Finanças

Preços relativos

Economista e docente universitário traz esta semana no seu espaço a temática sobre os factores que afectam os preços no mercado.

De nada valeu o “disfarce” envergado pela Dona Kitéria para tentar obter o preço justo pelos bens que pretendia adquirir na Kitanda dya Kitadi (mercado do dinheiro, em kimbundu).
Talvez seja importante esclarecer, para que não se faça uma interpretação equivocada, ao fazer-se uma analogia no estrito sentido da letra, mercado do dinheiro, e logo se atrelar à ideia de algo parecido com bolsa de valores. Não, a atribuição pelo povo da designação de “mercado do dinheiro”, ou também de mercado dos reajustados, surgiu quando tinha de se transportar grande quantidade de notas para realizar até mesmo a mais elementar transacção, tal era o galope da inflação.
Depois deste esclarecimento, retornemos ao impasse da Dona Kitéria, que logo foi identificada como “mulher de posses”, mesmo envergando roupas modestas e de cores mortiças, desgastadas pelo uso. “polo uabenha” (cara tem brilho), foi o sussurro entre as vendedoras, e logo o preço foi majorado “para cima”. E assim era a estratégia, as vendedoras do mercado fixavam o preço em função da avaliação feita ao cliente. Os cuidados que tinha com a pele nutrida com cosméticos e cremes de beleza lançaram suspeitas sobre a condição social da Dona Kitéria, imediatamente
qualificada como mulher de posses.
O ano de 2016 encerrou com a taxa de inflação acumulada mais alta dos últimos 13 anos. Segundo o apuramento do Instituto Nacional de Estatística (INE) os preços inflaram 41,95 por cento (pc) até ao final do ano passado, o que corresponde a uma média mensal de cerca de 2,96, portanto, o que traduz uma perda do poder aquisitivo no fim do ano de quase 30, mais concretamente, 29,55, ou seja, os detentores de moeda exerceram o direito que lhes confere a posse da moeda em apenas 70,45 pc.
Como forma de protecção, normalmente os agentes económicos mais atentos procuram aplicar os seus activos no mercado financeiro, mas para manter o valor real destes activos à taxa de juro deve situar-se no mínimo ao nível da taxa de inflação esperada, cujo apuramento no fim do ano de 2016 foi de quase 42 por cento (pc), e portanto, as taxas de juro abaixo deste patamar foram negativas em termos reais.
A medição do nível de preços na economia para o apuramento da taxa de inflação em Angola teve início em 1991, após a abertura da economia aos mecanismos de mercado, porque antes vigorava um rigoroso sistema de controlo de preços e da economia mediante procedimentos de planificação centralizada. Na realidade, o primeiro ensaio de medição do índice de preços ao consumidor (IPC) ocorreu em Dezembro de 1990, tendo na altura sido constatada uma taxa de inflação do mês de 14,05 por cento. Em 1991 a taxa de inflação anual apurada foi de 175,72 e a taxa de inflação mais alta até agora observada no país foi de 3.783,25 computada em 1995. A mais baixa foi a verificada em 2014 de 7,48.
O comportamento da inflação em Angola andou quase sempre a níveis consideravelmente altos (a medição de inflação nestes 25 anos aponta para uma média geométrica de 152 por cento ao ano). De facto, os preços conheceram crescimentos em média na fasquia dos três dígitos até 2002, ano do alcance da paz definitiva, depois caíram para dois dígitos até ao ano de 2011. Nos três anos seguintes parecia que a meta de estabilização dos preços estava consolidada com a inflação a situar-se em apenas um dígito, mas o processo foi interrompido em 2015 com a inflação a situar-se novamente em dois dígitos, tendência que muito provavelmente será observada em 2017, o que representa um retrocesso em termos de política monetária.
Apontam-se como factores críticos indutores a estes níveis de inflação os seguintes: a situação de guerra que o país enfrentou durante mais de duas décadas, que desmantelou toda a cadeia produtiva com realce para a agricultura, por um lado, e por outro, os desequilíbrios estruturantes de que
enferma a economia angolana.
A inflação em Angola é essencialmente de natureza estrutural, aquela que está estreitamente relacionada com a ineficiência de serviços fornecidos pela infra-estrutura de uma determinada economia. Essa ineficiência, obviamente, eleva os custos dos serviços prestados, acarretando dessa maneira uma majoração dos custos de produção e em seguida o aumento dos preços das mercadorias no mercado.
