Entrevista

“O país não valoriza os inventores”

O entrevistado considera ser importante o aproveitamento das “mentes brilhantes” e critica a postura do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia de só os precisar nas feiras

O Presidente da Associação Angolana dos Inventores e Inovadores, Bitombokele Lei Gomes considera que a falta de apoio tem dificultado a industrialização das invenções angolanas que até já conquistaram medalhas em vários concursos internacionais. Em entrevista ao JE, o inventor entende que enquanto o país não mudar de mentalidade é difícil ultrapassar a crise financeira.

Qual é o estado actual da Associação Angolana dos Inventores e Inovadores?
Temos estado a empreender sobre um trabalho um pouco esquisito, que é a gestão de mentes brilhantes do país, e não é uma tarefa que faz parte da agenda dos africanos, porque entendem que esta missão pertence apenas ao mundo ocidental. No contexto africano, falar de inventor ou inovador, é sinónimo de pessoas que não “batem bem da cabeça”. Este é o primeiro obstáculo que temos, até os investigadores encaram as invenções como uma brincadeira. Devo confessar que estamos diante de uma crise epistemológica no contexto africano.

Nem mesmo Angola caminha para ultrapassar esta crise epistemológica?
Não. As nossas políticas locais estão mais voltadas à busca de soluções e inovações na China ou nos Estados Unidos da América. É importante convencer o Executivo de que a diversificação da economia passa necessariamente pelo investimento e aproveitamento das mentes brilhantes.

Quer com isso dizer que o país tem inventores capazes de desenvolverem projectos viáveis?
Claro que tem. A nossa associação controla mais de 362 inventores e pensamos que devem existir outros que precisam de ser cadastrados. Estamos representados em 10 províncias do país, Luanda lidera com 160 inventores, seguido da Huíla com 104. A nível internacional a nossa agremiação demonstrou uma certa capacidade inventiva que mereceu vários prémios e medalhas de ouro. Por isso, tenho a plena certeza que o preconceito está em Angola.

Nem com o reconhecimento internacional têm conseguido da classe empresarial investimentos para a industrialização das vossas invenções?
Os nossos empresários ainda têm a cultura de fazer negócios apenas com os produtos acabados vindos do estrangeiro. Por exemplo, nos EUA, os investidores caçam as ideias, partindo do princípio de que money just an idea (o dinheiro são as ideias). Logo, vão atrás das grandes invenções com a missão de criar negócios. Ray Kroc comprou a ideia da família McDonald, que hoje tem 48 mil restaurantes considerada a maior cadeia mundial de restaurantes de fast food de hambúrguer, tem 48 mil estabelecimentos e atende cerca de 68 milhões de clientes por dia em 119 países. Inovou um produto que já existia.

Desde que está no comando da associação nunca houve alguma iniciativa empresarial em apoiar algum projecto?
A Sistec foi a única empresa que nos deu apoio, mas devido à crise não conseguiu atingir os seus objectivos. Chegamos a receber também do antigo ministro dos Petróleos, Desidério Costa, um apoio financeiro de 23 milhões de kwanzas que permitiram cadastrar as nossas invenções a nível de África, assim como realizar uma viagem de competição ao Brasil.

A associação tem laboratórios?
Não. E ainda bem que toca neste assunto. Visitamos o Instituto Nacional de Petróleos (INP), no Cuanza Sul que detém os melhores laboratórios para iniciativas dos inventores e há sete meses solicitamos uma parceria para a construção de protótipos industriais no espaço da instituição, mas fomos informados que o processo está bloqueado a nível do Ministério da Educação e da Sonangol. Essa falta de apoio também tem dificultado a construção dos protótipos industriais que poderiam ser levados para grandes competições internacionais.

Quais são as competições internacionais mais recentes em que Angola participou e venceu?
Este ano marcamos presença na competição de inovações do Canáda com 49 países e Angola participou com seis invenções e ganhamos três medalhas de ouro e três de prata. Isso demonstra que a nossa capacidade inventiva está à altura de uma dimensão internacional. Em Junho deste ano, o inventor Ricardo Figueiredo representou o país na feira de criadores de tecnologia, em Silicon Valley, na Califórnia, nos EUA e conquistou uma medalha de ouro, apresentando um aparelho colector de mosquitos causadores da febre amarela e malária. Fui também premiado este ano com uma medalha de ouro, durante a 46ª edição do Salão Internacional das Invenções de Genebra, na Suíça, com a invenção Mandombe 01, um sistema de design automóvel.

Há anos foram recebidos pelo ex-presidente da República, José Eduardo dos Santos. Qual foi exactamente o propósito do encontro na Cidade Alta?
É uma questão complexa. Fomos de facto recebidos e apresentamos o nosso plano de accção com base nos decretos presidenciais assinados na altura ligados ao Sistema Nacional de Tecnologias e Inovação. Solicitamos um apoio financeiro para que a associação conseguisse concretizar os seus objectivos e fomos chamados pela Casa Civil para fornecer os dados com a promessa de nos apoiarem com 28 milhões de kwanzas, mas o Ministério da Ciência e Tecnologia deu um parecer negativo e não recebemos o apoio com a alegação de que fomos “atrevidos” e não devíamos ter solicitado nada à Presidência da República. Posso garantir que até ao momento nunca recebemos nenhum apoio monetário do Executivo.

