Entrevista

“Há mais apoio para a juventude”

Instituição trabalha na implementação de políticas tendentes a acudir inquietações dos jovens no país apoiando projectos criativos e implementar programas que ajudem a melhorar situação social do país

O Instituto Angolano da Juventude (IAJ) é uma instituição pública criada pelo Estado cuja incumbência consiste na materialização das políticas e programas públicos para a juventude angolana. Em entrevista ao Jornal de Economia e Finanças, o director-geral, Jofre dos Santos, balanceou os programas que estão a ser executados e avançou a sua visão sobre os vários desafios que enfrentam actualmente os jovens.

Durante a tomada de posse como director-geral do Instituto Angolano da Juventude(IAJ) disse que uma das apostas é a implementação do Observatório Nacional da Juventude e a aposta na criação do Estatuto do Dirigente Associativo. De que forma vão ser implementadas essas propostas?
Sim vão bem. Consideramos o observatório essencial para avaliação e análise de todos os factos ligados à juventude, bem como para a materialização das políticas da juventude, nos permitirá criar soluções mais eficazes e atempadas, às variadíssimas inquietações de acordo com as características específicas de cada grupo de jovens, sejam eles de zonas rurais sejam urbanas.
Este órgão fará o trabalho com uma base social e técnico-científica e terá uma forte componente investigativa, analisando as situações que se colocam à juventude angolana.
A proposta de Estatuto do Dirigente Associativo foi analisada novamente no VI Conselho Superior da Juventude, realizado de 12 a 13 de Junho de 2018 na província do Cunene, sendo uma das recomendações à sua implementação, pelo que ainda estamos no processo de recolha de mais contribuições por parte das organizações juvenis e dos próprios jovens, sendo que o Ministério da Juventude e Desportos continua aberto a propostas de todos os interessados. Portanto, tão logo esteja concluído, o processo será encaminhado aos órgãos competentes para análise e aprovação.

Quais os programas virados à juventude que estão a ser operacionalizados?
O Instituto Angolano da Juventude “IAJ” foi criado no sentido de dar uma resposta coordenada, transversal e mais eficaz aos anseios e solicitações da população jovem, através da operacionalização do Plano Nacional de Desenvolvimento da Juventude 2014-2017 coadjuvado ao PDN 2022, com vista à criação de um ambiente favorável, à promoção e implementação das políticas públicas direccionadas e à solução dos problemas da juventude, sobretudo nos domínios do emprego e formação profissional, educação e ensino, habitação, saúde, infra-estruturas básicas, desporto e lazer, mobilidade, transporte e prevenção rodoviária, segurança e delinquência juvenil, acesso às tecnologias de informação, participação na vida política e na cidadania, entre outros.
Neste sentido, para o cumprimento do acima referido, no presente ano o IAJ tem levado a cabo a implementação de 11 programas e cerca de 50 projectos. Está em execução o Programa PROEJA (Programa de Orientação Económico da Juventude), visa a inserção dos jovens no mercado de trabalho, mediante a orientação e acompanhamento quanto à resolução dos problemas de matriz económica. Também o
programa COOP-RURAL (Programa de Fomento ao Cooperativismo Produtivo dos Jovens nas Zonas Rurais), visa a inserção dos jovens no mercado de trabalho, mediante o fomento de cooperativas produtivas de jovens nas zonas rurais. Aqui destaca-se a (aquicultura, agricultura, pecuária, pesca e avicultura).
O programa POSJA (Programa de Orientação Social da Juventude Angolana), pensamos em melhorar o enquadramento institucional da juventude, mediante a sua orientação social, entre outros todos eles em execução.

Qual é a percentagem de jovens que têm acesso a estes programas gizados pelo Ministério da Juventude e Desportos?
Estamos numa fase de actualização de dados em curso junto do Instituto de Fomento da Sociedade de Informação (INFOSI), que inclui a criação de uma nova plataforma entre institutos, no âmbito da transversalidade do Plano Nacional de Desenvolvimento da Juventude (PNADEJ), que nos vai permitir partilhar e aceder aos dados a nível nacional, sobretudo referentes ao número de jovens beneficiários, cujo trabalho está bem avançado.
A materialização dos programas e projectos para a juventude é transversal e pretende-se dar resposta global às necessidades da juventude, razão pela qual, a par do Ministério da Juventude e Desportos, participam outros Departamentos Ministeriais. Neste sentido, ao nosso nível temos fomentado o empreendedorismo, o cooperativismo, as formações e o combate aos males que afetam a todos nós enquanto jovens.

