Finanças

“Vamos ter mais chances de investimento”

O embaixador de Espanha em Angola, Manuel Hernandez Gomez,  disse que a relação económica entre o seu país e Angola é muito boa. Segundo ele, “prova disso é que temos muitas empresas a trabalhar aqui em vários sectores, nomeadamente,  eléctrico,  construção civil, agrícola e pesquisa. Mas com este mandato do Presidente João Lourenço, que apela à diversificação da economia, acho que vamos ter muito mais possibilidade de investimento.

O Jornal de Economia & Finanças foi ao encontro do embaixador de Espanha em Angola, Manuel Hernáandez Ruigómez, para abordar, em entrevista exclusiva, o estado da cooperação entre os dois países e uma possível visita do Presidente do Governo de Espanha e a actuação dos empresários daquele país europeu em Angola. Manuel Hernández Ruigómez considerou as relações entre Angola e Espanha como sendo excelentes e considerou mesmo que o reforço da cooperação comercial é de vantagem recíproca para os dois países.

Angola e Espanha são dois países que têm relações saudáveis há longos anos e são países amigos. Neste momento, qual é a avaliação que faz das relações entre os dois Estados?
Nós estabelecemos relações há mais de 40 anos, logo depois da independência. São relações muito antigas. O então primeiro-ministro Lopo do Nascimento, quando visitou a Espanha, foi recebido por Adolfo Soares, na altura primeiro-ministro, e falaram da importância de Angola para a Espanha e vice-versa, marcando assim a abertura de embaixadas nos dois países. Desde então, as relações são cada dia melhores e muito excelentes. Nos anos 90, muitos países reagiram de uma maneira radical quando Angola vivia uma fase crítica de conflito armado. Muitos países comportaram-se de uma maneira não muito boa com Angola, mas mantivemos a nossa embaixada e o nosso reconhecimento às autoridades de Luanda.

Quais são as áreas em que a Espanha está mais engajada em matéria de investimento?
Deixa-me dizer que a relação económica entre os dois países é muito boa, prova disso é que temos muitas empresas a trabalhar aqui em vários sectores, nomeadamente no sector eléctrico, da construção civil, agrícola e pesquisa, mas com esse mandato do Presidente João Lourenço, que apela à diversificação da economia, orientação que leva a economia de Angola a não estar só dependente do petróleo, acho que vamos ter muito mais possibilidade de investimento e a presença de mais empresas espanholas a ampliar seus negócios em vários campos de intervenção.

Quantas empresas espanholas actuam neste momento no mercado angolano angolano?
Há entre nós cerca de 60 a 70 empresas radicadas no país, que estão aqui a trabalhar nos sectores que fiz menção acima, nomeadamente no sector eléctrico, da construção civil, agrícola e pesquisa, mas queremos ir mais além.

A comunidade espanhola em Angola é grande?
A nossa comunidade é muito reduzida ainda. É formada maioritariamente por empresários e religiosos fundamentalmente, que ronda as 500 a 600 pessoas apenas. Nós não somos Portugal (risos). Provavelmente haja mais espanhóis, mas estas são as pessoas que temos registadas na embaixada, cidadãos nossos que passam por cá para dizer que estou a residir neste país. Estes são os que temos contabilizados.

E qual é o número de angolanos residentes em Espanha?
Os angolanos em Espanha não são um número também muito grande, embora ultrapassa o de espanhóis cá. Estes devem estar acima das cinco mil pessoas. Os angolanos estão concentrados maioritariamente em Portugal, se calhar pela língua e os laços históricos.

Numa altura em que as relações com Portugal vivem uma fase difícil, o mercado espanhol está a tender ser uma alternativa, como é que vê esta situação?
Não sou a pessoa indicada para dizer se a Espanha é a alternativa a Portugal, não. Estamos a falar de dois países com muito boas relações, não só agora, mas também do ponto de vista histórico foram sempre países fraternos e nós não estamos em Angola para substituir Portugal, longe disso, viemos para trabalhar e contribuir para o desenvovimento deste grande país.

