Gestão

Luanda na ressaca dos 442 anos

Não está em causa a nossa admiração por Luanda, mas é pura verdade que nesta altura a sua imagem não é boa. É pouco motivante hoje encontrar nela a inspiração dos poetas que escreveram sobre a kianda. Na altura em que, orgulhosamente, se conferia e confiava à capital o título da “terra de braços abertos”.

Não está em causa a nossa admiração por Luanda, mas é pura verdade que nesta altura a sua imagem não é boa. É pouco motivante hoje encontrar nela a inspiração dos poetas que escreveram sobre a kianda. Na altura em que, orgulhosamente, se conferia e confiava à capital o título da “terra de braços abertos”.

Luanda, em face da situação de instabilidade social, política, cultural, educativa e económica, transformou-se no espaço de busca de soluções para tudo e todos. Devido também ao factor segurança, todos para Luanda se confluíram. Alguns para transformarem os seus sonhos de vida em realidade e depois retornarem à procedência. E por cá ficaram. Alguns bem sucedidos, outros não. O sol não brilhou para todos.
Depois veio a paz e trouxe a estabilidade nas estradas e intensificou a circulação de pessoas e bens. Pensou-se que o movimento de pessoas fosse o inverso. O de retorno. Pelo contrário, Luanda manteve os níveis de crescimento. O êxodo continuou em alta: homens, mulheres e crianças, vindo de todos os quadrantes. A Kianda sempre de braços abertos. Foi-se rebentando pelas costuras. Teve que se expandir para não perder o epíteto. O centro da cidade foi ficando cada vez mais longe.
Tão longe que permitiu o surgimento de novos musseques. Ou seja, novos bairros, outros projectos habitacionais que enriqueceram o conteúdo do postal de Luanda com novas centralidades, urbanizações e tudo no sentido de proporcionar “nova vida”, fosse lá em Talatona ou noutro espaço que remetesse o bairro Alvalade ou Miramar num plano secundário. O luxo multiplicou-se. Luanda, quais cogumelos, transformou-se numa cidade de “mil cidades” e de afidalgadas realidades diferentes.
Mas como um bem não vem só, acabou por arrastar consigo algum mal. Surgiu a Luanda profundamente suburbana. Nomes como Bairro dos Ossos, Fubu, Iraque, Capalanca, Belo Monte, Terra Vermelha, Paraíso, Malueka, Calawenda, Kididi Kiame, entre outros. Alguns destes de difícil acesso para o desenvolvimento. Não deixemos de incluir a Zona Verde concretamente as áreas do Chacal,
Tendas, Salinas e Mundial.
Muitas delas, falando destas últimas, não têm água corrente e a luz é dos famosos pts. Ou seja, sobrevivem com água e luz da candonga. Nas Tendas, por altura da campanha eleitoral, colocaram-se postes e se fizeram as casotas subterrâneas para o fornecimento directo de luz da Ende. Depois dos resultados, tudo caiu em saco roto. Os postes lá estão. As casotas servem agora de “piscina” para a garotada nesta altura de chuva. As enxurradas tornam estas zonas intransitáveis. São enormes concentrações de lodo e água parada à mistura. Como dizia alguém, são bairros em que o diabo esqueceu a bota.
Para a gente destes bairros, as cores que se pintam “Luanda do asfalto”, não são as mesmas destes lugarejos onde tudo tarda, desde os bancos, multicaixas, superfícies comerciais e até mesmo unidade policiais. Bairros que nos remetem às imagens medonhas das favelas brasileiras, onde impunemente os malfeitores exibem-se com armas de fogo como
“se o mundo não tivesse leste”.
A sensação com que se fica é que estes bairros novos surgiram desrespeitando sugestões urbanísticas. E hoje a chuva os faz pagar caro pela suposta teimosia. Não há desenvolvimento. Nada chega. Continuam a ser, porque os pts são fraquinhos e a luz falha constantemente, “bairros escuros do mundo, sem luz nem vida”, como descreveu Agostinho Neto.
Bairros em que se se faz à vida às apalpadelas e num terreno lamacento difícil para atingir o tapete asfáltico. Sem dúvida, os desafios da governação de Luanda são enormes e tem de assumi-los. É preciso conferir mais dignidade às pessoas. Deixando as coisas como estão, os chilreios dos pássaros do Kinaxixi poetizados nos escritos sobre Luanda do antigamente far-se-ão sentir cada vez mais longe. Nas matas do Ramiro.

