Entrevista

“Em Angola não há crédito de campanha”

Primeiro que tudo, é preciso que o país em geral, e o Executivo em particular, olhem para a agricultura (englobando a pecuária e a floresta) com o respeito que ela merece. Isso seria mais fácil se nós não continuássemos a ter uma alternativa chamada petróleo para importar mais de três mil milhões de dólares de alimentos por ano. O que é um verdadeiro escândalo. Na entrevista, o Engenheiro agrónomo Fernando Pacheco não vê os Ministérios das Finanças e do Planeamento e Economia, nem os bancos públicos, verdadeiramente preocupados com o assunto, “até porque não

o conhecem”.

O engenheiro agrónomo mostrou-se pouco optimista com os resultados que o projecto governamental “Crédito de Campanha” tem a apresentar para aumentar a produtividade, mas ainda assim destaca que se deve começar a trabalhar de modo integrado e coordenado, atacando os factores limitantes de modo equilibrado e progressivo.
Para Fernando Pacheco, o reforço das capacidades institucionais e empresariais, capacitação dos técnicos e dos agricultores a todos os níveis, assistência técnica, investigação e infra-estruturas, podem garantir a tão almejada auto-suficiência alimentar.

Inicia a época agrícola 2018/2019. Qual é a visão do engenheiro sobre a actual política do Governo no apoio aos produtores/agricultores nacionais?
Se olharmos para o plano teórico, as nossas políticas agrícolas nunca foram, de modo genérico, erradas. Possivelmente num ou noutro aspecto concreto poderíamos encontrar pontos de discordância. O que se constata é que os programas do partido no poder e do Governo diziam uma coisa e na prática fazia-se quase o oposto, principalmente em termos do Orçamento Geral do Estado e das opções de investimento público. Um exemplo concreto foi o escandaloso desperdício com os chamados projectos públicos de larga e média escala que, não estando previstos em nenhum dos tais programas, consumiram nos anos de reconstrução nacional mais de 1,5 mil milhões de dólares com resultados práticos miseráveis e hoje estão na sua maioria falidos e com as infra-estruturas muito degradadas. Em contrapartida, durante o mesmo período, os agricultores familiares beneficiaram, se tanto, de cerca de 200 milhões de dólares, mas são eles que produzem mais de 80 por cento da produção agrícola nacional. Há anos que tenho vindo a alertar para esta questão, incluindo junto de deputados da respectiva Comissão da Assembleia Nacional quando sou convidado, mas ninguém ouviu. Nos últimos tempos, a comunicação social pública tem vindo a revelar coisas que muitos de nós, considerados “críticos”
vínhamos denunciando.

A quem atribuir a responsabilidade por este desastre?
No último ano, a situação começou a ser alterada no sentido de se implementar o que está previsto, e vemos finalmente uma certa preocupação com projectos estruturantes e outros que vão ao encontro de soluções que vinham sendo permanentemente adiadas. Ainda é cedo para tirarmos conclusões.

O que se deve fazer para que os indicadores que o Governo se propõe atingir em cada início do ano agrícola possam ser alcançados?
Primeiro que tudo, é preciso que o país em geral, e o Executivo em particular, olhem para a agricultura (englobando a pecuária e a floresta) com o respeito que ela merece. Isso seria mais fácil se nós não continuássemos a ter uma alternativa chamada petróleo para importar mais de três mil milhões de dólares de alimentos por ano. O que é um verdadeiro escândalo. O Executivo tem de analisar esta situação com toda a urgência e tomar medidas correctoras. Não vejo os Ministérios das Finanças e do Planeamento e Economia, nem os bancos públicos, verdadeiramente preocupados com o assunto, até porque não o conhecem. Claro que em última instância a responsabilidade é do Titular do Poder Executivo e da sua equipa de colaboradores.

As estradas nacionais continuam com grandes problemas, o que não facilita o escoamento da produção por parte dos agricultores. Que solução defende para se ultrapassar esta problemática?
Se houvesse mais coordenação e integração na actividade do Executivo, o problema das estradas poderia estar melhor tratado. Não me canso de denunciar mais uma das muitas aberrações em termos da definição de prioridades pelo Executivo. No quadro da reabilitação das estradas do tempo colonial, aquela que era talvez a mais importante do ponto de vista agrícola em termos alimentares, entre Caconda e a Caála, foi a última a ser iniciada. E, até hoje, quando outras já vão na segunda volta, ainda não está concluída. Numa palavra, a solução está na definição das prioridades.
Que incentivos devem ser alocados pelo Governo para que a produção agrícola nacional possa competir com os produtos importados?
Reforço das capacidades institucionais e empresariais, capacitação dos técnicos e dos agricultores a todos os níveis, assistência técnica, investigação e infra-estruturas (estradas, água, energia). Depois podemos falar dos outros, como os financeiros. Falar dos financeiros antes dos outros é desonesto.

Na visão do engenheiro, o crédito agrícola de campanha está a cumprir a sua missão? O que é que defende para que se obtenha bons resultados?
Em Angola praticamente não há crédito de campanha. Fora do sector quase não se sabe o que isso significa. As experiências de 2011-2012 foram decepcionantes. Enquanto se pensar que para um agricultor ter um crédito para resolver um problema concreto, como, por exemplo, pagar salários ou comprar uma motobomba, precisa de um projecto, não vamos lá. Para agir é preciso conhecer. Voltámos ao mesmo.

Quando é que poderemos alcançar a auto-suficiência?
Quando começarmos a trabalhar de modo integrado e coordenado, atacando os factores limitantes de modo equilibrado e progressivo poderei responder a esta pergunta. Até lá só pode haver especulação barata. Um ex-ministro da Agricultura, já depois de terminada a guerra, prometeu a auto-suficiência alimentar para 2006. Em 2018 continuamos a gastar quase um milhão de dólares por dia na importação de alimentos.