Entrevista

“Empresário do sal quer fim à importação”

A comuna de Chamume, concretamente na localidade de Chome, município da Baía Farta, na província de Benguela, pode dar-se por “abençoada”.

A comuna de Chamume, concretamente na localidade de Chome, município da Baía Farta, na província de Benguela, pode dar-se por “abençoada”. Ao seu redor cresce um já consideravél número de salinas. Esse factor pode ser percebido como puro sinal de desenvolvimento, pois a riqueza do mar atrai investidores e com estes chegam mais postos de trabalho e obras sociais. As Salinas Tchiome são no caso prova evidente desse “boom” que fez da Baía Farta a “cidade do sal” e que os empresários agora pretendem transformar em “República do sal”. A combinação de sol, fracas chuvas, fortes ventos e terreno argiloso junto ao mar propicia condições para que a produção salineira seja massiva. À semelhança das cidades do litoral de Porto-amboím e Sumbe (Cuanza Sul), Tômbwa (Namibe) e Cacuaco (Luanda), Baía Farta (Benguela) é um “el dourado” para quem tem no “Ouro branco” (designação ganha pelo sal nos seus anos áureos de 70 e 80) o seu nicho de negócio.

Quais os grandes objectivos do projecto Salinas do Tchiome?
Os grandes objectivos do projecto consistem no desenvolvimento de uma indústria de referência em África, capaz de competir com os principais players africanos do sector e contribuir para o desenvolvimento económico e sustentado da economia angolana, e isso através da diversificação da actividade económica e da diminuição do défice da balança comercial.

Porquê escolheste a Baía Farta?
A Baía Farta, em termos de localização, foi escolhida pelo facto de nela se verificarem condições privilegiadas para a extracção do sal. Com efeito, o clima, a precipitação média, a terra plana e argilosa e a velocidade do vento são das mais indicadas do mundo para se desenvolver um projecto desta natureza.

Em termos de geração de emprego que mais-valias estão previstas?
Em termos de geração de emprego, estimamos que este projecto venha a criar cerca de 200 postos de trabalho directos e mais de mil postos de trabalho indirectos. Estamos, por isso, a falar de um dos investimentos mais estruturantes, para a economia da região de Benguela, que irão ser desenvolvidos durante esta década.

Há muitos salineiros a reclamarem da pouca saída do sal. Não tendes nisso um factor de preocupação?
De todo. Os números que dispomos indicam que as importações de sal, em Angola, atingem mais de 200 mil toneladas, perto de 2/3 do consumo total deste produto. Neste contexto, acreditamos plenamente na existência de um vasto mercado onde poderemos escoar o nosso produto. O mesmo fenómeno passa-se com a maioria das economias vizinhas, onde o défice comercial é muito acentuado. Estamos absolutamente convictos,e assim indicam os números, de que o mercado potencial para a nossa empresa é muito elevado.

Quanto pensam investir para tornar real a vossa produção de sal?
O investimento total ronda os 38 milhões de euros.

Como vai chamar-se a marca comercial e com que parceiros contam na distribuição?
Contamos já com os maiores distribuidores na área do retalho alimentar. Temos acordos de parceria e intenções de compra com os principais distribuidores e retalhistas. Não seria correcto da minha parte entrar em mais detalhes sobre esta matéria que é confidencial e sensível. Em termos de marca comercial iniciaremos, para o mercado nacional, com a marca Sal Sul. A produção para os mercados internacionais deverá contar com a nossa marca e com marca branca, a pedido dos clientes.

Para quando o vosso sal começa a chegar a mesa ou cozinha das famílias e de outras unidades com fins industriais?
Esperamos que em meados de 2018 o projecto esteja concluído e o sal possa estar a ser comercializado alguns meses depois.

Que dificuldades enfrentam neste momento atendendo a situação financeira local e internacional?
A maior dificuldade é, sem dúvida, a capacidade de se ter divisas para se importar as máquinas e equipamentos. Esta restrição tem vindo a condicionar bastante o desenvolvimento do projecto. Mas não é o único problema. A capacidade de se obter financiamento foi também uma dificuldade que sentimos. Porém, nesta matéria, as coisas estão a compor-se e, neste momento, o financiamento está em vias de aprovação. Mas foi um processo difícil e complicado, cuja resolução apenas agora se está a vislumbrar.

Os capitais a investir ou investidos são privados ou contam com algum financiamento bancário?
Sim. Um projecto deste tipo tem de contar com essas duas fontes de financiamento. Não faria sentido fazer um projecto desta dimensão sem se conseguir usar capitais próprios, atrair capitais privados e financiamento bancário. Com projectos avultados há que gerir o risco e o custo de capital em simultâneo.

E em termos de parceria?
As parcerias são muito importantes para nós. Queremos, temos a ambição, de apoiar o desenvolvimento de toda uma fileira industrial relacionada com o sal que irá desde a produção de cloro, soda cáustica, detergentes até ao hipoclorito de sódio. Para tal, será necessário recrutar parceiros com know-how relevante. Existem já várias abordagens com parceiros, empresas internacionais altamente desenvolvidas e especializadas,mas também com investidores. Com efeito, cada vez somos mais procurados por investidores, dado o interesse e o mediatismo que este projecto tem vindo a merecer, os quais acreditam na rentabilidade e na viabilidade económica deste.

