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Baunilha gera milionários

Na região de Sava, ao norte de Madagáscar, a temporada da colheita de baunilha chegou ao ápice no final de Junho. No ano passado, cerca de 1.600 toneladas de baunilha foram exportadas para o exterior, consolidando um valor de mais de 600 milhões de dólares. Junto com as somas astronómicas, uma nova geração de produtores tornou-se multimilionária em menos de dois anos.

Em Antalaha, a “capital da baunilha”, uma nova classe social emergiu em Madagáscar. Eles são chamados de “poera poera”, reconhecíveis a bordo dos seus blindados 4x4 e das suas casas de luxo, que se multiplicam rapidamente. Estes “novos ricos”, que trabalham essencialmente na colheita de baunilha, conseguiram tornar-se milionários no espaço de dois a três anos.
“Olá, seja bem-vindo, aqui é a minha loja, onde eu armazeno a baunilha. A abertura é protegida por um alarme. Aqui é a minha garagem com o meu camião e dois dos meus carros 4x4”. É na sua casa com vista panorâmica para o mar que Thierry, colector de baunilha desde 2006 em Antalaha, nos recebe. Segundo ele, os primeiros anos na profissão, no entanto, foram muito difíceis, cheios de problemas.
Mas 2015 foi o ano da virada para esses trabalhadores do campo. Como muitos dos seus colegas, ele ganhou o jackpot: “A colheita de 2015 foi muito boa e eu ganhei dinheiro. A primeira coisa que comprei foi um camião. Então, consegui construir a minha casa, depois comprei um carro 4x4 e um ‘Land Cruiser’. Quanto eu ganhei? Ah, isso eu não posso te dizer, eu prefiro manter essa informação
em segredo”, brinca Thierry.
Mesmo não querendo contar quanto ganhou, Thierry admitiu, no entanto, ter-se tornado um milionário em menos de dois anos e que é necessário “manter a cabeça fria”: “o preço de venda em 2017 foi bom, mas talvez em 2018 ele despenque. Muitas pessoas aqui ficaram ricas rapidamente e, do dia pra noite,
perderam tudo”, completa.
Em Madagáscar, os agricultores estão a colher a baunilha sem esperar até que ela esteja madura. Eles temem o roubo dos seus brotos, que se tornaram ainda mais valiosos após a passagem do ciclone Enawo, que devastou em Março deste ano uma das principais regiões de produção, Antalaha, no nordeste do país.
O quilo de brotos verdes de baunilha custa agora  500 dólares, antes mesmo de terem sido fermentadas e secas, cinco vezes mais caro do que em 2015, o que atrai todos os olhares para as valiosas plantações.
Algumas são monitoradas por guardas armados para protegê-las de ladrões, mas nem todos os agricultores podem pagar esse serviço. Para evitar o roubo do precioso produto, muitos já começaram a colher a baunilha três ou quatro semanas antes do previsto, antes que baunilha esteja madura, segundo um
observador do mercado local.
Os produtores recebem, pela primeira vez, os grandes lucros da cadeia de produção da baunilha em Madagáscar, colhendo-a mais cedo, secando-a e fermentando-a com pressa, o que, segundo especialistas, diminui a qualidade final do produto. Os exportadores, por sua vez, compram a baunilha dos agricultores da ilha sem fazerem muitas perguntas, porque eles não têm estoque suficiente, desejam revender imediatamente o produto por medo de uma desaceleração do mercado,
como a ocorrida em 2003.
A baunilha é certamente um dos ingredientes mais encantadores da gastronomia, capaz de fornecer a qualquer comida sabor e aromas únicos. Trata-se basicamente do fruto da orquídea, que se assemelha muito a uma vagem, até mesmo pela cor verde. Mesmo as orquídeas tendo diversas espécies, apenas duas fornecem baunilhas comestíveis, um dos motivos por ser um produto tão valorizado. Bourbon e Tahitian são as espécies com uso culinário, dessa
que tem origem no México.
Assim como o chocolate, a baunilha também foi descoberta pelos espanhóis, e levada imediatamente para a Europa tamanho encanto que tiveram pelo produto. O seu nome deriva da palavra espanhola “vainilla”, que significa “pequena fava”. Com a enorme demanda pela baunilha, por volta de 1.800 foram plantadas muitas orquídeas em ilhas do oceano Índico, incluindo ilha da reunião (antigamente chamada de ilha de Bourbon) e Madagáscar, que hoje
é a maior produtora do mundo.
Madagáscar é um dos países mais pobres do mundo. A sua economia baseia-se principalmente na agricultura, mineração, pesca e produção de roupas. Um dos produtos mais conhecidos é a baunilha, que vem de uma orquídea e é usado no mundo inteiro para dar sabor aos alimentos. Os grãos de baunilha precisam de pelo menos dois anos para crescerem, o que faz do produto uma especiaria cara.
Madagáscar produz 60 por cento de baunilha do mundo, entre 1.200 e 1.500 toneladas por ano, e 80 por cento das plantações desse produto encontram-se no norte dessa grande ilha, zona húmida e tropical que favorece o seu desenvolvimento. A baunilha faz parte do quitidiano dos malgaxes do norte e permite a região de Sava a
desenvolver-se rapidamente.