Entrevista

“Hoje a maior parte da chamada cesta básica ainda é importada”

O ministro António Francisco de Assis quer capitanear uma equipa que possa ser capaz de inverter o actual quadro de dependência ao exterior e conseguir produzir intrnamente, sobretudo, a cesta básica. Sem pedir mais dinheiro ao que se lhe dá no OGE, o governante assume fazer muito com o pouco que está disponível para a concretização das metas nacionais.

As experiências agrónomas do ministro António Francisco de Assis são parte do potencial que o sector busca maximizar. Já longe da infância, os tempos de exímio jogador de futebol nos bairros terão de ser trazidos ao presente. A missão é marcar os golos necessários para vencer-se a disputa contra a fome, a subnutrição e o modismo da importação de alimentos. O governante sente-se apenas o capitão de uma equipa e conta ter ao seu lado os outros jogadores do seu “team”. Quer que juntos consigam interpretar as ideias do treinador e respondam aos anseios dos torcedores.

A prioridade da agricultura exigirá sempre mais recursos financeiros para cumprir as metas. Está salvaguardada esta premissa em 2020?
Essa é uma boa questão e recorrente pelo que a precisamos desmistificar. Não devo dizer que não precisamos dinheiro, mais ou menos, isso ou aquilo. A verdade é que devemos olhar para a nossa realidade e compreender que com o que nos põem à disposição, teremos de fazer o necessário e possível. Logo, o que não se fez em 2019 vai para 2020 e o que não poder ser feito passa para o ano seguinte.

Está a dizer que não precisa de mais dinheiro?!…
Não é isso. Nos últimos tempos fazemos “link” entre a agricultura e o orçamento. Acho não ser justo. O sector precisa de dinheiro, mas os outros ministérios não quererão prejudicar a agricultura em seu favor. É no quadro das actuais dificuldades que com os recursos disponíveis devemos fazer os possíveis para o bem da agricultura. Gestão adequada dos poucos recursos e que sejam aplicados para catapultar a agricultura angolana em níveis altos de produção. Mais importante será fazermos bem agora, para que nos próximos anos não repitamos, novamente, aquilo que já teremos feito.


Como pensa fazer a mobilização para o renascer da “consciência agrícola” nos angolanos?
Exactamente o que falou é a palavra certa e de ordem: mobilização. É o que deveremos fazer e nisso precisamos contar com os angolanos sem excepção. Não são as divisas, o presidente ou o ministro o problema. O que precisamos mesmo é a mudança do “chip” sobre a prioridade que devemos dar à agricultura.

As famílias continuarão a ser prioridade na produção de alimentos?
Não tenhamos dúvidas disso. Por exemplo, qualquer angolano que possui um quintal com 20 metros, mais ou menos, deve ser incentivado a praticar agricultura, produzir couve, tomate, gindungo; ou mesmo criar galinhas para gerar frango e, ainda assim, sair para ir à sua jornada laboral normalmente. No regresso, no fim do dia, sempre verá que o resultado gera valor acrescentado, pois vai ter o que comer e também um certo excedente para vender. Se várias pessoas estiverem a fazer assim, isso vai gerar um nicho de negócio e também criar postos de trabalho indirectos. Isso melhora a dieta alimentar da família, mas também eleva a sua capacidade de comprar outros bens e serviços que necessita. Temos todos que nos virar para a agricultura. Precisamos produzir e assim resolvermos grande parte dos problemas da alimentação com que nos debatemos.

Isso resolve a subida repentina dos preços que volta e meia ainda se assiste?
Resolve. Hoje a maior parte da chamada cesta básica é importada. E olha que nisso também devemos reconsiderar, pois a farinha de trigo, que introduzimos na nossa cesta, é ideia importada. Nas localidades de alta produção não devemos aceitar que as pessoas troquem o inhame, a batata, a mandioca, a banana pelo pão de farinha de trigo. Com isso vamos deixar de pressionar a balança de pagamentos que enfrenta a alta da importação da farinha de trigo dos nossos dias. Precisamos olhar para dentro e rebuscar a nossa matriz de identidade.

Essa é uma chamada também para a constituição de reservas alimentares de que fala o Governo…
Temos de fazer reservas de segurança por causa da agricultura ser uma actividade de produção sazonal, o que obriga a que nos tempos de pico se produza em alta para que se consiga guardar outros excedentes para eventuais tempos, constrangimentos com o clima ou com os produtores que possam surgir. O que não deveremos apoiar é a constituição de reservas com produtos de importação.

Afinal, quais são os grandes desafios da nossa agricultura?
Estamos neste momento com uma grande bênção: chove bem por quase todo o país. O que precisamos fazer é organizar bem o nosso processo produtivo. Começamos o ano agrícola. Vimos em Malanje e as coisas estão em bom caminho. Devo aqui reconhecer que o meu antecessor fez um bom trabalho, que nos deu bases para arrancarmos da melhor maneira. No momento, temos sementes, máquinas a serem distribuídas e não destruídas como se diz em certa imprensa (rsrsrsrsrsrsrs) e com declarações atribuídas ao ministro. Devo-lhe dizer que temos em fase de distribuição para o país todo, 950 tractores, os quais vão apoiar as cooperativas existentes.

