Entrevista

Nós não temos ainda quantificados os recursos minerais em Angola”

Os cálculos para determinar as resevas minerais provadas e não provadas em Angola devem ser aprimorados para a definição exacta das quantidades de recursos existentes no subsolo angolano, segundo defende o director Nacional dos Recursos Minerais do Ministério dos Recursos Minerais e Petróleos, André Buta Neto.

Os cálculos para determinar as resevas minerais provadas e não provadas em Angola devem ser aprimorados para a definição exacta das quantidades de recursos existentes no subsolo angolano, segundo defende o director Nacional dos Recursos Minerais do Ministério dos Recursos Minerais e Petróleos, André Buta Neto.O responsável, que concedeu uma extensa entrevista à margem das jornadas técnico-científicas sobre metodologia de classificação e cálculos de reservas dos recursos minerais sólidos e de hidrocarbonetos, disse que o padrão adoptado a nível internacional deve ser seguido por Angola, a fim de se criar um único modelo capaz de definir os procedimentos de análise e classificação dos recursos a explorar.

O Instituto Nacional de Petróleos do Sumbe acaba de albergar as primeiras jornadas técnico-científicas sobre metodologia de classificação e cálculo de reservas dos recursos minerais sólidos e de hidrocarbonetos. Por que razão promoveu-se essa formação dirigida aos técnicos do sector?
O objectivo primário é a uniformização dos pontos de classificação e encontrar fórmulas de como os relatórios devem ser apresentados, a fim de podermos entender e avaliar quando uma empresa apresenta os seus projectos, por um lado, e por outro lado, o acompanhamento que deve ser feito.

E que balanço lhe apraz fazer durante os cinco dias em que decorreu a formação?
O balanço foi positivo, pois as jornadas decorreram conforme programado pela organização em que coordenei, uma vez que houve uma interacção maior por parte dos participantes. Esperamos que com os conhecimentos adquiridos possam ajudar as suas instituições onde estão enquadrados a melhorarem os métodos de classificação e cálculo de reservas. No fim das jornadas, sugerimos algumas metodologias que devem ser usadas por empresas angolanas do sector.

Que experiência deve-se buscar para que os modelos possam ser adoptados no sector mineral em Angola?
A formação permitiu avaliar as principais classificações usadas no mundo, e isso vai fazer com que Angola possa escolher aquelas que se adaptem à nossa realidade.

De que forma tem sido realizado o trabalho das metodologias e análise das reservas em Angola?
É complicado porque, por exemplo, Catoca utiliza a metodologia russa. A nível daEndiama, temos algumas operadoras que aplicam o sistema sul-africano. As associadas da Ferrangol muitas delas estão a usar a metodologia chinesa, e qualquer uma delas que investem em Angola aplicam o sistema vigente nos seus respectivos países, ou seja, a maioria apresenta os projectos já empregues as metodologias dos países de origem.
E as operadoras nacionais não têm outra solução senão acompanhar as diferentes metodologias das companhias estrangeiras. Com essa formação, estaremos em condições para usar os métodos que nos permitam, que por um lado as operadoras apresentem não só as metodologias, mas também os relatórios de acordo com a metodologia. Queremos falar todos a mesma linguagem.

E no sector petrolífero?

Será a mesma coisa embora as normas estejam mais facilitadas tendo em conta que existe um centro que valida. Mesmo assim, a nível da Sonangol depara-se ainda com dificuldades de padronização, pois a forma como se define as reservas não são as mesmas, o que implica dizer que teremos que rever as metodologias.

Reservas são determinadas
por métodos padronizados

Por que razão vive-se ainda a falta de entrosamento entre a informação sobre reservas provadas em Angola e as não provadas?
Tudo passa por difinição de critérios rígidos para se determinar as reservas. Eu acho que depois dessa formação, nós usaremos os critérios únicos de modo a que qualquer um de nós possa falar com exactidão aquilo a que estamos a nos referir.

Então, as reservas provadas em Angola ainda carecem de algum estudo?
O problema não está no estudo, mas sim nas metodologias usadas para se poder calcular as reservas quer provadas quer não provadas. Os critérios a adoptar devem ser unânimes.

Então quer dizer que os métodos usados são calculados de forma aleatória?
Não que seja de forma aleatória, mas existem normas internacionais. É necessário que todos usem os mesmos critérios ou padrões. Quando definirmos as nossas reservas é que estaremos a obedecer a um único padrão estandardizado que toda a indústria mineral terá de utilizar.

Qual é o método mais usual a nível de outros países?
Os outros países já têm as coisas bem definidas, no caso da África do Sul e do Brasil, só para citar estes. Angola ainda não tem um padrão definido, pois nós não sabíamos concretamente que métodos exigiríamos às empresas, sobretudo as de prestação de serviços.
No caso da mineração, o sistema JORC (usado na Austrália) e NI 43-101 (Canadá) são os mais universais.