Viadutos desafogam trânsito

onstrução dos viadutos do Kilamba, Zango, Boa Vista e Nó da Unidade Operativa, além de conferir maior beleza e modernidade aos principais centros urbanos da cidade, estão a garantir igualmente maior fluidez no trânsito, o que terá como resultado prático uma maior produtividade  dos funcionários públicos e privados em função da diminuição do tempo de espera nos congestionamento.

Supermercados acima do poder de compra

A província assistiu nos últimos tempos ao surgimento de novas redes de supermercados que, apesar de praticarem preços ainda acima do poder aquisitivo da maior parte da população aos principais produtos da cesta básica, têm garantido a  criação de novos postos de trabalho, numa contribuição valiosa para a alavancagem da economia .

Supermercados acima do poder de compra

A província assistiu nos últimos tempos ao surgimento de novas redes de supermercados que, apesar de praticarem preços ainda acima do poder aquisitivo da maior parte da população aos principais produtos da cesta básica, têm garantido a  criação de novos postos de trabalho, numa contribuição valiosa para a
alavancagem da economia .

Crónica sobre luanda
por carlos cardoso

Velhas e novas histórias
Ontem mal acordei, a primeira noticia que recebi ao ligar o rádio do meu humilde aparelho telefónico foi em relação a mais um aniversario da cidade de Luanda. Mais um, no caso o aniversario de número 442. E de repente me vieram a mente uma serie de lembranças desta cidade que também tenho como minha. lembrei dos meus tempos de infância quando na certeza do propalado futuro melhor, caminhava a pé para a escola, galgando alguns longos kilometros . Veio-me a cabeça a imagem de celebres frases estampadas com letras garrafais em alguns edifícios e muros da nossa hoje  velha, destruída e triste cidade.
 “ Saúde para todos no ano 2000” era como que um lema que dava certeza. Afinal eram os tempos do acreditar. Os tempos do sonhar e querer transformar.
Hoje nos 442 anos da minha mãe que me viu nascer faz meio século, a minha cabeça se enche de perguntas. O meu acreditar se transformou em descrença.
Por onde anda a saúde que seria para todos?
A cidade aceitou impotente durante décadas a destruição das suas infra-estruturas básicas, viu gente vilipendiar os seus motivos de orgulho e outros tantos erguendo selvas de betão nas suas lindas praias e paisagens. Mas Luanda continuava a ser a menina dos olhos bonitos dos angolanos; o orgulho nacional. Disseram - nos que o desenvolvimento tinha chegado e com ele novas tecnologias, novos conceitos habitacionais, outras formas de gestão de resíduos, enfim, melhorias para a vida. Disseram - nos que Luanda e Angola seriam bons sítios para viver e que por isso centenas de milhões de dólares seriam enterradas no projecto “ Boa Luanda”. Disseram e acreditamos que novas e modernas escolas e centros de saúde seriam erguidos e equipados. Acreditamos que nossos filhos se formariam melhor. Que nossas famílias viveriam mais. Acreditamos nos homens. Acreditamos nas promessas dos homens. Afinal, acreditamos num projecto que não era verdade. Acreditamos numa utopia. O betume e lustre colocados em pontos visíveis não foi capaz de encobrir os amontoados de lixo, a falta de água e energia eléctrica, a morte por doenças do século passado, a falta de transporte e a degradante condição social das famílias Luandenses. Mas a maquina propagandista continua a passar uma imagem que não pode ser da nossa Luanda. A mesma propaganda que levou a que muitos angolanos de outras regiões abandonassem suas terras para realizar o sonho de vida e futuro melhor. A mesma propaganda que tenta convencer-nos de que  somos míopes e que afinal Luanda é um paraíso.