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Aplicabilidade das ideias que são premiadas

Economista Rui Malaquias explica até que ponto tais teorias são úteis no dia-a-dia.

É unânime que muitos de nós enquanto estudantes, principalmente por altura da licenciatura, questionávamos a aplicabilidade prática das matérias que os professores transmitiam, sempre com a sensação errada de que se está a estudar matérias que nunca serão úteis na “vida real” e que apenas servem para complicar a vida dos estudantes.
No nosso caso, em que estudamos economia e finanças, é importante aqui explicar que as ciências económicas e financeiras estão intimamente ligadasa a variáveis que influenciam directamente o bem-estar dos cidadãos, é neste contexto que a valorização da investigação dos nossos estudiosos merece um enquadramento adequado na vida prática, sendo que é o que nos propomos fazer no presente artigo.
Sobre os vencedores do prémio nobel da economia 2018, não há muito de que dizer, porque deverão ser por nós, mais do que sobejamente conhecidos, um deles é William Nordhaus, americano de 77 anos de idade, Sterling Professor e Pesquisador da Universidade de Yale – New Haven (USA), foi pioneiro no estudo dos efeitos económicos do aquecimento global.
Além de que, é nosso velho companheiro desde os primeiros anos de curso de economia, pois nas cadeiras de economia ou macroeconomia, todos usamos (ou pelo menos deveríamos ter usado) a “bíblia” com título “Economics” de Paul Samuelson e William Nordhaus, publicada há exactamente 50 anos, ou seja, a primeira edição é de 1948, pelo que se já encontra na 19ª edição.
O outro laureado também é americano, Paul Romerde 62 anos de idade, professor na Universidade de Nova York – Stern Schoolof Business – New York (USA), reconhecido investigador dos determinantes da inovação tecnológica, foi ex-economista-chefe do Banco Mundial, instituição em que foi vice-presidente entre Outubro de 2016 a Janeiro de 2018.
Tendo por vontade própria e em defesa da sua honra,abandonado a instituição por entender que durante o segundo mandato (2014 – 2018) da Presidente do Chile, a socialista Verónica Michelle Bachelet Jeria, o ranking daquele país tivera sido injustamente reduzido pelo Banco Mundial, através de alterações na metodologia de avaliação, por razões meramente políticas.
Na prática, os autores criaram modelos que respondem às questões básicas e estruturantes da sobrevivência das economias, respondendo como é possível criar crescimento sustentado (pela inovação tecnológica) e sustentável (pelo controlo das alterações climáticas) para as economias de mercado no longo prazo.
Os autores partiram da divisa de que a economia centra-se na gestão ou alocação dos escassos recursos e que o clima em si impõe constrangimentos ao crescimento económico. Portanto, é a inovação que determina a melhor forma de lidar com estes constrangimentos. É partindo desta assunção que os laureados ampliaram a sua análise construindo modelos que explicam o quanto a economia de mercado interage com o clima e a inovação cientifica/tecnológica.
Paul Romer, que recebeu o prémio por integrar as inovações tecnológicas na análise de crescimento macroeconómico de longo prazo, demonstrou na prática que a inovação(induzida pelas condições do mercado) pode influenciar o crescimento económico de longo prazo.
Tendo em consideração que o crescimento económico em alguns pontos percentuais, acumulado melhoria das condições de vida das pessoas, é também reconhecido que esta mudança é derivada pela inovação tecnológica. Contudo, nenhuma pesquisa deu resposta de como as decisões económicas e as condições do mercado determinam a pesquisa científica e criação de novas tecnologias.
Paul Romer respondeu a esta questão, demonstrando que as forças do mercado guiam a necessidade das empresas criarem novas ideias e inovação. Esta solução foi publicada em 1990 e criou as fundações para a que é conhecida como teoria do crescimento endógeno, que hoje é usada como inspiração para leis e políticas públicas que encorajem novas ideias e cada vez mais a inovação tecnológica.
William Nordhaus, por seu lado, foi premiado por ter integrado o efeito das alterações climáticas na análise de crescimento económico de longo prazo. Já desde 1970 mostrava-se preocupado com os efeitos da combustão dos combustíveis fosseis no clima mundial, centrando a sua pesquisa na relação entre a economia e o clima.
É esta preocupação que em 1990 levou-o a montar um modelo quantitativo que descreve a interação entre a economia e o clima. Este modelo combina preceitos teóricos e resultados empíricos do campo da física, química e economia e explica os efeitos concretos das alterações climáticas no crescimento económico de longo prazo.
O modelo é hoje usado para simular/prever a forma como a economia e o clima se relacionam e para examinar as consequências ou efeitos das políticas de intervenção climáticas, especificamente para medir os efeitos da aplicação das taxas carbono no desempenho económico e na proteção ambiental.
Os trabalhos de Romer e Nordhaous são extremamente metodológicos e nos fornecem os seus pontos de vista, suportados por modelos teóricos e empíricos, as causas e efeitos da inovação tecnológica e das alterações climáticas no crescimento económico de longo prazo nas economias de mercado.
Por outro lado, afastam-se ainda que forma tímida do liberalismo estremo, reconhecendo que as políticas públicas, aqui representadas pela intervenção regulatória do Estado, são importantes para fomentar a inovação tecnológica e controlar claramente o processo de deterioração climática que é acelerado pela industrialização.
O que se tenta demonstrar é que é possível haver crescimento económico sustentado e sustentável no longo prazo, com constante inovação científica, maior eficiência nos processos produtivos, sem descorar a proteção ambiental, e que o Estado tem um papel decisivo neste processo, trazendo políticas públicas e regulação que fomente a inovação e proteja o ambiente.