Entrevista

Temos de avaliar o molde de contratação de empresas chinesas”

O Governo deve adoptar políticas mais agressivas para apoiar mais à classe empresarial buscando 

os que trabalham de facto e com ligação mais directa com o mercado e os que criam sempre emprego 

Angola deve desenhar um novo modelo na aplicação do acordo com a China, pois muitas empresas angolanas têm sido preteridas, o que não é bom, segundo Francisco da Silva.
Em entrevista à Rádio Nacional de Angola (RNA), o empresário angolano entende que a ajuda do monstro asiático é necessária, mas o Governo teria de partir para empréstimos, não para financiamentos, o que ajudaria a economia nacional a funcionar em pleno.
Para empresário, o financiamento cria emprego na China
e desemprego em Angola.

O que se espera do financiamento chinês para Angola?
É de bom grado que as nossas relações estejam a desenvolver de forma muito acelerada. A China tem sido um parceiro forte para o mercado angolano e não só, pois tem tido uma presença forte em África. Agora, é importante que comecemos a analisar as questões estritamente internas, ou seja, olhar para os nossos interesses: porquê? Será que estamos a importar dívidas? O que nos interessa agora, ao invés de solicitar financiamentos, seria bom que partíssemos para empréstimos, o que ajudaria a economia nacional a funcionar de forma diferente. Fica-se com a sensação de que o financiamento é o envio de dinheiro para Angola, o que não é verdade.

O que se passa de facto?
O que acontece é que o chinês vem trazer cá escolas, estradas, etc. E o dinheiro fica na China. O financiamento cria emprego na China e cria desemprego em Angola, ficando o dinheiro por lá. É que as pessoas não têm noção. Ir buscar financiamento julgam que o Presidente vai trazer dinheiro para Angola. Se vier é em pouca quantidade porque há rubricas pequenas que andam à volta de 25 a 30% salvo erro, mas sabemos que grande parte acaba por ficar na China. Há uma selecção de matérias-primas e as empresas para trabalharem no país.

Essa apresentação da nova Angola que está a ser encabeçada pelo Presidente João Lourenço, o que pode trazer de novo para a economia angolana?
O Presidente tem passado uma mensagem de firmeza naquilo que tem sido a sua linha de acção e tem sido muito positiva porque a maior de preocupação, ou seja, a péssima imagem de que Angola se debate é a corrupção, pois ela tem sido o nosso maior emblema no exterior. E o Presidente tem passado uma imagem de que o país está firme no combate à corrupção e outros males que corroem a economia nacional. Eu até chamo de certas epidemias. Essa luta não será fácil por estar enraizada no seio dos angolanos, mas se nós conseguiremos vencer esses males, acredito que Angola estará entre os países cimeiros no que o desenvolvimento diz respeito.

Não está satisfeito pelo tratamento dado aos empresários angolanos?
O Governo tem que adoptar políticas mais agressivas de apoio à classe empresarial angolana, buscando de facto os empresários que trabalham e que mostrem as acções práticas. As dificuldades deles devem ser mais atenuadas. Não estou a falar de empresários de gabinete. Refiro-me àqueles que têm uma acção directa com o mercado local, sobretudo os que mostram o seu potencial. Há muitos que já mostraram e que querem trabalhar. O país tem empresários fortes espalhados em várias áreas, como da agricultura, construção civil e em todos segmentos de negócios. O problema é que esses não são tidos sido nem achados. O Presidente da República está a ir buscar financiamento à China, na Alemanha, França, mas nós temos empresários nacionais a investirem no exterior e muitos com dinheiro a abrirem refinarias, levarem dinheiro a outras nações, onde são respeitados. Hoje, nós temos empresários fortes a investirem na Namíbia, África Sul, na América e Portugal e há patrimónios e empresas que são de angolanos noutros países,principalmente na Europa.

Compliance e transparência

O empresário Francisco da Silva apelou às autoridades angolanas a seguirem à risca o compliance e a transparência nos negócios para que o país possa se afirmar no mundo “porque actualmente o mundo está globalizado e precisamos de estar mais próximos uns dos outros. O FMI tem feito esse papel e tem mostrado alguma abertura financeira pelo mundo e adensa mais com a nova postura do Presidente da República em mostrar ao mundo que Angola está a mudar”.

Voltando à China, é um daqueles que acredita que essa cooperação com Angola vai dar resultados, mas o modelo de implementação dos negócios tem sido diferente, pois os empresários angolanos deviam ser mais tidos e achados…
Angola tem de desenhar um modelo diferente dessa busca de dinheiro proveniente da China. Os empresários nacionais deviam ter muito mais força do que os chineses, porque esses são revestidos com poderes económicos e financeiros do seu Governo. A China tem bancos que financiam acções dos seus empresários locais, o que não acontece com Angola. Então, há muita fragilidade de empresários angolanos, por falta de incentivos. É revoltante dizer que nós dêmos mais valor aos empresários estrangeiros do que aos nacionais.
Os chineses só vêm a Angola buscar lucros e não deixam mais-valia para a economia nacional. Investem, deixam as infra-estruturas sem a garantia de manutenção. Para Angola, é empréstimo ou financiamento e para os chineses é um investimento.



Subfacturação de empresas inexistentes é um problema

O que gostaria de ver mudado no processo de contratação de empresas que trabalham com as estrangeiras, particularmente no âmbito do financiamento chinês?

O que deve ser mudado é, justamente, a forma de contratação de empresas. As que são seleccionadas (20 ou 30% do negócio)são empresas indicadas pelo poder político cujas empresas não têm infra-estruturas, equipamentos, email...são criadas de manhã no Guiché Único e à tarde ganham os “chorudos” contratos. Isso é mais agravado pelo facto de não terem experiência, prática, “know-how” e não dominarem o “core-business”, enfim! Digo que não são empresas propriamente ditas: são papéis. Temos que parar de ter empresas intermediárias, pois elas ganham os contratos e vão buscar quem faz para lucrar. E por que não se atribui os serviços directamente as que fazem?. Há muita subfacturação e estamos a criar uma estrutura pesada ao Estado por causa dessa terciarização. Temos que ter mais clareza na contratação de empresas. Em suma, temos que começar a entregar em mãos àquelas que executam verdadeiramente o trabalho.

O Banco Nacional de Angola voltou a vender dólares nos seus leilões. Como empresário, o que tem a dizer sobre esse começo da acção do banco central?
Isso mostra que há um esforço da parte do Governo. Nós sentimos na pele e tivemos problemas graves por falta de divisas porque o nosso país vive essencialmente de importação. Mesmo que a malta coloque uma fábrica em Angola, mas a peça ou a matéria-prima tem de vir do exterior. É sempre um alívio. E, agora, começa a se desenhar mais rápido o crescimento da economia e esperamos que o Governo tome medidas para que não haja mais escassez de dólares no mercado. Queremos uma economia muito mais controlada, forte e séria, e que venha a dar dignidade à postura
angolana. * com RNA