Entrevista

“O Governo (angolano) precisa trabalhar mais sem medo de errar e tão pouco de tomar decisões”

A embaixadora do Reino Unido acreditada em Angola, Jessica Mary Hand, disse ao Jornal de Economia & Finanças olhar a integração de Angola na Commonowealth como uma forma de elevar as relações comerciais entre os povos, mantendo-as cada vez mais sólidas e com pequenas iniciativas capazes de impulsionar o desenvolvimento mais sustentável do país.

A embaixadora do Reino Unido acreditada em Angola, Jessica Mary Hand, disse ao Jornal de Economia & Finanças olhar a integração de Angola na Commonowealth como uma forma de elevar as relações comerciais entre os povos, mantendo-as cada vez mais sólidas e com pequenas iniciativas capazes de impulsionar o desenvolvimento mais sustentável do país.

A Commonwealth é composta por 53 Estados, cuja ex-colónias britânicas, com excepção de Moçambique (antiga colónia portuguesa) e Ruanda, que aderiram em 29 de Novembro de 2009. Que vantagens Angola pode experimentar ao integrar esta comunidade?
Com mais de 2,4 bilhões de pessoas, a Commonwealth é composta por um terço da população mundial, dos quais 60 por cento tem menos de 30 anos. Angola é semelhante, a população é maioritariamente jovem. A Commonwealth também influencia quase todos os grupos de países internacionais. Contém algumas das economias que mais crescem no mundo e representa um quinto de todo o comércio global.
É uma instituição única estabelecida através de parcerias profundas com membros bastante diversos; essa rede pode ajudar a resolver alguns dos principais desafios que enfrentamos atualmente e no futuro. Já demonstrou a sua força em questões como a mudança climática e a defesa do sistema internacional baseado em regras.
A Reunião dos Chefes de Governo da Commonwealth (CHOGM, em Inglês), realizada em Abril, teve como tema “Rumo a um Futuro Comum” e teve quatro temas principais: construir um futuro mais seguro, próspero, sustentável e justo – e todas estas áreas são relevantes para Angola.

Que oportunidades pode Angola esperar caso se concretize a adesão?
A Commonwealth oferece inúmeras oportunidades para melhorar as capacidades de cada país através da partilha de melhores práticas. Autoridades de Comércio da Commonwealth reuniram-se recentemente em Londres para discutir em mais detalhes os assuntos da Reunião de Chefes de Governo da Commonwealth, realizada em Abril, com foco no apoio ao sistema multilateral de comércio e à agenda de conectividade, sejam eles digitais, de negócios a negócios ou físicos. Tudo isso poderia ser o catalisador de uma economia menos dependente de bens importados.

O aumento da exportação de recursos não minerais dá sinais claros de os países estarem cada vez mais a criar alternativas às suas economias, deixando de fazê-lo com um único recurso como por exemplo o petróleo. E a Commonwealth tem dado esta oportunidade aos países membros de impulsionarem a importação e exportação?
Um Fórum de Negócios foi realizado em Londres entre os Chefes de Governo da Commonwealth. O encontro reuniu representantes seniores de empresas e governos de toda a Commonwealth. Não foi uma feira como tal, mas foi um excelente fórum para fazer networking e compartilhar ideias.

O acesso à divisa, aos mercados internacionais, sobretudo os da comunidade britânica, constituem uma facilidade para o crescimento dos países membros?
A Commonwealth não fornece, tão pouco facilita o acesso à moeda estrangeira para o crescimento dos países membros. O acesso à moeda está reservado aos bancos assim como as instituições financeiras.

A interacção com os membros da Commonwealth tem permitido o reforço da cooperação empresarial e comercial?
A Commonwealth tem um rendimento nacional bruto combinado de USD 10,7 triliões e representa um quinto do comércio global. O comércio intra-comunidade é estimado em mais de USD 680 bilhões, mas com algumas das economias que mais crescem no mundo, o potencial para o futuro da Commonwealth é vasto.
A Commonwealth é um excelente fórum para fazer networking e partilhar ideias. É um fórum para os membros de todo o mundo se conhecerem quando isso talvez não fosse possível de outra forma. Por exemplo, colegas da Commonwealth do Caribe e do Pacífico podem encontrar suas contrapartes de África e Ásia e vice-versa.