De que forma olha para o processo de métodos de exploração de recursos minerais?
Nesse momento, há uma orientação do Presidente da República para a diversificação da economia nacional. A nível da mineraçao só falamos de dia

Valorização dos minérios é a meta

mantes e a nível de hidrocarbonetos só de petróleo. Com a diversificação, implica que a nível de hidrocabonetos possamos dar maior aproveitamento à exploração do gás e na mineração fazer a prospecão para além dos diamantes. Em 2019 começaremos a intensificar a exploração fora dos diamentes.

Qual é o potencial de recursos minerais existentes no país?
Voltamos à abordagem inicial sobre as reservas minerais. Tudo depende do sistema a adoptar para determinar a quantificação dos recursos, pois não basta apenas exportar quantidades de minerais.
Não há ainda a existência de recursos minerais quantificados, pois, o trabalho que nos vai permitir aferir isso com cabeça, tronco e membro ainda não está feito.

Implica dizer que o país “estagnou” em termos de avaliação do potencial de recursos?
Não diria que o país regrediu ou estagnou, mas usa-se de forma errada o conceito. A ideia segundo a qual Angola é potencialmente rica é totalmente errada. O país é rico em minerais e não em recursos minerais porque quando se fala em recursos minerais deve-se quantificar e esse trabalho ainda não está concluído.

Qual é a diferença entre minerais e recursos minerais?
Uma coisa é saber o que tenho em termos de quantidade e se essa quantidade é economicamente viável a sua exploração, a outra é ter-se como provado a nível do território nacional. Só para ter uma ideia, por exemplo, eu posso ter uma mineração de ferro e se for inferior a 60 por cento em termos de viabilidade económica nao é viável, porque tem que ter um um teor para a comerciazação. É necessário que aquilo que se encontre ou se avalie, eu consiga dizer que tenho potencial e possa vender no mercado internacional acima dos custos de produção. Quando nós falamos de potencial estamos a nos referir apenas em alguns minerais que são importantes. Temos que fazer estudos quantificados.

Intenção de investidores estrangeiros tem elevado

Nos últimos anos nota-se um aumento do volume de pedidos de investidores interessados no sector de diamantes?
Sim, neste momento estamos à espera que ainda este ano várias empresas estrangeiras apresentem os seus projectos para a celebração de contratos de exploração de diamantes e outros recursos como minério de ferro, de fosfatos e de ouro, fruto de uma campanha que o ministro dos Recursos Minerais e Petróleos promoveu recentemente, à qual aguardamos que as intenções sejam concretizadas. Nós queremos que haja o estabelecimento de parcerias vantajosas e mais adequadas aos desafios actuais.

Em média quantos pedidos recebem?
Não lhe posso quantificar, mas temos estado a receber várias solicitações. E estamos expectantes que as grandes companhias mundiais venham a Angola para ajudar no crescimento sector, pois uma coisa é intenção outra é a concretização. Não basta manifestar o interesse sem pô-lo em prática, mas estou convicto de que teremos bons resultados em 2019. Ainda assim, até finais de 2018, esperamos que 10 ou 20 empresas sejam licenciadas para poderem desenvolver a actividade mineira no país com certa segurança. Queremos assegurar a continuidade do programa de aumento da produção em toda a cadeia extractiva.

Quanto são exigidos para se efectuar investimentos no sector da mineração?
Os investimentos vão de 5 a 50 milhões de dólares.

Isso para os grandes investidores e para os pequenos investidores?
Os investimentos têm custos que rondam entre 2 e 3 milhões de dólares.

Homem das Engenharias 

Nome completo: André Francisco Buta Neto

Filiação: Diogo André Francisco Buta e Feliciana João Clemente da Rosa

Data de Nascimento: 03 de Dezembro de 1961

Formação Técnico-Profissional:
Doutorado em Ciências da Terra na Universidade de Bourgogne França, na escola Buffon, e mestre em Geologia em Geosistemas, Evolução e Ambiente na Universidade de Bourgogne – França. Fez o bacharelato e Licenciatura em Geologia pela Universidade Agostinho Neto- Faculdade de Ciências (Luanda).

Carreira técnico-profissional:
Actualmente, exerce as funções de Director Nacional dos Recursos Minerais e é professor associado em regime de colaboração na UAN - Faculdade de Ciências, Departamento de Geologia.

Cargos:
Já desempenhou as funções de Director Nacional de Geologia e Secretário Executivo do PLANAGEO (2013-2017) ; Consultor do Secretário de Estado para a Geologia e Minas (2011-2012); Consultor do Ex-ministro da Geologia e Minas, Prof. Mankenda Ambroise 2009-2011. Além disso, foi director do Departamento de Geologia na UAN e regente das cadeiras de Técnicas Estratigráficas, Análise de Bacias, Informática Aplicada a Geologia e Geologia de Campo, com a categoria de Professor Auxiliar (2006-2009) e técnico Médio de Hidrogeologia na Empresa Nacional de Águas Subterrâneas “Hidromina U.E.E - Instituto Geológico de Angola (IGEO) (1986-2002).