Lado-A-Lado
Subvenção vitalícia do Estado
Penso que o problema não está na atribuição da subvenção, mas sim na qualidade dos titulares dos cargos públicos sujeitos ao referido benefício, ou seja, vislumbra-se um grande número de ex-titulares de cargos e ex-militares.
Acha correcta a atribuição de subvenção vitalícia aos ex-governantes sem inclusão da reforma?Não é uma forma de estimular os ex-governantes pelo contributo dado ao país?
O pagamento da subvenção serve para tranquilizar os nossos titulares de cargos públicos, porquanto ao final do mandato terão benefícios por ter servido o país. No fundo, o legislador pretendeu que estas pessoas não ficassem preocupadas em encher o bolso ou fazer negócios consigo próprio, na medida em que depois do mandato teriam um prémio que pode ser transmitido à família.
A lei estabelece que têm direito àqueles que exerceram funções 8 anos consecutivos ou interpolados, não acha que houve discriminação a que tenham exercido abaixo deste tempo?
A discriminação foi necessária para incentivar os titulares de cargos públicos a desempenharem as suas actividades com dedicação, com vista a serem reconduzidos. Aliás, o legislador adoptou uma boa fórmula ao estabelecer a desnecessidade de 8 anos consecutivos.
Na verdade, quem não exerceu as funções durante 8 anos ainda pode ser chamado para tal. Há pouco tempo assistimos à nomeação de velhas guardas para desempenho de cargos públicos.
O que tem a dizer sobre o estatuto remuneratório dos antigos presidentes e vice-presidentes?
Primeiro peca pela forma tardia, sendo que já tivemos um antigo Presidente da República e a sua família não percebeu os benefícios inerente à mais alta função. Segundo, a Lei n.º 16/17, de 17 de Agosto, foi aprovada no limite do mandato do segundo Presidente da República, obviamente foi pessoalizado, mas em todo o caso, é justo que dê prestígio aos nossos ex-presidentes e vice-presidentes. Aliás, é também uma forma de não estarem agarrados ao poder.
Quanto aos salários dos gestores das empresas públicas deviam ser publicados, em nome da transparência, combate à corrupção, impunidade e equidade?
A retribuição base-mensal penso que é conhecida, mas o problema está na atribuição dos subsídios e das despesas em nome da empresa (viagens, férias, carros, combustível, etc.) que deve ser supervisionado pelo ministério de tutela e na fiscalização da execução dos programas.
Como se entende que um gestor ganha entre 2 e 5 milhões de kwanzas, quando a média de salário mínimo da função pública nem chega aos 20 mil kwanzas?
O princípio geral da igualdade gera subprincípios, tratar com igualdade os iguais e com diferença os diferentes. Ora, a disparidade salarial resulta do sector. Tratando-se de um sector com mais produtividade (não se pretende menosprezar os professores, os médicos, e outros profissionais, mas a produtividade que se alude é a material, a imediata) e com elevado índice de risco, deve reflectir no salário. Deste modo, justificam-se os milhões pagos aos gestores da Administração Geral Tributária, BPC, BDA, Sonangol, BNA e Endiama.
Devia haver uma declaração pública para os gestores do erário?
A gestão da coisa pública é muito séria, pelo que se trata de recursos que devem afectar a satisfação da necessidade da colectividade. Um desvio dos medicamentos pode causar morte de milhares de pessoas nos hospitais; a falta de distribuição de água potável porque alguém desviou o dinheiro da construção das infra-estruturas necessárias causa grandes transtornos à saúde, que pode também levar à morte. Com efeito, a justiça angolana deve estar mais atenta, porquanto mais do que a declaração pública dos bens (na verdade isto é falha, hoje existem muitas testas de ferro), deve-se apostar na responsabilização pela gestão danosa e criminosa.