Entrevista

“Estamos num patamar avançado”

O director do Instituto Nacional de Petróleos (INP), localizado na cidade do Sumbe, província do Cuanza Sul, explica os caminhos que cruzam o futuro do mercado de formação em hidrocarbonetos em Angola e na SADC em geral. Para o gestor, a posição de Angola é de referência num sector em que o capital é intensivo.

São mais de 200 alunos formados anualmente nos 25 cursos que o Instituto Nacional de Petróleos (INP) administra entre estudantes dos cursos técnicos e do ensino médio, segundo revelou o director-geral, Mário Botelho de Vasconcelos. Nessa entrevista, o responsável assegura que um dos desafios consiste em formar quadros de outras especialidades no âmbito do sector económico nacional sob solicitação de empresas.

Como têm sido desenvolvidas as acções formativas no instituto que dirige?
Nós temos estado a desenvolver as nossas tarefas basicamente concentradas naquilo que são o objecto principal da instituição. Temos dois segmentos: uma área do ensino médio e outra virada para a formação técnico-profissional. Diria que tem havido uma aplicação afincada no sentido de transmitirmos conhecimento de forma proporcional aos anseios dos alunos, dos pais e dos encarregados de educação.

Há um maior entrosamento entre a teoria e a prática?
Quase todas as cadeiras têm a componente teórica e prática. Esta última foi mais reforçada por ser mais exigente. Aliás, em quase 50 por cento das disciplinas têm sido evidenciadas com a componente prática.

Nos últimos tempos, assiste-se a uma maior fragilidade dos centros de formação. Será que as técnicas administradas pelo INP vão ao encontro das políticas de formação de quadros e as do mercado?
Nós seguimos as políticas traçadas pelo Executivo e cumprimos igualmente com as exigências do mercado. Temos estado a dar formações específicas, ou seja, dirigidas para o sector mineiro e petrolífero que são bastante exigentes e que por sua vez também acompanhamos o seu desenvolvimento e a sua dinâmica. Por ser um segmento com rápido crescimento, nós como instituição de formação não podemos ficar alheios à realidade actual. Isso implica dizer que temos estado a acompanhar a dinâmica do mercado no seu todo.

Qual tem sido a média anual de formação de técnicos?
Por ano, temos 200 alunos a formar.

Quanto à solicitação para o ingresso de novos alunos à instituição?
A solicitação tem sido grande, mas ainda assim, este ano vamos lançar uma ampla campanha de sensibilização para aumentar o número de pessoas interessadas. Como sabe, o ingresso de novos alunos é feito por intermédio de um exame de acesso. Quanto mais alunos a participarem no teste, melhor para teremos mais facilidades em seleccionar, o que vai facilitar o nosso trabalho. Naturalmente, vamos reconhecendo que há uma ligeira baixa derivada por vários factores verificados já há três anos, mas acredito que com a campanha que iremos desencadear aumentará o número de candidatos.

Essa baixa que se refere tem alguma ligação com a crise económica e financeira que o país está a atravessar?
Temos estado a estudar e tentar saber donde vêm as causas, pois sabemos que todas as famílias reduziram em termos de poder de compra. No instituto, depois do acesso, os alunos pagam uma comparticipação, e na verdade, nem todas as famílias têm possibilidades de pagar essa comparticipaçao. Quando se fala da indústria petrolífera, muitas empresas dispensaram os seus trabalhores, não é um factor motivante para um pai que queira colocar o seu filho a estudar petróleos, mas faço um apelo às famílias que devemos apostar porque, além de ser uma formação de qualidade, a indústria petrolífera e mineira continuam a ser importantes para a economia nacional. O petróleo vai continuar a existir e há muito trabalho que poderá ser feito no sentido de haver muitas descobertas. O INP, além de formar técnicos que se dedicam aos petróleos, há também aos generalistas que podem ser não só para o sector dos recursos sólidos e de hidrocarbonetos, mas para outros segmentos.

Qual é o valor que se cobra para a comparticipação?
São 600 mil kwanzas por ano, repartidos em 200 mil kwanzas por cada trimestre.

A comparticipação dos alunos não dá cobertura às despesas correntes?
Nós também dependemos do OGE, mas o valor que se cobra é para cobrir as despesas correntes, por estarem em regime de internato. São mais de 600 alunos.

