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O cartão vermelho por Reginaldo Silva

A “originalidade” deste mais recente desencontro reside no facto do mesmo ter tido lugar além-fronteiras e no decurso de uma entrevista televisiva que João Lourenço concedeu ao canal Euronews.

Foi, igualmente, bastante “original” a forma verbal, que chegou a ser desafiante, como o Titular do Poder Executivo (TPE), respondendo a uma questão que lhe tinha sido colocada pelo jornalista, deu a conhecer que a tal companhia estava condenada a não sair do papel onde, pelos vistos, vai mesmo ter de ficar para a “história dos 

nossos desconseguimentos”. 

Ao nível da governação neste país já fomos testemunhas de muitos desencontros entre os seus titulares, com outros tantos amargos de boca pelo meio, mas ainda não tínhamos no nosso acervo nada parecido com o cartão vermelho que o PR acaba de aplicar ao projecto da criação de uma putativa nova empresa de aviação comercial público-privada.
A informação oficial chegou ao conhecimento de todos nós o mês passado, durante uma cerimónia que contou com a presença tutelar do ministro
dos Transportes, Augusto Tomás.
A confirmação do negócio não podia ter sido mais assertiva.
De seu nome completo “Air Connection Express”, a aposta desde logo suscitou junto da opinião pública e publicada, as mais diferentes e perplexas reacções, todas elas de uma forma geral negativas, diante dos seus contornos, sobretudo por ter no seu seio a Taag e a Enana.
Convenhamos que no caso da Taag, de facto a companhia de bandeira já tem problemas de sobra, para se meter em mais uma alhada.
A “originalidade” deste mais recente desencontro reside no facto do mesmo ter tido lugar além-fronteiras e no decurso de uma entrevista televisiva que João Lourenço concedeu ao canal Euronews.
Foi igualmente bastante “original” a forma verbal, que chegou a ser desafiante, como o Titular do Poder Executivo (TPE), respondendo a uma questão que lhe tinha sido colocada pelo jornalista, deu a conhecer que a tal companhia estava condenada a não sair do papel onde, pelos vistos, vai mesmo ter de ficar para a “história dos nossos desconseguimentos”.
“E essa companhia ou consórcio, entre a companhia de bandeira Taag e algumas empresas privadas não vai sair, não vai acontecer. Eu desafio os passageiros angolanos, que me digam: olhe, o senhor disse à Euronews que não existia consórcio nenhum mas eu hoje viajei num dos aviões de que o senhor fulano tal falou. Portanto esse é o desafio que eu faço. Não faço ao autor da acusação, mas faço a todos os angolanos, potenciais
passageiros, dessa companhia fictícia”.
Além de ser atípico este pronunciamento, de facto sentiu-se nestas palavras de João Lourenço algo mais complicado a traduzir de algum modo a complexidade do seu relacionamento com o titular dos transportes, Augusto Tomás, que integrou a comitiva presidencial que acompanhou o PR nesta sua primeira visita oficial à Europa.
Tomás, é bom que se diga, já é nesta altura o ministro em relação a qual temos registado um maior número de críticas quanto ao seu desempenho passado e presente, tendo em conta que o sector que ele dirige terá sido, efectivamente, aquele que mais investimento público absorveu no conjunto dos biliões que já foram gastos para se “fazer de Angola um país bom para se viver”.
Críticas estas que têm sido acompanhadas normalmente com o respectivo pedido de demissão.
Desde logo, a questão, que até os mais distraídos colocam, é saber se efectivamente o PR foi informado antecipadamente com todos os pontos nos ii e traços nos tt deste projecto pelo seu auxiliar Augusto Tomás.
Não nos podemos esquecer que ao abrigo da CRA 2010, o Governo é unipessoal, começando e terminando na pessoa do Titular do Poder Executivo
(TPE), que é uma das funções do PR.
Os ministros ou chefes dos departamentos ministeriais não possuem competências suficientes que lhes permitam engajar o Estado em negócios públicos ou privados, sem antes lhes ser delegado pelo TPE poderes para tal.
Depreende-se daí que seria obrigatório que João Lourenço estivesse perfeitamente ao corrente e de acordo com o projecto, para que Augusto Tomás por sua vez permitisse que a Taag e a Enana se associassem ao mesmo e que houvesse a emissão da tal garantia soberana necessária para viabilizar o financiamento, tal como consta das informações iniciais que foram postas a circular.
Caso se confirme que Augusto Tomás não cumpriu devidamente os seus deveres de casa não tendo informado como deve ser o PR ou obtido dele a sua anuência sem abrir totalmente o jogo desta operação, só restará ao próprio Presidente João Lourenço ser coerente com o seu cartão vermelho e agir em conformidade.
Agir em conformidade, significa demitir o ministro ou dar oportunidade ao próprio para ser ele mesmo a tomar a iniciativa.
Mas admitamos seguidamente que Augusto de Tomás ao nível da sua dependência hierárquica fez tudo como deve ser tendo obtido do TPE a necessária luz verde para ir para frente com a “Connection”?
A confirmar-se esta segunda hipótese não há qualquer dúvida que as coisas do ponto de vista político complicam-se bastante para o lado da imagem João Lourenço, que está nesta altura ainda numa fase inicial da sua afirmação pessoal, com todas as pressões e intrigas palacianas que se conhecem.
Uma afirmação que passa necessariamente por uma ruptura clara com os métodos autoritários usados por JES, tendo em conta antes de mais o passado recente que continua a ser demasiado presente, sendo por isso um termo de comparação permanente.
A favor desta segunda hipótese, lémos nos últimos dias algumas opiniões, via redes sociais, que apontam para a possibilidade de JLo ter dado o dito por não dito na sequência das reacções então produzidas, onde o destaque vai, certamente, para o editorial do Expansão assinado pelo seu director, Carlos Rosado de Carvalho (CRC), com o título “Acumulação primitiva do capital na aviação”.
Escreve a propósito CRC que “sem querer agoirar, temo que a Air Connection seja mais negócio à moda da Aldeia Noca, do Nosso Super, do Papagro ou da Abamat”.
Enquanto todos aguardamos pelas cenas do próximo capítulo com o regresso de João Lourenço a Luanda, o cenário que tem de ser colocado já na “mesa das operações” tem a ver com a possibilidade de termos proximamente uma remodelação ministerial abrangente, embora haja quem diga que tal só vai acontecer depois do Congresso Extraordinário do MPLA marcado para Setembro com a agenda que já é de todos conhecida.
De uma coisa não nos podemos esquecer.
Quando JLo deu posse a este Governo interrogou-se se os seus actuais membros estariam ou não a altura dos desafios que o país tinha pela frente, tendo para nós deixado entender que ainda não eram os auxiliares com que ele gostaria realmente de trabalhar.
Parece estar a altura de fazer o primeiro balanço.
A ver vamos.