Entrevista

“O desafio é potenciar o jovem para desenvolver habilidades”

O continente africano está a caminhar rumo a um futuro mais próspero em que todos os seus cidadãos (jovens, velhos, homens, mulheres, populações rurais ou urbanas) de todos os extractos sejam capacitados a concretizar os planos potenciais de negócios. Viver com satisfação e orgulho no seu continente e observar um futuro com populações saudáveis e bem instruídas é outro objectivo que desafia as governações. Há também dentro desta perspectiva à busca pela robustez e desenvolvimento das economias, pilares que a representante do Fundo das nações Unidas para a População em Angola elegeu na abordagem que fez com o Jornal de Economia & Finanças.

O que se pretende com o lançamento do relatório sobre “Dividendo demográfico, através do investimento na Juventude a nível de África”?

Em Luanda, lançamos ontem, 08 de Junho, este tema da União Africana para 2017, que trata sobre o dividendo demográfico, através do investimento na juventude. Este tema já fora lançado em Janeiro na Cimeira Africana. O compromisso assumido pelos governos de África é que a juventude no continente representa um grande potencial e para melhor aproveitamento faz-se necessário um investimento muito concreto em áreas-chave como educação, saúde e sectores que gerem auto-emprego. Sabemos que a nível mundial a população conta hoje com mais de mil milhões de jovens e que um aproveitamento económico é possível ser feito com a mudança da estrutura da população. Portanto, os países africanos comprometeram-se primeiro com o lançamento do tema, mas também com as acções chaves, para que esse dividendo demográfico possa acontecer em cada um desses países. E esse conjunto de acções está incluído no que se chama o “roteiro para o cumprimento do dividendo demográfico, através deste aproveitamento da juventude”.

Como parceiro do Governo, como avalia o engajamento das suas políticas viradas para este segmento?

Angola, neste sentido, lançou o roteiro nacional para que cada um destes pilares identificados pelo tema possa ter o desenvolvimento das acções-chave, sendo que o emprego, o empreendedorismo e a necessidade de promover a inovação e a criatividade dos jovens, para que cada vez mais busquem o auto-emprego, surjam no topo da hierarquia de implementação dessa estratégia africana. Educação e desenvolvimento de habilidades, assegurar que jovens do sexo masculino e feminino possam não só ingressar para o ensino, mas concluírem, principalmente para as meninas jovens. Esta visão deve-se ao facto de muitas vezes as meninas jovens não terminarem a sua formação devido a gravidez indesejada. Portanto, temos que assegurar que a formação seja completa e que além disso os jovens possam desenvolver habilidades que vão servir para a sua fase adulta. A saúde e o bem estar são outros vectores dessa estratégia de desenvolvimento, pois para se ter uma população economicamente produtiva temos que assegurar que a população tenha garantido os cuidados de saúde. Já outro pilar é o da participação dos jovens na governação, isto é, precisamos de ver nos jovens cada vez mais potencial que requer investimentos e auto-estima. Só depois disso eles poderão traduzir esse desenvolvimento e nisto a paz e a segurança que todos os estados africanos almejam.

Está a dizer que as políticas viradas à juventude estão a ser bem conduzidas?

O nosso olho clínico como parceiros é positivo. Angola, neste momento, é o segundo país africano de expressão portuguesa que lança este tema de União Africana. Cabo Verde foi o primeiro. Então, vemos isso como uma direcção estratégica muito importante, neste sentido de maior valorização da juventude. Temos visto vários momentos que são abertos para o governo às outras entidades interagirem com a juventude e perceberem às suas necessidades e incluírem essas também em forma de programas e política. Além disso, tem um conjunto de acções que têm estado a ser desenvolvidas, por exemplo, assumir o compromisso africano para a educação sexual abrangente, a estratégia nacional para que adolescentes jovens possam beneficiar, cada vez mais, de acções no sector da saúde, o programa “Projovem” que olha mesmo para questões de empreendedorismo, colocando o crédito disponível aos jovens, são exemplos. Todo o investimento que tem sido feito na área de educação e agora a atenção mais voltada para a qualidade da formação e olhando até para os passos mais recentes que é este interesse que temos estado a notar em Angola pela participação nos mecanismos regionais e globais.
Portanto, a nível da União Africana e das Nações Unidas todos esses caminhos que a própria juventude pode e deve explorar ou participar para sentirmos também mais angolanos presentes nestes mecanismos regionais e globais. Por isso, o nosso olhar é positivo. Claro que sempre clamamos por mais investimentos na área da juventude, que se traduzam numa definição de uma política de planos de orçamento dedicado a esta dinâmica também e à busca de cada vez mais de novos programas mais inovadores, para resposta daquilo que são as oportunidades de os jovens pelo uso das tecnologias de ponta melhorarem o seu poder de comunicar, um instrumento que já é utilizado por muitos países aqui na região e gostaríamos de ver isso mais avançado em Angola.