Cooperação com os países da SADC

Como os alunos provenientes de outros países da região têm encarado a formação proporcionada pelo Instituto Nacional de Petróleos de Angola?
Desde a entrada em funcionamento da institução em 1983, nós já tivemos vários alunos provenientes de países como Lesoto, Swazilândia e Moçambique. Neste momento, só temos apenas estudantes da República de Moçambique.

Porquê?
Além de expandirmos a nossa carteira de formação para estes países, dependemos da flexibildade de muitos para aceitação e a necessidade para a formação que têm para esta área de petróleos.
Quando se fala de petróleos, a nível da SADC não são muito dedicados a isso, pois Angola está num patamar muito mais avançado em relação aos demais.

O que prevê o acordo de parceria firmada para a formação de técnicos estrangeiros, sobretudo da região?
Nós temos módulos de formação que podem apoiar esses formando que estão contemplados no âmbito do acordo. Encontramo-nos bem preparados e em condições académicas e pedagógicas suficientemente bem criadas para permitir com que eles venham ou tenham a formação e regressem aos seus países para poderem integrar nas suas respectivas equipas, aplicando os conhecimentos e habilidades adquiridos durante a passagem pelo Instituto Nacional de Petróleos.

Neste momento, quantos alunos estão matriculados?
Estão matriculados 649 alunos, para os cursos do ensino médio técnicos. Esses últimos variam em função das solicitações das empresas. Temos 14 moçambicanos dos quais 5 meninas. O curso termina a 15 de Dezembro e esperamos que no próximo ano esteja muito melhor e que as companhias que têm sido os nossos fornecedores para os cursos técnicos possam enviar muitos elementos.
A duração dos cursos variam, pois há os que demoram 2, 3, 6 meses ou 1 ano e 8 meses e ainda os de curta duração. Além desses cursos que são administrtados, nós também vamos à procura de formandos. Há companhias que solicitam cursos no caso de ambiente, saúde e segurança no trabalho, sendo um dos cursos que não exigem a maquinaria pesada. Às vezes, os nossos formadores é que se deslocam às empresas para poderem realizar a formação.

Há vários convénios estabelecidos com empresas?
Nós estabelecemos protocolos com algumas empresas, mas somos uma instituiçao aberta a estabelecer parcerias com determinadas empresas do sector e nao só. Nós queremos estar mais próximos para as exigências do mercado. Para o efeito, estudamos aquilo que as empresas querem, além de formamos as pessoas de acordo com aquilo que eles precisam na indústria.

Têm recebido queixas de alunos ou de encarregados de educação devido a uma certa desorganização?
Não. Todos os dias recebemos a contribuição, não só dos pais, mas dos alunos no sentido de melhorar a organização interna, pois essa é uma das maiores preocupações. Além disso, temos tido reuniões regulares e transmitemos as regras da instituçao a todos. Nós os membros da direccao temos a obrigação moral de acompanhar todos para que eles se sintam à vontade e estudem sem problemas. Temos pedido aos pais a fazerem um acompanhamento dos filhos. Por isso é que se criou uma comissão de encaregados de educação que é bastante activo. O nosso apanágio foi sempre incentivar o contacto directo entre os formando e os pais.

Qual é a capacidade acomodação de estudantes na instituição?
Nós temos uma capacidade de acomodaçao de mais de mil lugares.

Para as duas componentes?
A nível do ensino médio ocupamos todos os lugares, mas ainda temos espaços para albergar pessoas interessadas para o ramo técnico, mas para tal, dependemos da solicitação das empresas.

Por quê um estudante finalista fica mais um ano a preparar a sua monografia?
Nessa altura, para os cursos técnico- profissionais são exigidos a 13ª classe, é um estágio curricular que os alunos têm nas empresas.
Os de electromecânicas vão para as empresas que trabalham com projectos similares, o mesmo acopara os de perfuração e os de geologia. É uma forma deles terem o contacto directo com os profissionais da área para poderem ligar os que aprenderam na teoria com a prática, ou seja, para cada vez mais ganharem uma maior rotina ou verem como é a estrutura funcional da indústria.
Nós aqui temos simuladores e lá vão encontrar a realidade concreta em termos de prática. Nós queremos que os alunos quando eventualmente possam conseguir um emprego não tenham dificuldades maiores de adaptação. É uma forma de transição para eles terem o contacto directo com a técnica, mas ainda com o compromisso didáctico-pedagógico. Por isso é que têm que fazer um projecto tecnológico para apresentarem na presença dos tutores das indústrias onde percorrem para ver quais são as suas aptidões. Todo esse processo também consta da avaliação final do curso.

E caso não tenham aproveitamento?