A capacitação em áreas como política comercial é prioridade”

Quais os benefícios e facilidades comerciais dados aos países-membros e a harmonização das suas políticas públicas?
A capacitação em áreas como política comercial é uma das principais prioridades da Commonwealth. Por exemplo, para ajudar os estados menores da Commonwealth, 31 dos quais são classificados como pequenos estados, a Commonwealth tem um escritório em Genebra com assessores comerciais, aos quais o Reino Unido se comprometeu a fortalecer durante a última reunião de Chefes de Governo da Commonwealth (CHOGM). Seu principal objetivo é apoiar os Estados membros a compreender e mantê-los informados sobre as discussões na Organização Mundial do Comércio.

Tira-se alguma vantagem pelo facto de os países da comunidade britânica responderem por cerca de 30 por cento do comércio mundial?
Na comunidade todos somos iguais. Ela certeza absoluta que dá um futuro mais próspero foi um dos principais temas da reunião da Commonwealth deste ano. Ao final da reunião, e pela primeira vez, os líderes tomaram a decisão unânime de combater o proteccionismo.
Eles também lançaram várias iniciativas para derrubar barreiras ao comércio por meio da promoção de padrões comuns em toda a Commonwealth, para resolver barreiras sistemáticas à participação plena e igualitária da mulher na economia, e para impulsionar o emprego dos jovens por meio de um novo programa de estágios da Commonwealth.

Como avalia as trocas comerciais entre os países do bloco britânico e África?
Em primeiro lugar importa explicar que não é um bloco Britânico. A Comunidade não força a integração de membros, mais sim os ajuda, ajuda em termos de aproximação política, cultural, que vai contribuir na melhoria das relações entre si, e compreender como fazer o comercio juntos.

As cimeiras constituem uma oportunidade para se expor as potencialidades e atrair investimentos?
Absolutamente. Na última reunião dos chefes de Estados membros, no total de 46 países que participaram do certame, denominado (CHOGM), estes 46 chefes de governo visitaram o Reino Unido e, para muitos, o comércio e os investimentos foram os principais pontos da agenda. Na cúpula deste ano, um Fórum de Negócios foi uma das principais atracões. Isso atraiu delegados, CEOs e empresários de toda a Commonwealth.

Comércio
e investimento

A trabalhar em conjunto, pode-se alcançar resultados reais?

O presidente sul-africano Ramaphosa foi o orador principal. Ficou claro pelo número de Ministros do Comércio presentes durante a semana que eles viram isso como uma grande oportunidade para discutir comércio e investimento.
No ano passado, o Secretariado da Commonwealth ajudou a organizar a primeira Reunião dos Ministros do Comércio da Commonwealth, que moldou as discussões dos Chefes de Governo. Uma nova reunião de altos funcionários da Commonwealth decorre em Londres nesta semana. Essas reuniões regulares indicam o quão importante a Commonwealth vê a agenda comercial e como, trabalhando em conjunto, a Commonwealth pode alcançar resultados reais.

Acredita que as relações Intra Commonwealth ajudam no ambiente para o crescimento económico?
A Commonwealth é uma família de nações que é capaz de discutir áreas de interesse mútuo. Essas discussões ajudam a construir a confiança e melhorar o ambiente para o crescimento económico. Linguagem compartilhada, sistemas legais e links estão no cerne da vantagem da Commonwealth, que avaliamos e que equivale a 19 por cento no comércio entre os membros.

Angola tem muito a oferecer, no seu ponto de vista?
A importância de garantir um futuro seguro, próspero e sustentável ajudaria a contribuir para os pontos de atracção únicos que Angola tem a oferecer. Só recentemente cheguei ao país, mas ouvi dizer que Angola tem muito a oferecer e quero explorar a maravilhosa paisagem oferecida desde as montanhas do interior até as praias imaculadas e as grandes ondas do Atlântico. Se isso me interessar certeza absoluta que vai impulsionar os britânicos.

Disponibilizaram-se bolsas e só foram 8 estudantes

Qual é o volume das transacções comerciais entre Angola e Inglaterra nos últimos dois anos?
Em 2016, as importações de Angola para o Reino Unido rondaram os 566 milhões de dólares norte Americanos. E o volume das importações angolanas do Reino Unido rondaram os 957 milhões de dólares nos últimos dois anos. E augura melhoria na balança comercial. Poderia ser mais, no entanto, acreditamos, os indicadores vão melhorar. Os produtos que Inglaterra importa de Angola são maioritariamente o petróleo e minerais.

Quais são os benefícios que Angola pode experimentar ao integrar a esta comunidade?
Não existe uma lista de benefícios pre-defininidos que Angola vai receber à partida. No entanto, a Commonwealth tem vários programas que, se implementados com rigor, os membros de cada país, que a integra a comunidade, possam ter resultados satifatórios, que contribuam, de forma directa e indirecta, para a economia do país. Por outro, as próprias relações, entre os diferentes membros da comunidade, constituem um benefício.