Ainda usamos mal os espaços de terra que temos à disposição. Como e quando passaremos a comer em melhor e maior presença o que é do nosso chão?
Para concretizarmos este pressuposto, deveremos assentar nossas estratégias em três vectores: Conhecimento, Logística e Mercado. Pelo conhecimento vamos poder aplicar as mais avançadas técnicas e melhorar a produção, o espaço e o tempo de cultivo. Depois vem a logística. Ela vai permitir o uso da técnica adequada. Teremos de mudar os procedimentos para sabermos plantar milho, mandioca, banana etc etc. Ainda usamos mal os espaços de terra que tempos à disposição. Temos de ensinar novas técnicas e tecnologias. Ao invés de uma ou duas, os agricultores têm de conseguir um mínimo de três toneladas de milho só num hectare de terra.

É isso possível ou apenas intenção?
No mundo já se faz 10 toneladas em igual espaço. O atraso científico e tecnológico terá de ser vencido. E por fim o mercado. O escoamento e os pontos de venda têm de ser incentivados. Agora, não podemos pensar vender apenas para as grandes superfícieis comerciais. O mercado é quem tem de orientar o produtor, pois d’outro modo vamos produzir fora das necessidades de consumo e de procura interna e externa.

Essa falta de paixão pela agricultura ainda pode vencer e reconquistar a capacidade de olharmos à terra como uma riqueza nossa?
As pessoas precisam saber que a agricultura não é emprego precário, mas sustentável. Nela e com ela come-se todos os dias. As nossas experiências de subsistência não podem ser vistas como a agricultura real. Os mitos que criamos à volta da agricultura e do emprego que ela gera precisam ser combatidos.

No interior de Angola há produção, mas também perde-se muito com os baixos preços da venda dos produtos…
E isso provoca um dano muito grande ao produtor. É importante o Governo, e estamos a fazê-lo, reorganizar a cadeia para que os intermediários surjam, para que se evite, que vendendo directamente, o agricultor no ano seguinte deixe de ter capacidade financeira para voltar a produzir, pois o preço de venda não respondeu às expectativas.

Como vamos fazer a promoção da agricultura?
Pela mudança de consciência. Temos de assentar e dialogar todos. A imprensa tem de ajudar. A mensagem é não importar a dimensão da área, mas sim a missão de produzir e gerar produtividade na agricultura.

E as polêmicas das terras…
São factos secundários. O que ocorre às vezes é que as pessoas têm as fazendas agrícolas em zonas previstas para a abertura de estradas e também próximas às áreas de residência. Ainda assim, a correção destes desarranjos está a fazer-se com diálogo, às vezes perturbado por ONG internacionais que desconhecem os processos na sua realidade material. O que às vezes não se fala é que mesmo no interior existem espaços de terra com “estrada de pé” – terraplanada, e que podem ser cultivadas. Os solos são aráveis, há água, mas as pessoas querem todas estar junto das zonas de asfalto.

Há ou não crise de terra como se diz?
Não é verdade. Há às vezes, como disse, quem quer estar muito perto do asfalto e choca com outros projectos. Também há quem chega num determinado lugar depois e como busca passagem, passa com o tractor sobre a produção de terceiros. Isso não é por si só uma crise ou algo que não se possa resolver pela dimensão de terra cultivável que o país possui.

O que vai poupar a agricultura com o recente acordo de implantação de fábricas de fertilizantes no país?
A grande poupança é que vai se gerar emprego a nível nacional e depois tem o lado financeiro também, porque hoje tudo que é ureia e sulfato de amónio em circulação no nosso país e na nossa agricultura é importado. É sabido que temos dificuldade de cambiais e a ureia é apenas gás natural e água, juntados a processos de industrialização. Estes recursos nós temos. Na Rússia, procuramos tecnologias. O maior realce está no facto de o investimento em causa ser de iniciativa privada, no caso o grupo Opaia. O Estado apenas está a dar o suporte político e institucional e a ajudar a abrir as portas necessárias. São entidades privadas angolanas e russas a desenvolverem isso.

Esse investimento vai resolver todos os nossos problemas com fertilizantes?
Não. A agricultura angolana não precisa apenas de ureia. Temos necessidade de fertilizantes NPK (compostos) e vários outros, pelo que mais empresas nacionais podem explorar esta vasta necessidade que a área dos fertilizantes ainda dispõe. Sempre por iniciativa privada independente ou em parceria com estrangeiros e seguramente sob o apoio institucional do Governo. diversificação das culturas domina sector agrícola em 2020