O volume de negócio entre os dois Estados está avaliado em quanto?
Nós estamos a falar de um volume de negócios que ronda os mil 629 mil milhões de dólares norte- americanos. Este montante é correspondente às transacções realizadas no ano passado.

Mas é um volume que tende a crescer?
É sim um valor que tende a crescer muito, principalmente nesta fase das nossas relações. Hoje, por exemplo, mativeram-me informado de uma operação na Matala, no sul de Angola, de um investimento de 107 milhões de euros, que está a ser feito por uma empresa espanhola, no caso, a Lenor, sobre electrificação daquela zona do país. Esta empresa tem vários projectos também em diversas províncias.

Além deste projecto que está na Matala, província da Huíla, existem outros noutras províncias?
Temos projectos nas províncias do Cuanza Sul e Cuanza Norte, na Lunda Sul e no Moxico. Há grandes investimentos espanhóis nestas localidades. São projectos diferentes uns dos outros. O que nós queremos agora com a visita do primeiro-ministro de Espanha é reforçar a nossa presença em Angola, presença empresarial e económica, principalmente.

A expectativa é grande à volta da visita do primeiro-minitro de Espanha a Angola, Mariano Rajoy. Ainda pode acontecer?
A acontecer, é preciso que fique claro que será a primeira visita que o Primeiro- Ministro Mariano Rajoy a um país da África Subsahariana nos seus sete anos de mandato. A intenção é fazer e construir uma relação estratégica e talvez fazer com que a presença espanhola seja mais intensa do que tem sido até aqui.   

Quais são as grandes dificuldades que vivem os empresários espanhóis que têm inventimentos em Angola?    
A nível dos estados não há dificuldade nenhuma. Agora, quanto aos empresários, estes sim, sentem algumas dificuldades quando se trata de repatriar o capital dos seus investimentos, porque eles trabalham com o kwanza e devem repatriar os seus benefícios em dólares ou euros e como há esta situação complicada desde a caída do preço do petróleo, o Banco Nacional de Angola (BNA) sente algumas dificuldades na autorização de transferências. Esta é basicamente o grande problema que enfrentam.  

E a questão da burocracia e dos vistos não constitui uma dificuldade?
Os empresários, falando da burocracia, tinham sim o problema dos vistos, porque para obter um visto angolano e viajar para aqui, era bastante pesado na embaixada de Angola em Madrid e em outras embaixadas de Angola nos países europeus e não só. Os procedimentos eram muito pesados e então não era fácil organizar uma viagem. Agora que o Presidente João Lourenço tomou conta desta questão dos vistos será tudo muito mais fácil. Nós aplaudimos essa medida e isso vai favorecer muito a entrada de empresários e capitais espanhóis e não só, mas também de outros países que olham esta medida com bons olhos.

Como é que o embaixador olha para a Lei de Investimento Privado e para as futuras reformas a esta lei que neste momento está em tramitação no Parlamento?
Pensamos que esta lei que está a ser debatida no Parlamento vai facilitar ainda mais as trocas comerciais, os investimentos e a cooperação económica. O que Angola precisa é sobretudo investimento estrangeiro. É o investimento que faz o desenvolvimento de um país, não é a cooperação em si. Não falo apenas, por exemplo, da cooperação técnica, falo do investimento de empresas que querem entrar e, para isso, é preciso a criação de um ambiente, uma atmosfera saudável, boas iniciativas e bons regulamentos, para que os capitais possam entrar no país sem dificuldades. Se o Presidente está a falar de diversificação económica, não deve ser só palavras, deve ser complementada com acções. A diversificação deve ser a abertura ao mundo, aos capitais estrangeiros e estes  devem entrar aqui com facilidades suficientes e segurança jurídica garantida. A segurança jurídica é fundamental e acho que é o que está a ser feito neste momento. O Presidente angolano esteve em Madrid em Março de 2017 ainda como ministro da Defesa e encontrou-se com o primeiro-ministro Rajoy. Nesta visita, falaram das prioridades. Na altura, já se sabia que ele seria o candidato do MPLA às eleições de Agosto. Agora vão formalizar muita coisa que acordaram em realizar.

