Entrevista

É preciso uma acção altruísta para Cabinda”

Além do petróleo, a província de Cabinda é rica em outros recursos naturais. Estas potencialidades uma vez bem aproveitadas podem, na opinião do economista e professor universitário, Elias Amaral Mingas Gomes, contribuir para que a região se torne numa placa giratória na região da África Central. Em entrevista ao Jornal de Economia & Finanças, o especialista mostrou-se preocupado com o número de empresas que estão inactivas a nível local, por culpa da situação macroeconómica que o país vive, mas ainda assim, defende mais proacção para se vencer as barreiras conjunturais.

Além do petróleo, a província de Cabinda é rica em outros recursos naturais. Estas potencialidades uma vez bem aproveitadas podem, na opinião do economista e professor universitário, Elias Amaral Mingas Gomes, contribuir para que a região se torne numa placa giratória na região da África Central. Em entrevista ao Jornal de Economia & Finanças, o especialista mostrou-se preocupado com o número de empresas que estão inactivas a nível local, por culpa da situação macroeconómica que o país vive, mas ainda assim, defende mais proacção para se vencer as barreiras conjunturais.

A província de Cabinda é rica em recursos naturais, mas que em nada reflectem no crescimento económico da região. Como economista, que políticas devem ser tomadas para que esses recursos possam contribuir de facto para o desenvolvimento local?
Para que isso aconteça é preciso que os nossos decisores tenham uma acção altruísta, transferindo as receitas geradas pelos recursos naturais para os sectores que estão numa situação de inactividade. Temos um sector petrolífero que comanda em termos de receita, mas temos outros improdutivos, porque não existe alocação de recursos para esses sectores da economia. Se fizermos a transformação estrutural que passa pela retirada dos recursos onde existem e alocar onde não tem, aí sim, estaremos a potenciar a economia local e aumentar o número de emprego. Sabemos que o sector petrolífero não é incentivo à mão-de-obra e emprega menos de um por cento da população activa, o que é pouco.

Quando se fala de Cabinda, pensa-se logo no petróleo e na madeira, mas esses sectores quase que não contribuem para o bem-estar da população. Que outros sectores da economia podem ser explorados para se mudar a ideia de que o desenvolvimento de Cabinda passa por esses dois segmentos?
O petróleo é um sector do enclave. É operado por muitas multinacionais e esses não têm compromissos com as localidades, mas temos outros que são potencialmente geradores de rendimento e de trabalho que podem ser aposta. Aliás, para o desenvolvimento da economia de Cabinda, aconselho o Governo a apostar nas potencialidades locais. Por exemplo, temos que olhar à nossa volta e ver aquelas matérias-primas, aqueles produtos locais que podem ser objecto de transformação e que possam gerar rendimento em toda a sua base produtiva, desde a extracção até a transformação. No caso do petróleo e da madeira, esses dois recursos deveriam ser objecto de transformação local, fazendo aquilo que chamo de agregação de valor, que significa em tirarmos rendimentos em todas as fases da produção desde, a extracção e a transformação. Isso geraria mais emprego. Hoje, temos um sector madeireiro em Cabinda, mas não temos uma serração condigna. Fizemos a extracção mas não fizemos a transformação, por isso a venda da madeira bruta deve acabar. Se queremos dar emprego a população temos que fazer tudo aqui, agregando valor naqueles produtos que temos condições de extrair matéria-prima.

A política de diversificação da economia pode ajudar a província de Cabinda a desenvolver-se, atendendo as terras férteis que possui?
Sim! Mas primeiro, temos que apostar nas potencialidades locais que deveriam ser exploradas e que estão inactivas. Infelizmente continuam a preferir em direccionar o nosso desenvolvimento, pensando no petróleo e nos diamantes. Temos muitas potencialidades a nível dos rios e podia-se apostar seriamente na piscicultura e na agricultura, como sabe, Cabinda tem terras aráveis. Existe um manancial de actividades que poderíamos investir para se gerir riqueza para a província, em particular, e o país, em geral. Não podemos só olhar para o mercado de Cabinda. Se olharmos a nossa volta, veremos que Cabinda poderia ser uma espécie de economia periférica dentro da economia angolana, porque temos dois países vizinhos a RDC e o Congo Brazzaville que compõem de cerca de 80 milhões de habitantes, ou seja, três vezes maior que a população angolana. Esses países não estão preparados e estão desorganizados, se formos produtores de verdade, temos consumidores para vender.

Com o funcionamento em pleno do Porto de águas profundas do Caio e do aeroporto Maria Mambo Café, acredita que a nossa economia vai crescer?
Sim. Porque é com muito agrado que temos ouvido pronunciamentos para a construção do novo porto internacional e do aeroporto internacional e se essas duas infra-estruturas estiverem a funcionar, estaremos em condições de transformar Cabinda num centro logístico da África Central, que possui cerca de 200 milhões de habitantes, onde poderemos vender os nossos produtos. Cabinda pode ser pioneiro a incentivar a internacionalização das pequenas e
médias empresas.

Existem obras em Cabinda que estão a ser executadas com a linha de crédito da China, como por exemplo, a ampliação do aeroporto local, porto de águas profundas do Caio, campus universitário, terminal marítimo, quebra-mar e centro administrativo de Cabinda. Esses projectos são suficientes, atendendo, o desenvolvimento que se quer para parcela do território nacional?  
Essas infra-estruturas pecam por estarem a chegar tarde, porque são muito aguardadas pela população e se queremos desenvolver, precisamos de infra-estruturas. Contudo, precisamos de criar outras condições para rentabilizar o aeroporto e o porto de águas profundas. Ao meu ver, termos um porto para importar e não para exportar é um desperdício para a província. Temos um parque industrial do Fútila que está inoperante há muito tempo, fala-se da sua implementação, mas nunca se concretiza e não existe fábrica neste pólo. Se tivermos fábricas para produzir e depois exportar seria bem-vindo o porto de águas profundas de Cabinda, agora, se tivermos um porto para importar e depois os contentores voltarem vazios não  faz sentido. Se estamos a investir temos que partir pela produção interna. Cabinda pode não ter condições para ser um centro de consumo, mas pode ser um centro de produção.

Temos que reconhecer que o Governo tem feito algum trabalho para mudar a imagem de Cabinda, com a construção de várias infra-estruturas socioeconómicas, e produtivas. Não acha que o Executivo deve apostar ainda mais nesta província, devido à sua descontinuidade geográfica com o resto do país?  
Faz sentido o Governo fazer mais do que fez até aqui. Mas infelizmente no nosso contexto, o Governo continua a ser o maior agente económico e a economia da província só se move quando existe despesas públicas. Reconhecemos que são importantes para que haja competitividade neste mercado mas o que acontece é que, quando existe, uma parte do empresariado local é marginalizado, ou seja, fica de fora e só beneficiam aqueles que estão conotados com o poder. Isso cria distorção
numa economia.