Entrevista

“Gestores públicos devem ser mais racionais”

O processo de responsabilização dos gestores públicos deve ser contínuo para credibilizar as acções do novo Executivo, defende nessa entrevista que concedeu ao Jornal de Economia & Finanças, o contabilista sénior, docente universitário e investidor, Manuel João Quindai.
O também consultor afirmou que os gestores públicos devem manter a flexibilidade e racionalidade para enfrentarem o dinamismo económico, social, cultural e tecnológico que se vive nos mercados actuais.

O processo de responsabilização dos gestores públicos deve ser contínuo para credibilizar as acções do novo Executivo, defende nessa entrevista que concedeu ao Jornal de Economia & Finanças, o contabilista sénior, docente universitário e investidor, Manuel João Quindai.
O também consultor afirmou que os gestores públicos devem manter a flexibilidade e racionalidade para enfrentarem o dinamismo económico, social, cultural e tecnológico que se vive nos mercados actuais.

Como encara a racionalização na administração e prestação de contas no país?
Angola é um país que apresenta ao mundo nos últimos tempos um novo paradigma na administração pública.
Desta feita, nesses 12 meses de governação do novo Executivo angolano mostra a sociedade e ao mundo que na administração pública já se começa a viver uma realidade de racionalização e prestação de contas que cobra aos novos gestores públicos à defesa e ao respeito do património público.
É um processo e tudo isso faz parte da cultura das boas práticas de administração e prestação de contas.

Há uma tendência de desestruturação empresarial em Angola?
Tudo passa pela determinação de alguns elementos, tais como objectivos e políticas que enlaça considerações que podem não ser razoáveis sob um ponto de vista ou doutro.
É muito mais fácil a um administrador ou gestor público dedicar-se apenas a assuntos relacionados com dinheiro da instituição do que empregar a sua mente no exame dos seus próprios processos de racionabilidade.
Na administração, a razão é de todos em todos, contrário à desordem entre as ideias.
É com esta racionabilidade e ordem que deve funcionar a administração pública, partidos políticos, igrejas, organizações não governamentais e empresas públicas e privadas, porque o custo do pensamento desordenado e não racional dos administradores é enorme e pode tardar no desenvolvimento do país.
Para defender o património público, é necessário que se alarge a base da actuação do IGAE - Inspecção Geral da Administração do Estado - a nível dos municípios e das capitais provinciais.

Está quer dizer que os serviços de fiscalização do Estado devem funcionar de facto?
Se na verdade temos que combater a corrupção, que é um mal que se vive em Angola, então não podemos fazê-lo apenas na estrutura superior da administração do Estado.

Num contexto marcado pela crise económica e financeira, de que forma deve-se pensar a economia do futuro e a gestão segura?
O desenvolvimento sustentável passa, em primeiro lugar, em apostar na economia do futuro (formação de quadros), e com a dinâmica das sociedades, a formação superior deve ser vista como um pilar fundamental da futura economia ou economias seguras.
Temos que acreditar e dar oportunidade às pessoas que desejam investir honestamente para o bem da sociedade.
Não há desenvolvimento sustentável sem a formação de quadros, porque faz parte da economia do futuro ou economias seguras. E os municípios precisam de ter uma economia segura (...).

Com recursos escassos, os investidores terão capacidade financeira para suportar os encargos?
Temos que apostar na economiaprecisamente do futuro. Formar um homem, é garantir a estabilidade económica das famílias e da Nação.
Para que os resultados desejados sejam alcançados com maior relevância, temos que apostar no factor homem, prepará-lo e muito bem, academicamente, técnico-profissional, moral e culturalmente para não comprometer os desafios do futuro.
Alguns países mais adiantados do mundo tiveram que rever as políticas e estratégias das suas economias, e traçaram metas que levaram a níveis satisfatórios e, hoje, tornaram-se países com melhores paradigmas a seguir.
Tudo isso passa, não só na vertente macroeconómica, mas também na microeconómica.
As famílias e as empresas privadas também devem apostar na economia do futuro. Aí está o garante da estabilidade.
O comércio, a indústria, o turismo, as pescas e agricultura precisam de quadros competentes capazes de dar respostas às necessidades da sociedade. Isso tudo só é possível se apostarmos na formação de quadros em todo o país.
O investimento na formação de quadros não tem retorno imediato do capital investido, mas é um investimento mais seguro para a economia de qualquer sociedade, empresas ou famílias.