Estas preocupações estão também reflectidas no Plano Nacional da Juventude que o Governo concebeu?

Claramente. Fazer referência à política já existente como o Plano Nacional da Juventude 2014-2017, no qual estamos a apoiar o governo já nesta fase para desenvolver os próximos planos de desenvolvimento nacional também, uma vez considerarmos essa uma via séria de assegurar que estas recomendações possam já estar a ser inseridas também nestes planos que estão a ser desenhados e, claramente, orientarmos os nossos olhares aos pilares definidos e que têm acções já acordadas a nível regional. A adopção e acompanhamento dos pilares de estratégias definidos visam garantir que as recomendações, acções concretas que lá estão, possam ser adaptadas ao contexto nacional. Portanto, há que se olhar para a educação, a saúde, o empreendedorismo e a inovação na juventude e promover cada vez mais espaços para participação e liderança da juventude.

Que avaliação faz sobre a valorização do género nas políticas angolanas e o que deve ser feito para que o jovem deixe de esperar apenas por um emprego criado pelo Estado?

Com destaque sempre na jovem mulher, porque a igualdade de género também é uma bandeira que temos que apresentar neste caso. Sabemos que, apesar de a maior parte da população ser do sexo feminino, muitas vezes as oportunidades para elas não são notáveis em todos os campos e gostaríamos que fossem. Há um défice de trabalho na juventude. Por isso, falava olhando para frente, pois vemos estas tendências a nível regional e global. Não é possível continuar com aquela visão que tínhamos no passado de um jovem que é formado encontrar o seu primeiro emprego e aí fica a trabalhar por toda vida e eventualmente se reforma nessa entidade. Hoje, os padrões são diferentes. Os jovens têm de ter muitas habilidades para poderem evoluir sem efeitos adversos de um emprego para o outro. Muitos jovens também se tornam eles próprios empreendedores. Portanto não necessariamente aquela visão de ter alguém e trabalhar para um salário pago por uma entidade, mas sendo ele que gere o seu próprio emprego e potencialmente outros jovens.

Pode explicar melhor o que pretende transmitir com essa ideia?

Por exemplo, os caminhos que estão a ser trilhados agora, menciono o “Projovem” e a questão da formação que é muito importante. Acredito que à medida que formos registando mais avanços numa formação qualificada, esta será uma ferramenta importante. Para isso, há que se considerar a troca de experiências a nível da cooperação um passo bastante importante. Isto significa também aprender dos países à sua volta sobre outras dinâmicas que estão a ser tomadas para facilitar estes empregos e que a geração de rendas para jovens se valorize e também ajuste-se à realidade angolana. Acho este outro caminho que, certamente, vale a pena.

Uma população com muitos problemas de saúde não consegue uma economia robusta. Que apoio pode ser dado pela Fnuap ao executivo angolano?

Como deve saber, o nosso mandato como Fnuap é especialmente na área de saúde sexual e reprodutiva. Temos a visão do acesso aos direitos e serviços de saúde, para nos assegurarmos que se cumpram as exigências universais nesse campo. Em Angola, a mortalidade materna ainda é elevada. Certamente, trabalharemos juntos para fazer com que menos mães percam a vida gerando vida. É também um tema importante fazer com que os meios para redução da gravidez indesejada chegue às famílias e aqui falamos como primeira medida assegurar que os pré-adolescentes adiem no máximo possível o início da sua primeira relação sexual e para que aqueles que o façam, fazem-no de uma forma informada. Portanto, fazer chegar a informação sobre este tema aos adolescentes e às jovens é muito importante e assegurar também que os serviços estejam disponíveis para essas pessoas que dele precisam é outra. A visão é permitir que aqueles que já iniciaram a sua sexualidade possam ter acesso aos serviços com pessoas qualificadas, que providenciem informação e, mais do que isso, meios para que as pessoas possam
planificar as suas famílias.

O dividendo demográfico é imprescindível para uma economia?

O que nós vimos com a explicação que a UA nos traz sobre este aproveitamento do dividendo demográfico é que ele não é automático. Não basta ter uma população jovem acentuada, pois é necessário que investimentos certos sejam feitos. É possível realizar o dividendo demográfico. Com este lançamento, há uma indicação clara que o governo angolano seguirá este caminho, que é de optar em fazer investimentos, visando o asseguramento das populações jovens que são hoje a maioria, e que possa graduar-se para uma população adulta qualificada que aumenta valor ao desenvolvimento
económico do seu país.