Esse aluno reprova e repete o projecto tecnológico. Todos os professores ou orientadores que acompanharam a primeira parte do projecto tecnológico têm que se reunir para procurar avaliar os motivos pelos os quais estiveram na base para o insucesso do aluno. Depois disso, preparamos melhor o aluno, e se não forem encontrados factores intrínsecos, analisaremos os motivos com a institução onde efectou o estágio. Às vezes, as situações psicológicas afectam no aproveitamento do aluno, é normal que que isso aconteça, mas temos que analisá-las profundamente, pois muitos fazem estágios em Luanda e porque estão habituados a viver no instituto, já no seio familiar caso não tenha comodidade e tranquildiade suficientes para preparar o seu trabalho, elem podem ter uma quebra.
O que nós queremos é que os alunos saíam daqui bem preparados e instruidos, mas que também quando voltarem para a casa dos seus familiares possam ser bem reintegrados, pois aqui eles vão reforçando a sua própria personalidade, porque alguns entram com 16 ou 17 anos e saem com 22 anos.
É a fase de transição em que o indivíduo ganha outras comptências de vida.
A partir dali, os pais devem compreender que eles já são pessoas adultas e que ganharam outra cultura de socialização.

Como encara a formação de quadros em Angola?
Precisa-se melhorar mais. Temos tido um grande problema a nível da formação de formadores, eles têm que ser bons para poderem formar também bons técnicos para o futuro.
Tenho notado que muitas das vezes os formadores não vão ao encontro das expectativas da sociedade.
Não é normal que alguém que esteja na 7ª classe não saiba fazer uma simples contas de adição e subtração.
Qualquer instituição não tem se quer um único laboratório e se possui, o professor não sabe manusear os equipamentos. É preocupante...

Instituição superior será independente 

As obras do instituto superior de petróleos estão a um bom ritmo e é coordenado pelos Ministérios do Ensino Superior e dos Recursos Minerais e dos Petróleos 

Que passos já foram dados para a implantação do Instituto Superior de Petróleos adstrito ao INP?
A construção decorre a um bom ritmo, pois as obras estão bem avançadas e nao é para parar. Em pouco anos veremos a instituçao a funcionar.

Qual é a previsão do termo das obras?
Daqui a dois anos, é a minha previsão.

Implica dizer que os alunos serão matriculados directamente ou far-se-á ainda recurso a exames de aptidão?
Foi criada uma comissão pelo INP, coordenada pelo ex-director. A instituição do ensino superior funcionará de forma independente a do Instituto Nacional de Petróleos, pois vai aplicar todas as exigências como que são exigidas pelos demais institutos de ensino superior em Angola.
É certo que os estudantes que sairão do INP, não só pela vizinhança, mas também estarão em melhores condições para o grau de exigência que o insttituto fará, mas será uma estrutura aberta que, à semelhança dos outros, vão submeter os alunos a testes sem nenhuma primazia de quem se formou no INP possa ter acesso directo.

E para os dos cursos técnicos?
São cursos dirigidos, pelo que terão que ter as classificações exigidas pelo Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, em que devem ter o ensino médio concluído.

Gosta de aventuras

Nome Completo:
Mário Botelho de Vasconcelos

Filiação:
Domingos Machado de Vasconcelos e Delfina Aurélio da Rocha

Naturalidade:
Golungo Alto (Cuanza Norte)

Idade:
54 anos

Formação:
Fez os estudos secundários e curso médio no Instituto Nacional de Petróleos (INP). Licenciou-se na Universidade de Coimba em Engenharia em 1995

Experiência técnico-profissional:
Quadro do sector dos petróleos há mais 20 anos

Hobby:
Aventuras (estradas)

Prática desportiva:
Caminhandas, karaté e atletismo

Club de coração:
Porcelana Futebol Clubedo Cazengo

Particularidade:
Está satisfeito pelo facto de ter regressado ao INP como DG, onde passou parte da sua vida

O que mais lhe inquieta na economia?
A concentração excessiva do petróleo e dos diamantes. É preciso intensificar o processo de diversificação da ecomnomia, mas isso leva tempo a dar os seus frutos. E o sector agrário é fundamental. Têm que se elevar a produção com recursos à maquinaria.

Que Angola gostaria de ter no futuro?
Uma Angola brilhante à medida daquilo que Deus nos proprocionou. Somos um país rico e o povo deve sorrir. Além disso, gostaria que todos tivessem uma melhor vida ou casa condigna.