O sal viveu anos de “ouro” em Angola. Podemos em breve retornar a essa condição?
Como sabe, para que a actividade empresarial se desenvolva de forma transparente e sustentável, é necessário que haja políticas que permitam o desenvolvimento dessas actividades. Se não houver uma política que auxilia a produção nacional, então nunca conseguiremos regressar a essa época de ouro. Olhando para as últimas declarações do Senhor Presidente da República, que enfatizou a necessidade de desenvolvimento industrial endógeno, sobretudo, nos produtos que compõem a cesta básica, vemos com optimismo as mudanças que estão a ocorrer e que vão ajudar a que projectos deste tipo sejam uma realidade. De igual forma, e sem querer entrar em confronto com os importadores, julgo igualmente que chegou o momento desses grandes agentes da economia nacional começarem a investir no sector produtivo. Os importadores devem ser agentes activos na economia nacional, devem apoiar os produtos nacionais e olhar para a indústria nacional como o maior e principal fornecedor de bens. Assim, se estas condições forem cumpridas, acredito sinceramente que os anos de ouro voltem à região e ao sector.

Mas ainda temos muita importação para suprir o consumo nacional?
Sim. Conforme já referido, Angola importa quase dois terços do que consome, num total de 200 mil toneladas de sal. Considerando a nossa produção e o consumo total nacional, com facilidade percebemos que existe muita
margem de crescimento.

A vossa unidade vai ocupar que quota de mercado e como pensam contornar o défice e criar excedentes para exportar?
Os nossos estudos apontam para que seja possível cobrir 50 por cento do consumo interno, e, cerca de 100 mil toneladas por ano. Admitimos colocar o resto nos mercados externos, como exportação. De igual forma, queria relevar que o sector do sal está, actualmente, muito mais agressivo do que há alguns anos e vemos com optimismo, e de forma positiva, que existem outros produtores nacionais a investirem e a crescerem. Este movimento virá certamente contribuir para colmatar este défice que é, não só negativo para a economia nacional, como também não se justifica face às condições privilegiadas
de produção de sal.

Quais são os mercados preferenciais na perspectiva das exportações?
Os mercados preferenciais são os nossos mercados vizinhos, nomeadamente Congo, República Democrática do Congo, Zimbabwe, República Centro-africana e Nigéria, entre outros mercados
regionais relevantes.

Como tem contornado a problemática das divisas para importar máquinas e outros equipamentos?
A problemática das divisas é algo muito importante e crítico para o projecto. Veja bem, o nosso projecto, considerando a sua importância, os níveis de produção previstos no plano de negócios e as unidades industriais que irão surgir a montante e a jusante, em resultado do factor de arrastamento que trará, terá uma influência na economia angolana muito significativa. Actualmente, podemos adiantar que, com a escassez de divisas é possível que o projecto sofra algum atraso. Este é um grande constrangimento que estamos a sofrer. Mas acreditamos que as políticas que o Governo vai e está a desenvolver possam minorar este problema e que, de forma determinante, consigam apoiar o desenvolvimento da indústria nacional. Tanto mais quanto, como bem sabemos, o que não é investido no sector produtivo, será desviado para a importação. Sabemos que o Governo está empenhado em continuar o desenvolvimento da indústria nacional e que vê como prioridade a resolução deste problema.

Ao que se vê o senhor é um defensor acérrimo da eliminação ou diminuição substancial das importações?
Não há outra forma de ver este tema. Temos de valorizar a produção interna. Aquilo que podemos produzir localmente não podemos aceitar que se busque do exterior. Ademais, a importação tem de ser vista como um cancro que apenas corrói os nossos recursos em divisas e que neste momento já são escassas. Como tem dito e mais uma cito o Senhor Presidente da República, temos de alocar as divisas para os empresários industriais ou agrícolas que precisam de importar equipamentos para fomentar a produção interna. É por esa razão que estamos esperançados em melhores dias para os investidores nacionais no que diz respeito ao acesso as divisas.

Sal angolano

Angola produziu em 2015 cerca de 42 mil toneladas de sal, cifra que corresponde a 42 por cento da meta estabelecida no Plano Nacional de Desenvolvimento 2013/2017, revelaram dados do Ministério das Pescas.
Há um elevado optimismo no sector salineiro face aos investimentos realizados por algumas empresas, particularmente na província de Benguela, que expandiu consideravelmente as áreas de produção com a introdução de tecnologias mais modernas que permitem passar de uma produção artesanal para industrial.

Benguela
Os novos dados advogam que, em 2016, ter-se-á produzido acima de 60 mil toneladas de sal iodizado.
Para os próximo ano, perspectivando a finalização das obras e consequente entrada em funcionamento da Salinas do Tchiombe, poder-se-a passar, nos seis meses posteriores, a uma cifra de 200 mil toneladas só com esta salina da Baía Farta, em Benguela, que ocupa uma extensão de mais de mil hectares, passando assim a ostentar o título de o maior projecto salineiro de Angola.

Namibe
Namibe segue o mesmo caminho, até porque foi durante anos a hospedeira da maior salina de Angola no tempo colonial, a de Rocha Magalhães, hoje designada Angossal, e que possui perspectivas de alargamento da sua extensão para os 600 hectares de área produtiva.
Considerando a população angolana é estimada em mais de 24 milhões de habitantes, acredita-se que sejam necessários nos próximos anos cerca de 250 mil toneladas de sal iodizado, prevendo-se que 200 mil sejam para o consumo humano, animal e industrial e 50 mil para exportar.

O que é uma salina?
A salina é uma área de produção de sal marinho pela evaporação da água do mar ou de lagos de água salgada. O sal marinho formado na salina é uma rocha sedimentar química que tem origem na precipitação, quando esta sofre evaporação. As salinas, embora sejam um habitat artificial elaborado pelo homem, constituem verdadeiros santuários de biodiversidade, e permitem um equilíbrio notável entre o aproveitamento económico de um recurso e a conservação de valores naturais.