Desconcentração financeira 

A descentralização financeira é uma forma de distribuição da riqueza e do rendimento nacional?
Os empreendedores e os munícipes devem acompanhar a dinâmica do país, e fazer dele uma boa Nação para todos os angolanos e filhos do bem.
As autarquias em 2020, para alguns municípios numa primeira fase, é uma nova realidade para as localidades organizarem-se economicamente, a fim de que os municípios tenham investimentos do sector empresarial privado para contribuir no seu crescimento e desenvolvimento.

Com as autarquias haverá um novo “modus operandi” no controlo e fiscalização do orçamento local?
O objectivo do Executivo angolano sobre a implementação das autarquias é trazer uma nova dinâmica aos municípios, mas é necessário criar condições técnico-operacionais localmente para as autarquias funcionarem como deve ser e de forma gradual para não comprometer o processo que está bem desenhado. Os órgãos de controlo e fiscalização do orçamento a nível local devem garantir a maior segurança do património público local.

Há esforços do Governo para a introdução do IVA em 2019. Terá alguma incidência já no âmbito da descentralização?
Nunca é tarde. O Executivo angolano está a fazer tudo para que em 2019 seja posto em evidência o Imposto sobre o Valor Acrescentado, vulgo IVA, e considero uma mais-valia, não só para o Estado como também há um grande ganho para os empresários e os operadores do sector económico, independentemente do local onde estiver desde que tenha todo o processo contabilístico organizado e esteja inserido no sistema pela Administração Geral Tributária. É uma das medidas mais assertivas do Executivo nos últimos anos, no ponto de vista das políticas económicas.

E as parcerias púbico- privadas são outras soluções para o desenvolvimento local?
Considero que as parcerias público-privadas venham a ser uma das soluções também para o desenvolvimento local, pois as empresas devem dinamizar o país.

Escolha de auditores
é feita por amiguismo

Como docente e gestor, qual é o segredo e arte de administração de uma empresa?
As empresas precisam de manter a flexibilidade e racionalidade para enfrentarem o dinamismo económico, social, cultural e tecnológico que se vive nos mercados actuais. O segredo e arte de administrar uma empresa passa, em primeiro lugar, na educação e formação do indivíduo que vai administrar a organização, dotando-a de ferramentas e cultura de administrá-la correctamente porque administrar uma empresa é um sinónimo de direcção, o que obriga aos administradores ou executivos de empresas a terem conhecimentos técnico-científicos.

Na sua visão, tem havido transparência à análise financeira das empresas feita por um auditor interno ou externo?
A imperfeição humana é uma realidade incontestável. Porém, não se deve afastar a possibilidade de atingir o sonho da perfeição, nem desistir da possibilidade embora remota de se encontrar o homem perfeito, mas ainda assim deixa muitas dúvidas na transparência da análise financeira das empresas feitas por auditores internos ou externos em Angola. A falta de coerência, realismo, cultura, ética e deontologia profissional, e por outro lado, a forma como foi feito a contratação destes, o parentesco, amiguismo, etc, deixam muitas dúvidas a sociedade e as pessoas interessadas nos relatórios e contas e demonstrações financeiras analisadas por alguns estes profissionais. Esta febre e triste realidade vivemos tanto nas empresas privadas como públicas.
No exercício da profissão, o auditor é um profissional liberal. Logo, deve estar dotado de conhecimentos técnico-cientificos e condições relativas à pessoa do auditor com condições legais, culturais, de educação e civismo, morais, de ética profissional, intelectuais e técnicas, primando nas normas de auditoria geralmente aceites (NAGA’s) e nas políticas práticas da unidade de auditoria operacional (PPUAO).

Até que ponto as metodologias e técnicas de contabilidade geral em Angola vão de encontro com as expectativas do mercado?
Angola é membro da International Federation of Accountants (IFAC), que tem como objectivo primordial a harmonização contabilística a nível mundial, e que também tem vindo a desenvolver esforços para a consecução do seu objectivo através do International Accounting Standards Committee (IASC), órgão dependente da IFAC, mediante a emissão de normas de contabilidade internacional. Logo, e com o renascer do desenvolvimento económico do país, e com a crescente internacionalização dos mercados de bens e serviços, Angola não pode deixar de acompanhar a evolução contabilística registada a nível internacional sob pena de perda de oportunidade. Por outro lado, a própria dinâmica da economia exige que haja metodologias e técnicas de contabilidade geral nas empresas para facilitar as transacções entre elas e outras sociedades interessadas em obter uma informação contabilística verdadeira, o respectivo controlo e também na comparação das informações contabilísticas no tempo e no espaço, assim como na elaboração de estatísticas económicas e financeiras.