“É preciso rever os métodos de execução do Plano da Juventude”

Será que há inoperância dos mecanismos de monitorização da execução do Plano de Desenvolvimento da Juventude?
Não considero que haja inoperância. Devemos revê-lo e adequá-lo ao novo contexto, porque esses instrumentos devem constantemente serem repensados e actualizados, com vista à adequação das políticas para a juventude à realidade social, pois estão em permanente mutação. O Sistema de Monitoria e Controlo garante o acompanhamento da execução das medidas e a aferição dos seus resultados, sendo um instrumento fundamental para avaliação da concretização dos objectivos do PNADEJ.

Os instrumentos e mecanismos desenhados pelo Governo têm dado resposta rápida e eficaz às preocupações da juventude?
Têm, mas não estão, ainda, na medida em que todos desejamos, porquanto as expectativas dos jovens são diversas, o que é normal. No entanto, somos uma nova direcção a nível do IAJ e estamos a trabalhar de forma afincada para a nossa resposta ser mais célere, eficaz e impactante na vida dos nossos jovens e beneficiar o maior número possível.

Até que ponto as casas das centralidades são uma gota no oceano face à necessidade dos jovens?
As casas das centralidades têm ajudado muitos jovens. A criação desses projectos renovou a esperança dos jovens em ter uma residência própria, foi um grande investimento do Governo do qual todos desejamos que continue, pois muitos de nós temos hoje a possibilidade de ter um local para viver, um sonho que há anos parecia impossível de realizar.
Não podemos ignorar o facto de a maior parte da população angolana ser jovem, e resolver os problemas da juventude é dar respostas às preocupações da maioria da nossa população, portanto, deve-se melhorar as condições de vida da nossa população.
Agora, urge a necessidade de se materializar os programas de auto-construção dirigida integrada nos programas e projectos do Governo para a juventude,pois será uma boa alternativa às centralidades, deverá passar pela cedência de terrenos para o efeito nas mais diversas províncias, com acompanhamento do governo local para que mais jovens possam realizar o sonho da casa própria, porque somos muitos e por mais centralidades que existam no país é difícil beneficiar a todos até porque muitos não têm capacidade de as pagar.

Até que ponto constitui uma realidade intrínseca dizer que os jovens não procuram empregos em Angola, quando há oportunidades. Não estamos a ser irrealistas?
Os jovens procuram sim emprego, claro que uns mais que os outros, o que é normal, alguns são mais proactivos e resilientes, não se deixam levar pelo comodismo, mas é preciso compreendermos e reconhecermos que as oportunidades não são iguais para todos, muitos não têm acesso à informação, por falta mesmo de meios e não por vontade própria, e as mesmas variam de província em província e algumas oportunidades têm surgido em sectores de actividades que não habituamos ou ensinamos os jovens a exercerem. Devemos fazer uma caracterização social da juventude e vamos todos percebê-la melhor.
Neste ano, no âmbito das visitas interactivas que temos feito levamos programas e projectos de fomento ao cooperativismo aos jovens dos Mulenvos, em Cacuaco, e do Curtume, no Cazenga, e constatamos que há jovens com muito potencial, com valores e visões do mundo, mas com muitas necessidades, bastante afectados com a conjuntura familiar e social, pelo que devemos estimulá-los e apoiá-los, pois precisam do básico para dar início a uma actividade e essas necessidades por vezes tornam os jovens sem orientação, vulneráveis a tudo, pois procuram a sua própria identidade.
Por outro lado, a experiência profissional que nos é pedida por muitas empresas, que dizem ter oportunidades de emprego, é inaceitável e acaba por constituir um entrave para os jovens.

A solução dos problemas da juventude depende sobretudo da capacidade, rigor e moral na execução de políticas públicas?
São virtudes e valores essênciais para o êxito de qualquer tarefa, pois nos caracterizam e casam com a nossa grande vontade, acrescida pelo prazer que temos enquanto jovens de servir a outros jovens e à nação, temos muita vontade em ver resolvidas as inquietações da juventude e um alto sentido de missão e disponibilidade da nossa parte, estamos exclusivamente ao serviço do interesse da juventude. Temos buscado parceiros para auxiliarem na materialização dos programas e projectos, o caminho que estamos a seguir é seguro e próspero. Os jovens podem confiar. Temos encontrado soluções para muitos problemas da juventude e somos optimistas, claro que contamos sempre com o envolvimento dos jovens e de outros entes públicos e privados.

