Entrevista

“Há ainda muitas oportunidades a explorar no mercado interno”

Os empreendedores e produtores angolanos encontram desafios semelhantes aos dos seus homólogos noutras geografias de África

Da análise ao mais recente relatório da BCG, o que podemos aferir como desafio para os empreendedores e produtores angolanos?
Os empreendedores e produtores angolanos encontram desafios semelhantes aos dos seus homólogos noutras geografias de África. Os principais desafios incluem infra-estruturas, em particular de logística e transporte, bem como a fragmentação do continente africano nos diferentes mercados. A resolução destes desafios poderia reduzir substancialmente o custo de fazer negócios em África, aproximar produtores e consumidores e atrair mais investimento estrangeiro.

Que ambiente interno será preciso desenvolver para que se possa atingir a cifra de dezenas ou meia dezena de empresas nossas no ranking das pioneiras do empreendedorismo africano?
De modo a criar um ecossistema mais competitivo, têm sido tomadas medidas no sentido de criar um ambiente mais atractivo para os negócios e permitir atrair maior investimento, quer de empresas nacionais, quer de empresas multinacionais em sectores chave da economia. Este processo é essencial para permitir criar em Angola, empresas eficientes e capazes de competir com as multinacionais estrangeiras. Apesar das ambições de várias empresas angolanas de ganhar relevância no panorama económico da região, a expansão internacional é sobretudo um processo orgânico que ocorre por necessidade, uma vez que as oportunidades no mercado interno tenham sido exploradas, e exista a necessidade de procurar expandir os horizontes da empresa. Em vários sectores da economia, há ainda muitas oportunidades a explorar no mercado interno, o que tira o foco da expansão internacional.

O facto de mais africanos estarem a investir em África que lições se podem tirar para Angola em particular, mas o continente de um modo geral?
Existem várias histórias interessantes sobre como atrair investimento estrangeiro, pois Angola deve procurar também explorar esta vertente. Marrocos tem sido muito bem sucedido através do programa InvestMorroco e o Ruanda também tem tido uma actuação ágil e dinâmica nesta matéria. Os países que ilustram estas histórias têm se focado em criar um bom ambiente para desenvolver negócios, procuram oportunidades alinhadas com os seus recursos e atraem empresas internacionais, com interesse em investir nas suas geografias. O sucesso na atracção de investimento estrangeiro em Angola será crucial para a economia angolana e o foco em empresas africanas é importante, uma vez que estão familiarizadas com a forma de conduzir os seus negócios no contexto africano, e como tal, serão mais resilientes na altura de fazer investimentos.

As transacções entre as economias africanas podem ser tidas como satisfatórias atendendo o histórico de um passado recente?
As transacções entre economias africanas têm melhorado consideravelmente e o investimento estrangeiro entre economias africanas representa 13% de todo o investimento estrangeiro, subindo de apenas 6% há dez anos. As exportações intracontinentais representam 18% do total de exportações, sendo que há 10 anos representam apenas 12%. Existe a ambição e potencial de melhorar estes números, mas trata-se de uma maratona e não um sprint.

Esses factores revistos não indiciam falta ou fraca atractividade para a captação de investimentos de fora do continente?
A capacidade de uma economia atrair e reter investimento estrangeiro depende sobretudo do ambiente de negócios estabelecido no país e do equilíbrio entre risco e sucesso percepcionado pelo investidor. Neste contexto, a África tem sido cada vez mais bem sucedida na atracção de investimento, dadas as várias oportunidades de grande potencial, bem como a existência de estabilidade económica e social, em vários países. Ainda assim, o potencial de investimento é bastante maior do que o investimento efectuado até agora no continente africano. Angola deve focar-se na captação desse investimento e para tal, deve continuar a investir em infra-estruturas e capital humano e continuar o desenvolver o ambiente de negócios, como o Governo tem feito até agora.

O que poderá justificar a presença da Refriango como a única representante das marcas angolanas?
A Refriango tem desenvolvido o seu negócio num panorama sectorial competitivo com vários concorrentes locais e estrangeiros, criando uma plataforma competitiva que lhes permitiu expandir internacionalmente. A Refriango cresceu inicialmente no mercado interno angolano e procurava novas oportunidades de expansão: com uma estrutura organizacional sólida, competências de negócio estabelecidas e um bom produto, fizeram a aposta estratégica de explorar outros mercados.

Participação estatal atenuada em processos de privatização

Que condições um turista espera encontrar e que se constitui num desafios às cidades angolanas?
Os turistas procuram uma experiência agradável por um bom valor, com conforto, acesso fácil a comodidades e segurança. Angola possui muitas destas características mas deve investir nas que são ainda frágeis. No entanto, o maior desafio para atrair turistas passaria pela criação de uma sólida estratégia de marketing, ilustrando as oportunidades.

A opção pela fusão e aquisição entre firmas é solução de curto prazo?
De forma a participar em fusões e aquisições como estratégia de crescimento, uma empresa precisa de ter um determinado tamanho e escala. No entanto, a forte participação estatal em muitas empresas tem sido atenuada em processos de privatização, que criam espaço para que mais fusões e aquisições ocorram.

Que sectores são os mais atractivos e quais os que mais desafios reservam?
Os sectores primários da economia reúnem características que os tornam atractivos para os investidores: a agricultura, pesca, indústria mineira e turismo apresentam um conjunto de recursos naturais de elevado potencial, assim como um ambiente de negócio onde têm sido tomadas medidas para atrair investidores. Os sectores que apresentam enquadramentos mais desafiantes são aqueles em que as infra-estruturas e o capital humano ainda não foi em todo desenvolvido.

Parece que a observação interna e externa combina na necessidade de surgirem multimarcas ou empresas multinacionais puramente africanas?
As empresas africanas têm um melhor entendimento do contexto onde realizam os seus negócios, e como tal, uma vez exploradas as oportunidades nos respectivos mercados, elas podem focar-se na expansão internacional para outras geografias, criando a tendência para a o aparecimento de multinacionais no continente. A emergência de multinacionais africanas é já um fenómeno visível como consta no relatório - existem 46 multinacionais africanas com presença por todo o continente e mais de 39 multinacionais de outros continentes. Com a intensificação deste fenómeno, a integração dos mercados será fortalecida, criando espaço para novas multinacionais Africanas surgirem.