Aposta na formação de quadros 

Acredita que o projecto de implantação de um Instituto Superior numa região adormecida como a de Ambaca irá resultar?
A sua implantação deveu-se em função da procura constante de os muncípes continuarem com os seus estudos, por um lado, e por lado, ajudar os que residem nas regiões vizinhas como Samba Caju, Bolongongo, Banga, até mesmo Negage e Cangola, que são obrigados a ir a cidade do Uíge e Ndalatando para fazer o ensino superior depois de terminado o ensino médio.
O município de Ambaca poderá ultrapassar as dificuldades no que tange aos níveis de desenvolvimento sustentável se o processo de diversificação da economia ser mais consistente para que haja maior competitividade.
O município sai a ganhar, e a sociedades ou munícipes serão os vencedores do ponto de vista económico e social. Além disso, o projecto ISPA (Instituto Superior Politécnico de Ambaca) trará empregos directos e indirectos e também mais receitas para os cofres do Estado.

De que forma?
O município de Ambaca sempre foi um celeiro na agricultura e pecuária até finais dos anos 80. Os campos agrícolas do Luinga e Tango, as fazendas cafeícolas e florestais do Bindo e Maua, as várias pecuárias e chanas do município deram à Ambaca muitas alegrias à época.
Ambaca já era considerada como segundo pólo económico da província do Cuanza Norte, tendo em conta o seu potencial agro-pecuário na altura.
Temos que lutar todos para a reposição do município no escalão anterior ou suplantar ainda mais.
Levar aos municípios uma dinâmica e inovação para torná-los cada mais competitivos e robustos economicamente.
Tenho a mera certeza de que levaremos ao Ambaca a mais serviços e incentivaremos mais empreendedores a seguirem e a actuarem em outros sectores da economia principalmente no terceiro sector (comércio e serviços).

Acredita que projecto terás pernas para andar?
O Instituto Superior Politécnico de Ambaca (ISPA) tem protocolos ja firmados com algumas instituições nacionais e estrangeiras para a formação contínua dos docentes, com especializacao principalmente em didáctica superior universitária, e depois para se fazer os mestrados e doutoramentos nessas instituições. Também vamos preferir admitir jovens récens-licenciados para serem bem preparados para os desafios do futuro do país, e também tendo em conta as políticas do Executivo que tem a ver com a formação de quadros. Gostaria de dizer que 70% do corpo docente será em regime de efectivo. Queremos priorizar a camada juvenil.
O início das aulas prevê-se para o ano academico (Marco/2020), em função expediente do reconhecimento dos cursos.

Perfil

Manuel João Quindai

Filiação: João Quindai Quimuanga e Rita Jose Sebastião

Naturalidade: Ambaca, Cuanza-Norte

Filhos: 3

Formação: Licenciado em Contabilidade e Auditoria; Mestre e doutorado em Administração de Empresas pela Universidade Metropolitana de la Ansuncion, América Latina

Ocupação: É professor de Finanças Públicas, Contabilidade e de Auditoria Operacional, consultor empresarial e Administrador da Tchaty Investimentos, Lda

Sonhos: Ver o município de Ambaca com o ensino superior a funcionar, dando um impacto positivo à sociedade

Tempos livres: ler jornais, livros, ouvir rádio e notícias na TV

Hobbies: Escrever e cozinhar

Férias: Nunca as tenho...

Desporto: Caminhadas pela Marginal de Luanda

Último livro: ‘Correio do Amor’ de Suze-May (Maria Suzeth Mendonça), natural de Cabinda

Livros escritos (obras de sua autoria): 5 (cinco). Segredo e Arte de Administração; Normas e Técnicas de Auditoria; Encanto de Administração e Fundamento de Autoridade; Metodologias e Técnicas de Contabilidade Geral e Racionalização na Administração e Prestação de Contas

Prato preferido: Batata doce e molhos mistos e peixe