Nota-se que há algum divórcio entre a associação e o Ministério do Ensino Superior e da Ciência e Tecnologia. O que se passa de concreto?
Estamos muito distante um do outro, mas foi o Ministério quem criou a associação e mais tarde passamos a ser um organismo autónomo, porque disseram que éramos um incómodo, sobretudo quando solicitávamos algum apoio. A título de exemplo, realizou-se na semana passada a feira dos inventores e o Ministério convidou-nos apenas para expor, quando devíamos fazer parte de toda a organização do evento. Quer dizer que o Ministério só precisa de nós quando realiza feiras.

“Na China uma invenção que ganha medalha de ouro é considerada um património”

Diante deste cenário, fica-se com a impressão de que não são “tidos nem achados”, qual seria a solução para o vosso futuro?
A saída é sermos uma associação de utilidade pública. Estamos atrás deste objectivo, pois já reunimos toda a documentação para o efeito junto do Ministério da Justiça, aguardando o deferimento da solicitação. Fizemos um estudo de viabilidade e concluímos que a associação precisaria de pelo menos 300 milhões de kwanzas por ano.

Mas qual é o destino dos projectos angolanos premiados nas diversas feiras internacionais?
Andam atirados por aí... Se perguntar a um inventor que até já ganhou medalha de ouro a resposta certamente será esta, porque ninguém valoriza. Está tudo abandonado por falta de apoio. A nossa actividade não é levada a sério, é preciso haver uma mudança de mentalidade, isso mostra que o país não valoriza os inventores. Na China, uma invenção que ganha medalha de ouro, é considerada um património nacional e uma grande riqueza. Enquanto não criarmos uma nova maneira de pensar, é muito difícil ultrapassarmos a crise económica e financeira actual.

Qual seria a melhor via para uma melhor valorização da classe dos inventores?
O país tem muitos problemas que também deviam nos consultar para a sua resolução. A pessoa que inventa tem a capacidade de raciocinar com uma velocidade de cruzeiro em relação aos outros. E os países que entenderam isso, fizeram das mentes brilhantes a base dos seus recursos, e são objectos de assunto nacional.

O Instituto Angolano de Propriedade Industrial (IAPI) tem ajudado a associação no registo das obras?
O IAPI tem ajudado na protecção das invenções, mas a Lei da Protecção Industrial está ultrapassada, e há necessidade da sua actualização, o que já está a ser feito. O registo de uma invenção é apenas territorial e para torná-la internacional o país precisa de entrar nas plataformas mundiais, a fim de permitir que o registo feito em Angola, automaticamente esteja cadastrado em diversos países. Uma invenção protegida em Angola só tem 20 anos para a sua industrialização e o inventor ganhar os seus lucros. Passado este tempo, caí no domínio público e deixa de ter exclusividade. Em Genebra, encontramos projectos de angolanos que foram aproveitados. Se o Executivo não criar mecanismos de materialização das nossas invenções, todo o trabalho de criatividade feito até agora não valerá para nada.

Quanto é que custa fazer um protótipo industrial de uma invenção?
Um protótipo pode estar avaliado em 10 mil dólares e o processo é simples. O inventor vai por exemplo para a Inglaterra ou a outro país onde temos parcerias e instala-se por lá durante um mês na companhia de engenheiros e depois cria-se mecanismos para pôr no mercado.

Nesta altura quantas medalhas e invenções estão controladas pela associação?
Desde que a associação começou a viajar ao estrangeiro em 2016 para as grandes competições internacionais, já conquistamos 68 medalhas. Em termos de invenções, controlamos 450. Até ao momento, apenas uma delas foi colocada no mercado com o patrocínio da Sistec. A invenção pertence ao Adilson Octávio. Trata-se de um aplicativo dicionário de línguas nacionais que foi reproduzido no Brasil e foi comercializado. Temos um projecto inovador que é uma mini-hídrica que pode ser aproveitado tendo em conta a insuficiência energética que o país regista. Estamos a trabalhar com o Ministério da Indústria para revolucionar a ideia e surpreender o país.

Há quanto tempo está na liderança da associação?
Temos um estatuto que compõe uma mesa da assembleia e uma direcção executiva. Quer a assembleia como a direcção têm cinco anos de mandato. Fui eleito em Agosto de 2016 e faltam-me três anos para findar o mandato.

Qual é o vosso maior desafio enquanto decorrer o mandato?
É sermos consultados pelo Executivo para tratar assuntos da Nação. Porque é triste saber que faço parte de uma associação que tem prestígio no estrangeiro com os seus inventores, mas que não recebe nenhuma consideração no seu próprio país. Significa que alguma coisa está errada e precisa de ser corrigida. Penso que do mesmo modo que o Presidente da República, João Lourenço, reuniu com os artistas e músicos, também pode fazê-lo com os inventores, no sentido de colher ideias e informações que podem ajudar nas políticas que estão em curso no país neste período de mudanças profundas. O prestígio do inventor não está apenas nas medalhas, mas sobretudo em ver a sua criatividade ser implementada para resolução dos problemas sociais.

Prémios
Na liderança da Associação Angolana dos Inventores e Inovadores desde 2016, Bitombokele Lei Gomes Lunguani é detentor de quatro invenções e três medalhas, sendo duas de ouro e uma de prata conquistadas em concursos internacionais. O seu último prémio foi na 46ª edição do Salão Internacional das Invenções de Genebra.