Entrevista

Empresário elogia decisão

À luz da medida tomada ontem pelo Executivo angolano sobre o fim do monopólio na actividade de análises laboratoriais dos produtos destinados ao consumo humano, o Jornal de Economia & Finanças entrevistou o empresário Carlos Cunha, um dos mais incorfomados com a actuação da operadora Bromangol.

À luz da medida tomada ontem pelo Executivo angolano sobre o fim do monopólio na actividade de análises laboratoriais dos produtos destinados ao consumo humano, o Jornal de Economia & Finanças entrevistou 0 empresário Carlos Cunha, um dos mais incorfomados com a actuação da operadora Bromangol. Nesta entrevista, Carlos Cunha aplaude a iniciativa do Governo que definiu um novo paradigma e salvaguarda superior do interesse público, assim como da garantia do respeito aos princípios constitucionais da livre iniciativa económica, da economia de mercado e da sã concorrência.

O senhor sempre foi corajoso em criticar publicamente a actuação da Bromangol. Fê-lo na convicção de que um dia a situação se revertia a vosso favor. Esta medida tomada pelo Executivo angolano em rescindir o contrato com a Bromangol é como se fosse uma explosão de uma bomba?
Risos. É uma medida de louvar e que na qual estamos bastante satisfeitos pela decisão tomada pelo Presidente da República. Nós já andamos a lutar há sete anos, e graças a Deus, hoje fomos ouvidos. Estamos em festa. Estamos bastante satifeitos com o Executivo e solidário com o Presidente João Lourenço e tem o nosso apoio. Vamos tentar salvaguardar a causa pela confiança a que nos foi depositada.

A persistência venceu?
Com certeza. Para ter uma ideia, nos últimos três anos, o Estado arrecadou em imposto industrial, o de maior dimensão das empresas, um valor de 11 mil milhões de kwanzas, equivalente a 64 milhões de dólares na distribuição alimentar e a Bromangol arrecadou 26 milhões de dólares, o que significa que só o nosso sector contribui com 10 milhões de dólares/ano à Bromangol, mas o ano ainda não acabou, pois faltam ainda três meses. Isso foi a melhor notícia que nos podiam ter dado. O sector empresarial está em festa e vamos baixar o preço do champanhe até ao dia 11 de Novembro para toda gente poder festejar. Os consumidores e as empresas estavam a pagar muito caro. Era inadmissível o que estavamos a viver.

Uma nova era abre-se no ramo da distribuição com a medida tomada à luz da nova lei do livre comércio e da concorrência?
Estávamos a falar de uma empresa instalada nas alfândegas e que cobrava os impostos à cabeça e que muita das vezes não fiscalizava. Isso foi das coisas mais graves que aconteceu na nossa economia. Portanto, isso já é passado, e vamos virar a página, pensando já no futuro. Mas, foi a algo que nos doeu bastante.

A Ecodima teve alguma influência indirecta para que o Presidente da República tomasse a decisão?
Não posso dizer uma coisa dessas. Provavelmente, somos ouvidos, mas não influenciamos pela decisão tomada pelo Presidente da República. Se calhar sejamos a única entidade que mais influenciou, mas não directamente.

Se não fosse a questão da Bromangol, o reflexo dos preços no mercado seria outro?
Gostaríamos de ver já nesta quadra festiva os preços mais baratos no mercado pela inexistência da empresa que mais encarecia os serviços. Acreditamos que teremos um natal com preços mais mais competitivos, porque uma das razões que alicerçava a subida dos preços de algumas áreas de produtos alimentares, sobretudo os perecíveis, era precisamente a Bromangol.

Com a medida, os empresários nacionais poderão ter maior rentabilidade nos seus negócios?
Não vejo muito as coisas por aí, vamos sim nos tornar mais competitivos. Se eu vender o produto mais barato, até posso não ganhar mais, mas venderei mais. Ressalto a teoria de Thomas Piketty, um grande economista que já foi assessor de Bill Gate, na qual defendia o combate à desigualdade. Ele defendia que se afectasse recursos a poucas entidades, deixa a maioria sem o poder de compras. Este fenómeno acontece em Angola, pois há menos equilíbros entre a procura e a oferta.

As inspecções feitas pelo Ministério da Agricultura eram menos pesadas em termos de preços.
Nós tínhamos que pagar as inspecções ao laboratório do Estado, proprimamente ao Ministério da Agricultura e à Bromangol. As inspecções pagas ao Estado representavam 10 por cento do valor da Bromangol, que fazia a mesma coisa, o que dizer que pagava-se 10 vezes menos ao Estado. Isso era um negócio “pornográfico” e que nunca devia ter existido e que nunca ressolvia problema nenhum, pois não controlava nada.

A medida está inserida no pacote de combate aos monopólios...
É quase a mesma medida tomada no cimento e que se estendeu às análises laboratoriais dos produtos. Penso que o Governo está no caminho certo e temos que apoiar.

Quais as outras preocupações do empresariado nacional a que estão a ser colocadas ao Executivo?
Estamos a negociar com o Executivo um pacote para se alterar a metodologia de afectação de recursos cambiais. Nós defendemos a meritocracia empresarial. As empresas devem ter acesso a divisas em função do seu volume de vendas e de impostos, pois isso está a ser bem aceite pelo Executivo, estando ainda a ser analisada. Acreditamos que brevemente o Executivo venha a tomar uma decisão sobre isso.