Entrevista

Há criadores de Malanje e Uíge que vieram aqui comprar matrizes”

A  Cooperativa dos Criadores de Gado do Sul de Angola (CCGSA) tem estado a desenvolver vários projectos com vista a tornar Angola num grande exportador para ajudar a economia a crescer

A concretização das estratégias e de viabilidade económica para o desenvolvimento da actividade de produção de carne bovina nas províncias com abrangência da sua acção, constitui prioridade para contribuir no programa de redução das importações de carne, de diversificação económica e de combate à fome e à pobreza. Esta posição foi assumida em entrevista ao JE, pelo director-geral da Cooperativa dos Criadores de Gado do Sul de Angola (CCGSA), Luís Gata Gonçalves, que na entrevista falou dos novos desafios da instituição que dirige.

É o novo director-geral da CCGSA. Como a encontrou e quais os grandes desafios da instituição?
É um desafio que abracei com muito interesse. Na qualidade de médico veterinário, com conhecimento vasto da nossa zona de intervenção das fazendas que criam gado bovino e caprino, vou procurar formas de realizar a minha acção, realizar de forma mais eficiente os programas que visam dignificar a classe. Nesse sentido abracei esse projecto e posso afirmar que sim, estamos convictos da necessidade de a nossa cooperativa direccionar a sua actividade de ajudar no desenvolvimento da pecuária nacional.

Está satisfeito com as matrizes que os produtores produzem?
Sim! Houve importação de reprodutores de animais com características específicas, com volume corpóreo aceitável. Já fizemos vários testes e os resultados indicam haver cruzamentos excepcionais com o gado autóctone. Precisamos prosseguir na busca de resistência ao gado autóctone. Temos conseguido excelentes resultados, nomeadamente o número de partos, velocidade de crescimento que é totalmente diferente, com o sangue novo que se trouxe e que permite fazer animais de abate com cerca de 24 meses de idade e atingirem o peso de 300 a 350 quilogramas só a comerem capim, sem a necessidade de introduzir o capim ou o custo da ração. O grande objectivo que a nossa cooperativa tem é que estas fazendas que já existem e outras que poderão ser reabilitadas, caso haja financiamentos possam garantir boas matrizes. As fêmeas que vão ter crias e que depois são aproveitadas, as fêmeas possam ir repovoar e aumentar a capacidade de reprodução do país. Nesta fase estamos mais empenhados em melhorar a capacidade das matrizes das nossas fazendas, no sentido de aumentar a quantidade de animais e depois estipular este plano que será de levar, para mais perto dos grandes centros, como é o caso de Luanda.

Quantas fazendas existem e qual o número por reabilitar?
Actualmente, a cooperativa tem mais de 72 fazendas associadas, não só no Sul de Angola, mas também nas províncias do Cuando Cubango, Cuanza Norte, Benguela e outras. Conheço fazendas que já existiam desde o tempo colonial e que estão abandonadas.

Que contributo os associados da cooperativa podem proporcionar ao programa de diversificação económica, uma vez que a redução da importação da carne tem sido preocupação do Executivo?
Temos um estudo feito e já entregue às entidades governamentais, que permite um crescimento quase exponencial da produção de carne no nosso país. Temos terra e água suficiente e o nosso país pode se transformar num produtor de referência, em termos de carne bovina e caprina sem dúvida. Precisamos de apoio porque, se calhar as pessoas não estão dentro do assunto, mas é fácil perceber que, só se tira rendimento na pecuária, nomeadamente na criação de gado bovino, ao fim de quatro a cinco anos. A partir desta fase é que se começa a fazer dinheiro com a venda dos animais. Antes disso não é possível.

O Governo pode continuar a contar com a participação da Ccgsa para combater a fome, a pobreza, e diversificar a economia?
Esta é a razão da nossa existência. Queremos que o nosso país se torne uma referência na
produção de carne.

A seca é uma constante nesta região do país. Na qualidade de especialista na área de veterinária, que métodos devem ser adoptados para minimizar tais efeitos?
A água é sem dúvida um dos factores que mais condiciona e afecta a exploração agro-pecuária. Há diferentes formas de obter água, tais como cacimbas, chimpacas, rios e entre outros. Os criadores têm que ter meios próprios para dar água aos animais. Têm que ter furos de água. Também têm que saber calcular o efectivo total ganadeiro em função da capacidade a ser instalada na zona, a chamada rotação de parques, no sentido de nunca esgotar a capacidade de produção natural desses parques. Esses trabalhos são feitos nas fazendas e na transumância. É mais um motivo para que todos os produtores se organizem, no sentido de não desertificarem as pastagens e fazer uma gestão correcta das capacidades de produção de alimentos.

Já é possível debruçar-se das matrizes que os criadores da Cooperativa colocam à disposição para outras províncias?
Sim. Há criadores de Malanje e Uíge que vieram comprar as matrizes nas nossas fazendas e têm animais que tiveram uma excelente adaptação totalmente diferente dos animais que foram importados. Não há comparação entre a taxa de resistência dos animais nascidos em Angola, em relação aos importados. Por isso, é um contributo importante que as nossas fazendas fazem, com a multiplicação de animais reprodutores, que proporcionam um rendimento aceitável às fazendas e que vão dinamizar outras zonas do país.

Qual a actual situação dos equipamentos instalados nas vossas fazendas?
Os apoios são sempre necessários. Continuamos a pedir isso, por formas a que sejamos nós próprios a fazer a importação dos insumos necessários, nomeadamente os medicamentos, distribuição de água, e até mesmo os equipamentos agrícolas, porque as nossas fazendas também já estão a produzir o capim autóctone devidamente trabalhado, no sentido de se fazer uma reserva, para que ao chegar o tempo seco, se for possível, haja alimento para aguentar os animais. Por outro lado, precisamos do apoio do Governo e do BNA, no sentido de disponibilizarem divisas para apoiar a importação de tudo o que necessitamos.

Como está o processo da construção do matadouro?
O Presidente da República já recebeu uma carta da nossa cooperativa, onde tivemos a oportunidade de solicitar este projecto. Por sua vez, o Presidente da República reconheceu que já se fez muitos matadouros em Angola, mas nem sempre no sítio certo. Então, estamos expectantes que neste ciclo governamental, iremos ter a oportunidade de iniciar a construção de um matadouro ligado à nossa cooperativa, que irá beneficiar toda a população, porque não vai abater só os animais das fazendas, mas também de outros camponeses cumprindo com os requisitos de sanidade. Estamos muito expectantes que no primeiro trimestre de 2018 possamos ter boas notícias.

A transferência de técnicas apropriadas para o tratamento do gado autóctone continua a ser aposta?
É uma preocupação constante da cooperativa com vista a melhorar as raças, o leite e até a carne. Por ser médico veterinário, nunca fecho a minha colaboração com qualquer criador. Sabemos que 90 por cento do rebanho bovino é dos camponeses. Temos consciência disso. Conhecemos criadores com mais de três mil cabeças, e é preciso serem motivados a se transformarem em criadores estruturados de gado. É indispensável que o criador de gado tenha capacidade de se organizar em torno de uma boa gestão empresarial, assente na produção com qualidade e garantir a sustentabilidade.

A feira agro-pecuária vai continuar?
Sem dúvida. É com muito orgulho que realizamos sempre a feira agro-pecuária da Gula, que, anualmente decorre em Agosto.A Feira procura, anualmente, mostrar aos seus visitantes o que de melhor se produz na região Sul e não só.