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“Não espanta a adesão de Angola à Commonwealth”

O anúncio da intenção de Angola aderir à Francofonia e à Commonwealth causougrande polémica nos estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), sobretudo, em Portugal, país onde algumas vozes que se levantaram deixaram fortes indícios de a independência angolana ser ainda tema de difícil entendimento e até de aceitação por parte de determinadas franjas da sociedade. 
O anúncio do interesse de Angola em aderir à Commonwealth suscitou interrogações em círculos políticos do país e, até mesmo, alguma perplexidade. No entanto, a notícia não colheu de surpresa os analistas mais atentos às questões de geopolítica.

O anúncio da intenção de Angola aderir à Francofonia e à Commonwealth causougrande polémica nos estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), sobretudo, em Portugal, país onde algumas vozes que se levantaram deixaram fortes indícios de a independência angolana ser ainda tema de difícil entendimento e até de aceitação por parte de determinadas franjas da sociedade.
Em finais de Maio, o ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto, confirmou em Castelnaudary, arredores de Toulouse, o interesse de Angola integrar a Organização Internacional da Francofonia, com o estatuto de membro observador.
Manuel Augusto afirmou que o interesse de Angola se devia ao facto de o país ser limitado por estados que pertencem a esses dois grupos linguísticos. Angola situa-se na costa do Atlântico Sul de África, entre o Congo, a República Democrática do Congo, ambos de fala francesa, a Namíbia e a Zâmbia, de língua oficial inglesa.
“Somos lusófonos, temos vizinhos anglófonos e francófonos. Temos tudo a ganhar se tivermos perto de todo o tipo de organização, que esses países vizinhos” integram, declarou.
No balanço da visita do Presidente da República, João Lourenço, a França, o ministro Manuel Augusto destacou a importância da Francofonia e da Commonwealth (comunidade de países de língua inglesa) no mundo, como factor congregador de vários continentes.
A intenção de Angola aderir à Commonwealth foi recebida com manifesto agrado em Londres. No Twitter, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, disse ser “explêndido” o facto de Angola aderir à Commonwealth. “Esplêndido que Angola queira juntar-se à família da Commonwealth”, escreveu Boris Johnson no Twitter.
Johnson elogiou ainda o empenho do presidente João Lourenço nas reformas, no combate à corrupção e na melhoria dos direitos humanos.

Entre anglófonos e francófonos
Em entrevista à Euronews, João Lourenço admitiu em Junho que “Angola está cercada, não por países lusófonos, mas por países francófonos e anglófonos”. E concluiu:
“Portanto, não se admirem que estejamos a pedir agora a adesão à francofonia e que daqui a uns dias estejamos a pedir também a adesão à Commonwealth”.
Sendo um dos nove países da CPLP, não espanta o facto de Angola pretender aderir tanto à Francofonia como à Commonwealth, tendo em conta a vizinhança. A entrada na Commonwealth também vai facilitar os contactos e os negócios entre Angola e os vizinhos de língua oficial inglesa, num momento em que continua o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, prometendo virar-se mais para os parceiros naquela organização.
Foi já com a economia em mente que em finais de Maio, princípios de Junho, João
Lourenço foi a Bruxelas, Bélgica, onde manteve encontros com o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, e com a chefe da diplomacia da União Europeia, Federica Mogherini, além de reunir com o rei Filipe e com o primeiro-ministro Charles Michel.

Novo paradigma
Há dias, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França), o Chefe de Estado angolano apelou à União Europeia para estabelecer, com África, um modelo de cooperação que, a médio e longo prazos, contribua para os países africanos terem maior oferta de emprego e oportunidades de negócios para os seus cidadãos.
Na sua intervenção, João Lourenço defendeu a necessidade de mudança do paradigma do modelo de cooperação, estabelecido no âmbito dos acordos de Cotonou (Benin) entre a União Europeia e o Grupo de Países de África, Caraíbas e Pacíficos.
O Presidente da República referiu que os filhos de África vão hoje para a Europa na condição de emigrantes, fugindo de conflitos armados, da fome e da miséria que assola alguns dos países do continente, do desemprego e da falta de perspectivas por um futuro melhor.
Nessa conformidade, João Lourenço apelou à União Europeia a estabelecer, com o continente africano, um modelo de cooperação para reverter o actual quadro e que ajude os países de África a passarem de meros exportadores de matéria-prima para produtores de produtos manufacturados e industrializados, como garantia de uma maior oferta de empregos e oportunidade de negócios.
O estadista afirmou que todos são responsáveis pelo quadro actual dos países do continente, caracterizado por “um clima de conflitos internos, de insegurança, de crises económico-financeira, de terrorismo, de fome e pobreza”, que traz como consequências sucessivas vagas de emigração em direcção à Europa.
É uma situação que a todos envergonha, porquanto é triste e revoltante constatar que hoje a saga se repete, embora numa conjuntura diferente, cerca de seis séculos depois de os filhos de África terem sido levados em condições degradantes nos navios negreiros, para as Américas, onde, na condição de escravos, contribuíram para o florescimento de grandes economias.
O chefe de Estado defendeu que a Europa só sai a ganhar com uma África capaz de reter os seus filhos no continente, através de uma maior oferta de emprego e de melhores condições de vida, no geral.