Entrevista

Inflação vai fechar o ano entre os 17 e 19 por cento

O gestor bancário e também ele docente universitário dos cursos de economia, Jorge leão Peres, entende que face a este cenário, Angola colocou-se num cenário aberto de grande fragilidade em matéria de divisas.

O gestor bancário e também ele docente universitário dos cursos de economia, Jorge leão Peres, entende que face a este cenário, Angola colocou-se num cenário aberto de grande fragilidade em matéria de divisas.

O que seria recomendável como previsão deste indicador no exercício económico de 2019?
Se observados os níveis mensais de 1,2%, conforme verificado nos meses de Abril a Agosto de 2018, para os restantes 4 meses, a inflação se situará em torno dos 17e 19 %, o que vai traduzir um esforço no controlo da inflação. Para 2019, os esforços devem ser direccionados para se alcançar uma inflação acumulada no limiar de um dígito, e para alcançar tal desiderato a sintonia fina entre a política monetária e a política fiscal é crucial, buscando permanentemente o equilíbrio entre a política monetária tendencialmente restritiva e a política fiscal/orçamental tendencialmente despesista É importante, entretanto, destacar que o controlo da inflação, ou seja, o asseguramento da estabilidade de preços (objectivo final da política monetária), não deve constituir um fim em si mesmo, antes deve criar as premissas para o crescimento e desenvolvimento económico, que leva à redução do desemprego, e aí sim este crescimento económico se reflecte na melhoria das condições sociais da população.

Também tem preocupações com os níveis de transparência do mercado cambial? Que soluções podem ser aportadas?
A transparência não é apenas necessária para o mercado cambial, mas sim para o mercado em todos os segmentos, como forma de mitigação dos riscos inerentes aos mercados. E esta premissa só é observada quando a economia opera em sistema de concorrência perfeita, o que não ocorria em pleno, pela presença de alguns grupos com posição dominante e de tráfico de influência junto dos entes públicos.

Como fazer do crédito bancário um vector para o desenvolvimento do sector primário e de geração de emprego ao nível nacional?
O crédito bancário constitui a principal ferramenta de alavancagem das empresas, daí a importância dos bancos no processo de conversão das poupanças em investimento. Todavia, a alocação do crédito às empresas não se tem revelado o mais eficiente, e basta olhar para o crédito malparado cifrado em cerca de20%, segundo estudos da Deloitte, como média do sistema bancário, o que não deixa de ser preocupante, porque em alguns bancos esta cifra chega a atingir os 30%. De entre as principais razões apontadas pelos endividados é de que são, por seu lado, credores do Estado, por fornecimento de bens e serviços pendentes de pagamentos, alguns há vários anos, o que os incapacita de honrarem os seus compromissos com a Banca. Por outro lado, apontam também a precariedade das infraestruturas, casos de fornecimento de água e energia e vias de acesso, que vem onerando os custos de produção. Portanto, a criação de infraestruturas e o desengajamento gradual do Estado no cenário económico poderá abrir espaço para o tecido empresarial se expandir. Outrossim, a simplificação dos procedimentos notariais e judiciais, bem como a adopção de boas práticas de governação corporativa e controlo interno, poderão melhorar o ambiente de negócio e por conseguinte o aumento da confiança ao empresariado por parte do sistema bancário.

Diferencial de USD 4 mil milhões foi usado na dívida e PIP. Como reequacionar a nossa dívida pública em 2019?
De acordo com os dados do Ministério das Finanças a dívida externa está computada em 70 mil milhões de USD e este órgão Ministerial garante que o Programa de Estabilização Macroeconómica vai reduzir o peso da dívida em 2019. Na actual estrutura orçamental cerca de 40% das receitas destina-se a liquidação de compromissos financeiros (capital e juros de dívida). A redução deste percentual depende do nível de arrecadação, que face as boas perspectivas do mercado do crude, os níveis de arrecadação conhecerão melhorias significativas, e portanto, há espaço para reequacionar a dívida pública em 2019, libertando assim recursos para os Programas de Investimento Público (PIP).

As taxas de crescimento económico para 2019 permitem antever um boom com reflexo na vida das famílias?
Depois de dois anos de aparente recessão económica, julgamos que o país apresenta condições para o crescimento económico, que passa pelo relançamento da actividade económica, que repito, em um cenário de maior transparência e abertura, pois, a melhoria do ambiente de negócios facilita o crescimento económico.

Que medidas de política tributária/fiscal mais se adequam ao momento?
Mais do que eleger a melhor política fiscal o crucial é a sintonia fina que deve existir entre a política fiscal e a política monetária. Quanto à política tributária ela encerra um certo paradoxo, na medida em que o Estado ao tributar retira recursos da economia, e portanto, na medida da dimensão desta tributação os agentes económicos podem ficar com menos recursos para os seus investimentos, mas por seu lado o Estado necessita de recursos para realizar o seu objecto social, principalmente na criação de bens públicos. Normalmente, nestas situações recomenda-se o modelo fiscaldo tipo BBRR, alargando a base (Broadthe Base), e reduzindo as taxas aplicáveis (Reducethe Rate).