A companhia de Bandeira Britânica, no caso British Airways, anunciou recentemente a suspensão de voos para Luanda. Quer comentar ?
Quanto àBritish Airways a garantia que temos é que a empresa vai fazer uma suspensão temporária durante o verão. E logo terminado esse período vai reavaliar a situação e fazer um levantamento sobre a possibilidade de retomar os voos para Angola. Podemos assegurar a continuidade dos serviços na linha Angola/Inglaterra. Tudo dependerá de capacidade de atrair passageiros e cargas suficientes, mas continuamos optimistas de que o serviço possa ser retomado.

Que avaliação faz de Angola?
Angola é um país com uma população muito jovem e com imensas potencialidades. Pelo que precisam investir na juventude assim como nas mulheres. A Inglaterra cresceu com as microempresas, para darem lugar as grandes empresas e pensamos nós que se Angola seguir este caminho pode rapidamente impulsionar a sua economia e empoderar a população. Tudo isto aliado a língua inglesa.

Existe alguma possibilidade para uma eventual missão empresarial angolana para Reino Unido?
É um dos desafios que o meu pelouro espera concretizar. Estamos a trabalhar em estreita colaboração com a UKACC - Câmara de Comércio do Reino Unido-Angola para promover contactos comerciais. Eles que organizaram um fórum de negócios em Londres no ano passado.

O Reino Unido está interessado em criar uma linha crédito bonificado para Angola?
Este é um assunto para o os bancos comerciais britânicos, todavia, tudo depende do facto do ambiente de negócios em Angola ser mais transparente e seguro. A UKEF (Agencia de Exportação e Finanças do Reino Unido) esta disponível a apoiar projectos em Angola que envolvam empresas britanicas.

De que forma o Reino Unido participa na formação dos Angolanos?
O Reino Unido participa na formação de Angolanos através de bolsas denominas “Chevening” - que são bolsas atribuídas pelo Governo Britânico em conjunto com as empresas britânicas que operam no mercado angolano. No ano passado, foram disponibilizadas 13 vagas em bolsas de estudo Chevening para mestrado no Reino Unido, mas apenas 8 estudantes de Angola e São Tomé e Príncipe viajaram com a finalidade de concluírem o mestrado nas diferentes especialidades. E as bolsas “Ernest & Young - EY” não são financiadas pelo Governo Britânico. Contudo, ajudamos a divulgar o esquema de bolsas e a identificar candidatos.

Quais são os grandes desafios que Angola precisa resolver na sua óptica?
Apesar de pouco tempo em Angola, eu acredito que Angola é um país do futuro e o Governo tem uma visão ambiciosa e construtiva. No entanto, precisa trabalhar mais, sem medo de errar, tão pouco de tomar as decisões que podem impulsionar o crescimento económico político e social do país. A pequena indústria joga um papel preponderante na dinamização da economia. E para Angola não será diferente deve investir nas pequenas iniciativas.

Quem é a nova embaixadora britânica em angola?  

Nome: Jessica Mary Hand
Filiação: Pai – William, professor e director; a mãe - Mary, dona de casa
Naturalidade: Barry, País de Gales
Filhos: 3 (todos adultos)
Sonhos: Promover um impacto positivo na vida das pessoas onde e quando puder
Formação: Curso de Mestrado em Relações Internacionais com Francês na Universidade de Aberdeen
Tempos livres: Explorar e conhecer culturas, hábitos e coisas diferentes
Hobbies: Ouvir musica e dançar; cozinhar e comer; escrever
Férias: Visitar amigos e família no Reino Unido e nos Estados Unidos da América. Conhecer novos lugares e enquanto estiver em Angola, certamente vai explorar bem a região.
Desporto: Fazer Ténis e caminhadas
Missões diplomáticas realizadas: Dakar, Senegal; Minsk - Bielorrússia; Brunssum - Holanda; Moscovo - Rússia; Istambul - Turquia.
Último livro: “As Armas de Agosto” de Barbara Tuchman Sed modiatqui inctoriorum dolupta quaeribus doluptatem.
Filme: “A hora mais negra” o actor Gary Oldman esta espetacular como Winston Churchill.
Prato preferido em Angola: Calulu com gindungo
Perfume: Yvresse de Yves Saint Laurent – E da natureza gosto do cheiro das flores como Rosas, Jasmim e Madressilva