O que é que a Espanha tem mais para oferecer à Angola para além do que já tem concretizado?
A Espanha tem as suas empresas e estas a sua gente. Nós somos um povo particularmente adaptado a qualquer trabalho no exterior. Os espanhóis no estrangeiros são simpáticos e não só em Angola, mas também noutras partes do mundo e é natural que isso facilite muito as coisas. Com a simpatia vem também a preparação técnica, jurídica e económica para ajudar a desenvolver qualquer país e Angola não foge à regra. Para nós, Angola é um país prioritário em África e por isso o Presidente do Governo de Espanha a elegeu para fazer a sua primeira visita à África subsahariana.

Quais os principais parceiros de Espanha em África e em que posição está Angola?
Angola é número um para Espanha em África. Temos, por exemplo, muitos negócios com a Nigéria, mas muito mais por causa do petróleo. Aqui temos muito mais ambições. Essa mensagem de diversificação do Presidente João Lourenço é muito importante para nós, porque não temos só interesses petrolíferos, temos também noutros sectores. A Espanha está muito interessada em cooperar nos domínios da agricultura, pescas, mineração, onde já temos um projecto muito importante que é o Planageo, para descobrir as capacidades geológicas e potencialidades minerais de Angola, com importantes descobertas no sul do país.   

Qual é a contribuição da Espanha no Planageo?
É uma união temporal de várias empresas em que a parte oficial de Espanha está o Instituto Geológico Mineiro, com 40 por cento. Aspiramos fazer pesquisas em outras partes do território angolano, porque este instituto tem muita experiência em muitos pontos do mundo na descoberta de riquezas. Aqui há muito ainda para se descobrir e tudo vai além do petróleo. Angola está quase completamente inexplorada. Esta é uma das partes mais importantes da nossa presença cá.   

O que é que esta visita pode trazer  para os dois países?
Muita coisa!Estou a falar, por exemplo, do reforço da relação que é muito forte e talvez prepare uma próxima visita do Presidente João Lourenço à Espanha, que deve acontecer ainda este ano. A acção diplomática do presidente angolano, deixa-me dizer, é absolutamente admirável. Ele está a fazer um trabalho excelente na RDC e noutros países de África, tornando Angola num país com uma liderança no continente que devemos louvar. Angola é estratégica em África.

Em matéria de educação, que contribuição o seu país pode dar a Angola?  
Olha, temos bolsas disponíveis, mas só para pós-graduações, mestrados e doutoramentos. Quer dizer que basta que o interessado diga onde quer estudar, a embaixada cria todas as condições e vê dentro do sistema público de universidades, e faz tramitação até Madrid decidir se pode ou não o candidato ser aceite. Lamentavelmente, a relação educativa entre os dois países não é muito forte. Temos que rever isso, mas que a partir desta visita haverá um reforço de âmbito cultural e educativo.

O turismo interessa a Espanha?
O turismo é um sector em que somos muito fortes e a Espanha vai oferecer possibilidades de intervenção empresarial aqui no país. Deixa lembrar que somos o segundo país do mundo em número de turistas este ano com 83 milhões de visitas em 2017. Então, temos muita experiência e capacidade para oferecer aos angolanos, porque este país tem muito potencial turístico nesta fase do seu desenvovimento. Como Angola estava mais concentrada no petréleo tinha esquecido que há outras possibilidades por explorar.

Espanha também é muito forte no que toca a saúde e tem sido já alternativa de muitos angolanos em se tratar lá. Como é que estamos em matéria de cooperação na área da saúde?
Começando pelo Presidente dos Santos! Não há alguma relação neste sentido. Nos períodos 2010-2011 tínhamos alguma relação neste sector, mas como Angola  atingiu o nível de país de desenvolvimento médio, a OCDE impede que países com renda per capita de cinco mil dólares deixem de cooperar neste sentido, por isso não temos um programa concreto de saúde. Neste momento, vamos fazer alguma coisa com os salesianos que têm um dispensário médico do Sambizanga.