como a educação. Cultura é educação. Aqui no Brasil, parte do imposto do lucro das empresas, é para financiar projectos culturais de excelência, aprovados pelo ministério. Todos os meus projectos são aprovados via ministério e são patrocinados. Não é fácil ter projectos financiados, têm que ser de excelência em qualidade e conteúdo.

Qual o papel do Ministério da Cultura na valorização das artes e dos artistas ?
O Ministério da Cultura deveria ter a grande responsabilidade de conduzir a história da nossa cultura. Deveria ser um órgão independente, com autonomia, trabalhando para o bem da Nação e não para o interesse partidário. Deveria se preocupar com a preservação dos valores existentes e na formação de novos valores. Teria que contar com a verba do governo para projectos da sua própria criação e responsabilidade. Além disso, deveria apenas ter a função de fiscalizar projectos realizados por produtoras independentes, pré seleccionadas em edital, projectos esses financiados por leis de incentivo fiscal: ou seja parte do imposto das empresas, deveria financiar projectos culturais. Dessa forma, descentraliza, democratiza e tornaria os custos mais baratos e os projectos mais eficazes, com melhores resultados. É assim que funciona por exemplo aqui no Brasil. 80 por cento da cultura é financiada dessa forma e a prestação de contas é muito transparente, pois, todos têm acesso via internet. É muito difícil se burlar orçamentos e resultados. Deveríamos igualmente nos preocupar com a aposentadoria de quem trabalha para o bem-estar de todos e o artista tem esse papel na sua vida.

Que avaliação faz do desempenho dos novos talentos?
Não quero cometer injustiças, por isso, não posso fazer avaliação daquilo que estou um pouco por fora. Do que sei, existem alguns talentos a fazer música de muito sucesso em Portugal e Angola, mas ainda não conseguiram alcançar outras praças internacionais, nem sei se algum dia conseguirão. Afirmo isso pelo tipo de música que escolheram cantar, que não é novidade nenhuma, é apenas música comercial (bem feita). Se fossem mais fiéis às nossas raízes, estariam noutro patamar. É só ver quais os angolanos que fazem sucesso em outros países, acredito que ainda sejam só o Waldemar Bastos, Bonga, Filipe Mukenga, Paulo Flores e poucos outros. Aqui no Brasil desculpem, só Abel Dueré. Até passaram por aqui algumas figuras caricatas patrocinadas pelo sistema, mas os meus amigos brasileiros quando viram riram e perguntaram se aquilo era música angolana. Uma vez fui assistir em Salvador um grupo que veio a convite da embaixada, se apresentou no Pelourinho e eu morri de vergonha. A sorte é que no ano seguinte veio a Banda Maravilha e aí sim tive muito orgulho de falar para todos. “isso é o semba da minha terra”.

A música garantiu-lhe algum retorno financeiro?
Cheguei ao Brasil em 1978 e em 1981 já era empresário. Primeiro com publicidade, a Sript Produções e depois montei a Banhart, uma loja de material para quartos de banhos. A Banhart se tornou a marca mais importante de banheiros no Rio de Janeiro e a segunda no Brasil. Em 1992 aquando da vinda ao Brasil do Presidente José Eduardo, foi a Banhart quem preparou os banheiros da casa onde ficou durante a sua estadia na Barra da Tijuca. Os meus clientes são de diversas áreas, desde actores da Globo como a Xuxa, Camila Pitanga, Fernanda Montenegro, Tarciso Meira, jogadores de futebol, entre eles Romário, Zico, Júnior, treinadores como Carlos Parreira, Tele Santana e alguns cantores como Zeca Pagodinho
e Alcione, só para citar estes.
Ganhei com muito suor e gastei bastante, principalmente com meus sonhos que realizei, que me trouxeram experiências de vida incríveis e ricas. Só em Angola com o projecto “Meninos de Angola” foram milhares e milhares de brinquedos no Natal, para as crianças carentes.

Angola não se lhe apresenta como um mercado de inúmeras oportunidades?
Angola é sim um país de grande potencial de negócio e trabalho. O problema é que a regra número um, é ter estômago para lidar com a corrupção em grande escala e isso eu não tenho, nem nunca terei fôlego para isso. Estou acostumado a um país que é culturalmente corrupto, o Brasil (onde vivo há 40 anos), mas Angola é demais da conta.