Entrevista

“Inclusão digital deve ser gradual”

O JE conversou com o professor e consultor em tecnologias de informação, Mbala Gaston, que abordou vários aspectos sobre a difusão da Internet em Angola, bem como a importância de ser implementada uma cadeira sobre computação no ensino primário.

O JE conversou com o professor e consultor em tecnologias de informação, Mbala Gaston, que abordou vários aspectos sobre a difusão da Internet em Angola, bem como a importância de ser implementada uma cadeira sobre computação no ensino primário.

Que apreciação faz sobre o processo de difusão do sinal de Internet no país?
Verifica-se uma melhoria quanto ao aspecto da difusão de Internet no país comparando com o passado. É verdade que ainda não satisfaz as nossas pretensões, mas com certeza Angola está a dar passos firmes neste sentido. Há um esforço por parte do Estado e dos seus parceiros, tanto para as empresas públicas, tanto para as privadas ligadas sobretudo às Tic no sentido de dotar o país a nível nacional de infra-estruturas com capacidade de dar maior fluidez para a demanda do mercado.

Ainda há muito a ser feito, mas pelo menos alguma coisa está a ser efectuada?
A cada dia que passa, há um novo usuário a ter acesso à Internet. Deve-se criar no seio juvenil mecanismos para a governance electrónica que vai permitir uma maior interação com o cidadão. Os esforços não devem ser só das empresas e do Estado, mas também do usuário singular ou colectivo. A nível da CPLP, devo dizer que não estamos tão mal assim, se comparado o número de acesso de usuários de Internet com o número de habitantes de cada país.

Há províncias que estão mais avançadas que outras no que se refere à disponibilidade de infra-estruturas que vão facilitar o acesso do sinal de internet?
Acho que não. Entendo que os investimentos feitos nas áreas de telecomunicação são qualificados em duas latitudes: Uma que tem a ver com o investimento público e outra com os investimentos privados. No que refere ao Estado, penso que os seus projectos são desenhados de uma forma equilibrada, sendo que o ponto assente é sempre a Nação. Já o privado é mais selectivo, ou seja, investe numa localidade devidamente estudada que lhe garanta um retorno, a não ser que o Estado crie incentivos que permitam que as empresas privadas possam levar as tecnologias às áreas recônditas do país, mas há esta conjugação de investimentos entre o público e o privado.

Até que ponto as políticas traçadas pelo Governo têm ajudado na expansão da Internet em Angola?
As políticas têm ajudado muito para este processo. É só ter em conta que há um projecto de fibra óptica que interligará as principais cidades e municípios do país, isso vai permitir aos operadores de telecomunicações que haja realmente uma maior fluidez de dados. Aqui, os serviços de internet poderão ser disponibilizados com alguma qualidade em todo o país. Também o projecto Angola On-line que visa implementar pontos de acesso grátis em banda larga em sítios urbanos. É um processo paulatino com investimentos públicos e privados que teve o seu início há dois anos no sentido de dotar o cidadão nacional com capacidade para poder aceder a esses serviços da forma mais acessível possível.

Acredita que a maioria dos utilizadores de Internet têm uma ideia clara do alcance e do poder desta plataforma digital?
Não. Penso que se deveria fazer uma maior divulgação na educação de como devem ser usadas estas ferramentas no sentido de trazer-se benefícios a mais pessoas, e também para as empresas que vêem nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) um dos meios para estarem mais próximas aos clientes e divulgar os seus serviços. A nível do Ministério da Educação é imprescindível introduzir uma disciplina de iniciação já no ensino primário, sobre como usar as Tic, bem como as plataformas digitais para que desta forma se tire maior proveito delas. As famílias, aquelas com algum poder económico que consigam comprar um computador, devem ajudar o Estado na educação tecnológica dos seus filhos porque quase tudo de errado que vimos acontecer nas plataformas digitais surge na comunicação com outrem.