Que políticas devem ser traçadas para potenciar os jovens nessa fase de crise económica e financeira que o país está a viver?
O combate ao desemprego e ao subemprego jovem é um desafio prioritário do Governo, estamos muito preocupados, é necessário continuar a desenvolver um conjunto de políticas macro-económicas de empregabilidade, temos realizado acções que incentivem a formação profissional, virada para a geração de emprego, organizando os formandos em cooperativas, apoiando-os com meios e locais para o exercício da sua profissão, estimulando e apoiando a capacidade de iniciativa e a criatividade, bem como o empreendedorismo e cooperativismo juvenil, pois investir na juventude é investir no presente e no futuro das nossas sociedades.
Para o efeito, os Centros Locais de Empreendedorismo e Serviços de Emprego (CLESE) poderão formar os jovens nos mais variados municípios.

Há quem diga que nesta fase deve-se acelerar a reforma do Estado que corresponda com a nova Angola, priorizando de forma séria, responsável e patriótica as autarquias locais…
Angola é um só país com uma história ímpar cujos nacionalistas muito fizeram pela sua liberdade, independência e paz, devemos continuar a valorizar e preservar os princípios que nos levaram a essas conquistas, com certeza continuaremos a trilhar os caminhos do desenvolvimento, do amor à pátria. O que deve mudar é a nossa mentalidade, devemos nos auto-disciplinar, respeitarmo-nos e banir os comportamentos negativos que retardam o nosso crescimento e desenvolvimento, devemos preservar o bem-comum, amar o próximo, cuidar do nosso país, valorizar o mérito e a competência e acima de tudo respeitarmos ainda mais o povo, o cidadão Angolano, aquele sobre o qual reside a soberania.
A reforma do Estado só terá resultados se cada um de nós estiver comprometido com o bem-estar comum acima dos interesses pessoais, sentir-se um servente do País, contribuindo para o progresso e a reconstrução nacional.
As autarquias locais devem continuar a serem preparadas com a devida responsabilidade, pois é um processo novo do qual todos devemos entender, não podem ser vistas como uma oportunidade para quem está ávido de chefiar ou ter poderes. Além de contribuir para o reforço da democracia deve provocar um efeito positivo na vida das populações, o Autarca deve ser um verdadeiro líder.

Também entende que o empreendedorismo não deve continuar apenas como uma “moda discursiva”?
Bem, a diversificação é um processo. Os resultados não são imediatos. É necessária, mas muito já se tem sido feito. O contexto económico e financeiro não é dos melhores, e isso também dificulta o cumprimento dessas tarefas... Temos ainda muito por fazer, e stamos todos conscientes disso. Neste sentido, as acções do Governo são visíveis e demonstram a vontade em diversificar e todos nós devemos contribuir para que este processo seja o mais célere possível. Quanto ao empreendedorismo é uma aposta séria. Existe o INAPEM, INEFOP e o INFOSI, que formam jovens empreendedores e outros centros inclusive privados, devemos também estender às instituições de educação e ensino. Por outra, existem muitos programas e projectos de incentivo às iniciativas de criação dos jovens. Sendo uma saída para eles, alguns precisam ainda de perceber melhor o que significa empreender. Então temos feito isso.

Que medidas foram adoptadas em termos de gestão face ao contexto actual do país para se atingir o empoderamento do empreendedorismo juvenil?
Foram várias, desde as linhas de crédito para apoio a jovens empreendedores e a criação de centros de formação para capacitação dos jovens nas mais diversas províncias do país.

É da mesma opinião que o Projovem foi um fracasso ou acha que deve ser melhorado?
Sinceramente, enquanto jovem, acho que deve ser reformulado, na medida em que ajudou alguns jovens, esperava-se mais, mas está em processo de avaliação após primeiro ano. Penso que a ser melhorado deve ser mais inclusivo, com maiores e melhores mecanismos de controlo e fiscalização e maior abrangência e que promova de modo justo e equilibrado a oportunidade para os jovens em todo o país, orientando e acompanhando com mais rigor os beneficiários na criação dos negócios e cumprimento das suas obrigações.

O CNJ tem alguma vontade de ajudar os jovens, mas parece que não tem tido apoio do Executivo e não dispõe de meios. É essa realidade?
Não corresponde à realidade. O Conselho Nacional de Juventude (CNJ) é um parceiro privilegiado do Estado na materialização das políticas para a juventude e o Estado tem prestado apoio financeiro e institucional aos Conselhos Provinciais da Juventude (CPJ), através do Instituto Angolano da Juventude, para aquisição de materiais e realização de actividades. Têm sido convidados a participar em todos eventos e reuniões de trabalho no Ministério da Juventude e Desportos sobre acções ligadas à juventude, tudo é feito de forma interligada.