Entrevista

Negócios feitos em casa geram receitas às famílias

Apesar das dificuldades que as famílias estão a atravessar fruto da subida de preços dos bens
muitas senhoras criaram o seu próprio negócio em casa para sustentar os seus agregados

Iniciar um negócio nos tempos que correm é um exercício bastante desafiador, a julgar pela situação económica e financeira que o mundo vive, mas lá diz o velho ditado, que é em tempos de crise que se fazem os bons empreendedores.
É nesse cenário desafiador, com os mercados sem liquidez e desemprego elevado, que iniciar um negócio próprio pode ser de grande benefício, pois aumenta a renda familiar, e pode até criar mais emprego para outros agregados.
Mas o facto é que, criar um negócio envolve sempre custos. Uma das formas de reduzir os custos é fazer um negócio dentro da sua própria casa.
A reportagem do JE percorreu vários bairros de Luanda para conferir de perto o dia-a-dia dos fazedores de negócio em casa. Como conseguem se desdobrar nesses tempos de crise.
Luzia Salomão, por exemplo, é solteira, já aposentada, mas, mesmo antes de deixar de trabalhar já vendia banana assada e bombó com ginguba para garantir o sustento da sua família.
“Comecei a vender em 1979. Na altura, trabalhava na Empresa Nacional de Seguros de Angola (Ensa), mas o meu salário não era suficiente para garantir o sustento da família”, disse a vendedora, afirmando que hoje, tem dois filhos numa das faculdades privadas graças ao seu negócio.
Luzia Salomão disse que antes da crise o seu negócio chegava a render entre 15 a 20 mil kwanzas/dia, mas hoje, há vezes que nem sete mil kwanzas consegue ter.
Já a tia Maria Luísa dos Santos, como é respeitosamente conhecida no bairro dos Congolenses, viúva de 78 anos de idade e reformada da educação, é vendedora de kissângua desde 1977.
Conta que a kissângua pode ser feita de várias maneiras, mas ela faz com milho germinado, conforme aprendeu com a sua madrinha já falecida.
À semelhança da Luzia Salomão, tia Luísa também começou a vender porque o salário que auferia na altura, não era suficiente para suprir as
necessidades da família.
Hoje, porém, já velhinha, tia Luísa, sempre com um sorriso nos lábios, confessa que já não tem a mesma força de antes, e mesmo tendo o apoio incondicional dos cinco filhos, continua a vender por estar acostumada à sua independência financeira.
“Como o dinheiro da reforma não chega, hoje vendo mais por encomenda para os eventos, e também aqui mesmo na porta. Mas apesar de ser idosa, não consigo depender dos meus filhos até para comprar um pão”, sustentou a tia Luísa.

Diversificação de negócios Outra vendedora é a Joana de Fátima, moradora no bairro Nelito Soares, há vinte anos. Disse que vender sempre foi a sua opção. Ela conta que hoje, a sua casa está transformada numa kitanda, onde tem de tudo um pouco, como gelado e sumo de múkua , magoga (pão com frango frito, salada e molhos), e todo tipo de gasosa nacional e cuca em garrafa.
Joana de Fátima, também solteira queixa-se igualmente da crise e afirma que agora está mais difícil, pois já nem consegue “selar” os dez mil kwanzas diários que fazia antes. “Mas a vida é mesmo assim, e não vamos desistir de lutar”. Disse.
“Os meus filhos todos foram criados com o que sai da venda deste negócio. Hoje, o meu primeiro filho tem 20 anos e já está a fazer faculdade. Também não posso dizer que vivo bem, mas graças a Deus, nunca faltou comida em casa para alimentar os meus filhos”, realçou.
A vendedora que sonha ter um dia o seu próprio restaurante, por se considerar uma cozinheira de “mãos cheias”, disse que também já vendeu mufete e caldos em sua casa.
Outra cozinheira é Márcia Famorosa, também solteira, moradora no bairro da Ingombota, mais propriamente no Zé Pirão. Mesmo vivendo ainda com seus pais, Márcia reservou um espaço no seu quintal para servir matabichos e almoços.
Segundo conta, o seu negócio começou primeiro com uma roulotte em frente a casa dela . Mesmo ainda na roulotte os clientes já solicitavam comida mais completa para o almoço, foi aí então que ela decidiu começar a servir mesmo dentro do seu quintal.
A comida no pequeno sítio da Márcia, varia de 500 a 1.200 kwanzas, e por dia chega a facturar cerca 20 a 30 mil kwanzas.
“Gosto do que faço, porque sou apaixonada pela culinária. Não é um negócio que lucra muito, mas eu hoje, não me vejo a trabalhar noutro segmento de mercado”. confessou.