Como acabar com a Infoexclusão?
É um mal que deve ser combatido. Nos dias de hoje, não podemos ter estudantes universitários que só na universidade começam a ter o primeiro contacto com o computador. Isso reduz a capacidade da afluência no domínio das Tic se comparado com estudantes estrangeiros que têm contacto com as Tic desde a iniciação. Desta forma, no mercado de emprego não estarão ao mesmo pé de igualdade se forem concorrer a uma vaga numa empresa. Ela não deve ser vista de forma individual, mas também de forma colectiva, pois é um processo e todos os sectores devem fazer a sua parte no sentido de reduzir os níveis de exclusão digital. Há empresas que precisam de ser digitalmente evoluídas e devem promover mais a inclusão dos seus funcionários, como as ONG, igrejas, entre outras instituições que trabalham com as populações. Estamos na era do conhecimento, e é preciso dotar as pessoas de competências tecnológicas: por exemplo devem aprender como funciona um computador, tablet do ponto de vista técnico, e comportamental quais são as normas que devem seguir para poderem usar as ferramentas que são disponíveis neste mundo digital.

No país existem cerca de 13 milhões de utilizadores de telemóveis e mais de 5 milhões de usuários de Internet para 30 milhões de habitantes. O número de usuários de Internet ainda é considerado baixo. Para si, que políticas devem ser traçadas para a inversão deste quadro?
A tendência é de os números de utilizadores de telemóveis aumentarem porque haverá novas operadoras no mercado. Desta forma, a concorrência nos serviços serámaior, o que de uma ou de outra forma, a tendência é de baixar o custo dos serviços. Sei que aAngola Telecom está licenciada a operar também em telefonia móvel e desta forma com certeza o número de usuários de internet também vai ultrapassar os 4 milhões de utilizadores brevemente.

Ao facilitar o acesso à Internet estaríamos a contribuir para o aumento do número de utilizadores?
Sim. Há várias acções que devem ser tomadas para elevar a taxa de penetração de internet. Não se deve pensar logo em aumentar o número sem primeiro saber quais os benefícios desta cifra e o que as pessoas vão buscar. É importante que à medida que o número de usuários vai aumentando as empresas acompanhem esta evolução disponibilizando mais serviços e produtos digitais para se criar grande apetência. O Estado e empresas ligadas ao provimento de internet devem fazer.
Por outro lado, Há a preocupação legítima dos operadores que reclamam o custo para disponibilizar os pacotes de serviços de internet, apesar de o esforço que o Estado tem feito de dotar o país de uma capacidade energética às necessidades, mas não chega a todas as partes do país.
Os custos operacionais dos operadores em determinada localidade onde os equipamentos são alimentados por painéis solares e geradores acabam por pesar no custo final do pacote dos serviços.

Projectos estruturantes 

Os serviços de Internet e de dados continuam condicionados devido ao Ango Sat?
Não. Devemos entender que são projectos estruturantes. Os investimentos de cabos de comunicação internacional, fibra óptica e AngoSat são projectos conjugados para melhoria das telecomunicações como um todo para o país. Eles cooperam para o mesmo objectivo que é levar dados de informação do ponto A ou B a uma maior velocidade possível de forma que a haja maior fluidez na informação, são como várias auto-estradas e vias expressas para melhor circulação sem congestionamento.

A propósito, quanto ao investimento em auto-estradas de comunicação que avanços Angola tem alcançado neste segmento?
Estamos num bom caminho. Os cabos submarinos que permitem a ligação internacional, as chamadas auto-estradas de comunicação a nível intercontinental de Internet como o cabo submarino que liga Angola à Europa e Angola à América. Este último, recentemente inaugurado, vai facilitar a comunicação do país com o exterior de Angola, concorrendo para a diminuição dos custos que os operadores tinham nas ligações internacionais. É um passo firme que se tem dado para que em breve trecho possamos beneficiar desses serviços com preços mais reduzidos e com maior qualidade.

Como avalia o projecto Angola On-line?
Acho positivo porque está a ter um impacto público esperado. Inicialmente previa que tivesse uma largura de banda suficiente para um determinado número de utilizadores que possam aceder à Internet e ter acesso a serviços básicos como usar as redes sociais, trocar e-mails, entre outras. As bandas largas são limitadas. O objectivo do Estado é que a banda larga contribua para a melhoria da condição de vida do cidadão, facilitando operações com Terminal de Pagamento Automático (TPA). Além disso, os jovens podem ter aulas em áreas afins que lhes dote de habilidades profissionais para poder desempenhar uma actividade lucrativa. Temos desafios, mas há condições para o fazer e expandir.