Entrevista

“Quando as empresas têm recursos do OGE relaxam”

A realidade objectiva do mercado criou dificuldades para a classe empresarial e constitui o maior entrave ao investimento

O desenvolvimento de qualquer país passa fundamenalmente pelo dimamismo que o sector privado apresenta e nesta perspectiva, a diplomacia económia adoptada por Angola está no bom caminho, conforme defende em entrevista ao Jornal de Economia & Finanças, empresário e presidente da Câmara de Comércio Americana em Angola (AmCham- Angola), Pedro Godinho, com quem abordamos questões ligadas ao discurso do Chefe-de -Estado, João Lourenço, sobre o Estado da Nação, proferido esta semana na Assembleia Nacional.

Qual é a percepção com que ficou em relação ao discurso do Chefe-de-Estado sobre o Estado da Nação?
Achei um discurso transversal e bastante encorajador para o país. A sua visão é extremamente positiva. No fundo é um balanço sobre o seu primeiro ano de mandato, marcado tanto dentro como fora de portas como um ano de grandes mudanças. Qualquer cidadão nota as diferenças que o país vai vivendo, desde a liberdade de imprensa à de expressão. Hoje há mais abertura e fora do país o impacto da sua governação já é vista como um exemplo para a gorvernação em África.

Acha que desta vez os grande investidores extrangeiros e sobretudo os americanos vão nos levar a sério?
Repare por exemplo, que depois da guerra, a corrupção era o pior mal que o país enfretava e o que mais retraia o investimento e o desenvolvimento. Essas reformas, levadas a cabo pelo actual Executivo, têm estado a contribuir para o estímulo dos cidadãos e reposição da moral pública. Fora de portas a satisfação é grande, principalmente dos americanos, que manifestam grande satisfação e vontade de investir no nosso país.

E neste contexto, qual tem sido o papel da Câmara?
Temos estado a mobilizar investidores a olharem para o mercado com mais confiança e credibilidade e estes sentem-se motivados pelas reformas que estão a operar em Angola. O presidente é querido nos EUA. Recentemente recebeu boas garantias dos empresários locais.

As populações ainda não estão a se beneficiar dos ganhos desta mudança. Acha que ainda é muito cedo para cobrar ao PR?
As mundancas não são rápidas , são muito lentas, mas acredito que 2019 vai ser muito melhor. Todos indicadores avaçandos pelo Presidente mostram que sim.

O Presidente no seu discurso não falou da economia informar. Acha que esqueceu?
Penso que não! A economia informal ainda é um problema. O resultado de toda actividade informal ainda não se faz sentir nas contrições ficais do Estado. É preciso um trabalho árduo para conseguirmos esse objectivo.

A questão do repatriamento de capitais teve um grande destaque no discurso do Chefe-de-Estado. Vamos consegue reaver esse dinheiro?
Pelo menos 40 por cento do capital vamos conseguir recuperar, porque não acredito que venha na totalidade. Muitos já devem conseguir escapar este dinheiro. Se houver vontade patriótica de muitos, será possível sim. Muitos desses fundos podem contribuir bastante para a economia. Acredito que deverá haver um repatriamento parcial, não mais do que isso, tenho algumas dúvidas.

Quais achas que devem ser as áreas para melhorar aplicar esses valores?
Devemos olhar principalmente para a agricultura e a indústria, para transformar esses produtos e o seu excedente servir para a exportação e, daí termos uma fonte de divisas privilegiada. Essas duas áreas são fundamentais nessa fase.


E o que acha da privatização de muitas empresas públicas anunciada pelo Presidente?
Acho que nenhuma empresa deve ser poupada neste processo, porque a gestão privada é mais rigorosa. O Estado não deve ter empresas, deve apenas controlar, cria condições para estimular a competição e fiscalizar toda actividade empresarial. Quando as empresas têm recursos do OGE relaxam. Agora, o Estado pode ter partipações em empresas estratégicas, como as de bandeiras (energia, águas e transporte), nalgumas até maior participação para ter um maior controlo da coisa pública. Portanto, 90 por centro delas tornaram-se um fardo para o próprio Estado.

Mudança de mentalidade é ideal

O sector petrolífero vai merecer profundas alterações nos próximos anos. O que tem a dizer sobre isso?
O sector dos petróleos está a dar sinais de recuperação positiva. Vários projectors que estavam parados estão a renascer. É dos sectores que mais absorve investimento neste país. A Sonangol jogava um papel duplo que era necessário acabar. Os operadores não eram tratados como verdadeiro parceiros e isso era negativo. Reformar esse área é urgente e nisso o Executivo está a ser feliz.

A actual lei da concorrência e do investimento privado fatisfaz a classe?
A nova lei da concorrência vem exactamente facilitar, estimular e contribuir para que melhoremos no ranking do Doing Bussiness, porque sabemos que os monopólios que existiam não facilitavam o investimento. As empresas que aportavam aqui lhe era imposta determinadas condições que eram contrarias aos princípios da transparência e as leis dos seus países. Essa lei vai permitir que as empresas concorram de igual forma, oportunidades e equilíbrio.

O que mais lhe preocupa neste novo contexto?
O problema de Angola não passa somente pela atracção de investimentos. O país tem muitos recursos, que poderiam permitir o alcance rápido dos objectivos sem dependermos de empréstimos. Pelas deslocações que o Presidente tem feito nota-se que tem sido bem sucedido. Há muita vontade em apoiar o país, mas a minha grande inquetação reside no facto de termos aqui um grande obstáculo que é o da mentalidade. O factor metalidade é um grande problema. Por mais investimentos que recebamos de fora, se não mudarmos de mentalidade nunca saberemos absorver as vantagens. Os servidores públicos devem mudar de mentalidade.

Qual deve ser o apoio do Estado aos empresarios ?
O que o empresariado precisa mesmo é do gesto solidário do Estado. Um empresário de verdade não precisa do Estado para ir buscar financiamento. O dinheiro está a fluir, o que precisamos mesmo do Estado é a sua solidariedade e compreensão. Quando digo compreensão estou a me referir a facilitação de processos, a não criação de obstáculos e barreiras. Um projecto que pode ser aprovado em um mês, às vezes, leva cinco ou dez anos. É preciso facilitar os processos e reduzir ao máximo a burocracia. Temos que reduzir as penalizações ao empresários, isso mata as empresas.