Os preços sobem não porque as coisas valem mais, mas porque a unidade pela qual são medidas as coisas (a moeda) vale menos, o que podemos desde logo deduzir que a inflação seja uma desvalorização da moeda em relação as coisas. Uma unidade monetária, em contexto de inflação (subida dos preços relativos) passa a adquirir menos quantidade de bens, ou seja, a subida do preço equivale à descida do valor da moeda.
A descida do valor da moeda é normalmente atribuída ao excesso de oferta da moeda, segundo a abordagem monetarista. Quando a quantidade da moeda em circulação aumenta sem o correspondente aumento da produção de bens e serviços, os preços têm tendência a subir em virtude do aumento da procura. Isto vai de encontro com a seguinte linha de pensamento:
Plantou dinheiro? Colheu inflação.
E como consequências da inflação destacam-se a desvalorização da moeda e a deterioração do poder de compra dos agentes económicos.
Quando os preços sobem, se não se verificar um aumento proporcional dos rendimentos das famílias, verificar-se-á uma deterioração do seu poder de compra, principalmente daqueles que auferem rendimentos fixos, como os assalariados e os pensionistas. A inflação tem um custo económico e social muito alto, pois provoca a deterioração das condições de vida.
O combate da inflação visa garantir a estabilidade de preços na economia, ou seja, preservar o poder de compra da moeda. É necessário que haja estabilidade de preços, o que não significa necessariamente que os preços tenham debaixar, pois tal espiral pode comprometer o processo de crescimento da economia, ao penalizar o lado da oferta, na medida em que se os preços caírem até ao ponto que não superem os custos, as empresas quebram irremediavelmente. Os preços são relativos e, por conseguinte, o barato ou caro também é relativo, tudo depende do nível de rendimento, agora o que importa é que haja estabilidade de preços na economia.
Na estrutura da formação dos preços estes servem duas funções importantes e distintas: a função de racionamento dos preços e a função de afectação dos preços. A função de racionamento dos preços é o processo pelo qual o preço atribui a oferta existente de um dado produto aos consumidores que mais o valorizam. Assumindo a escassez como característica universal da vida económica os preços de equilíbrio servem para racionar a oferta disponível aos consumidores que dão maior valor.
A função de afectação dos preços é o processo pelo qual o preço actua como um sinal que afasta os recursos da produção de bens cujos preços se situam abaixo do custo, orientando-os para a produção de bens cujos preços excedam os custos. Nesta função o preço actua como um sinalizador, destinado a orientar os factores de produção para aquelas actividades que garantam maior rentabilidade, por exemplo, naquelas em que haja excesso de procura, e por via disso as empresas podem cobrar mais do que necessitam para cobrir os custos e obter maiores lucros.
Todavia, ambas funções se articulam melhor em contexto de livre concorrência, porque quando há os chamados controlos de rendas estas funções críticas do mecanismo de preços são subvertidas.
Dona Kitéria teve de adoptarpor outra estratégia, passou a encarregar a empregada para fazer as compras no mercado, cansada que estava de pagar “em alta” por ter a pele pouco castigada pelas tórridas inclemências do astro rei (o sol).
E nisto reside o dilema do economista, quando pensa ter o exclusivo da solução vem a Kitanda cujos operadores ajustam-se às novas condições descativando a cláusula ceterisparibus (todo o resto constante).
Em se tratando de economia todos são especialistas, até os economistas, haja em vista a sua relação intrínseca com as questões da sobrevivência humana. Já as discussões em torno da teoria cosmológica do BigBang sobre o desenvolvimento inicial do Universo, que parece ser resultado de uma explosão há aproximadamente 13,7 biliões de anos, continuam em busca de outros universos definidos por outras ocorrências explosivas.

* Expressão em Kimbundo que significa Economia de Mercado