Entrevista

“Donald Trump terá que olhar para a África”

O novo Chefe de Estado norte-americano que toma posse hoje, sexta-feira, tem pela frente grandes desafios que são fundamentais para a estabilização das relações e credibilidade do sistema monetário internacional

Nos próximos quatros anos, além da imprevisibilidade do pensamento do Governo norte-americano, o mundo vai viver períodos difíceis da sua história, em parte porque ainda se desconhece a estratégia do novo presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, que toma posse hoje.
Esta é a visão do Reitor da Universidade Lusíada de Angola e analista de Relações Internacionais. Nesta entrevista exclusiva ao JE disse que os Estados Unidos  da América (EUA), depois da entrada ao poder do novo presidente, os primeiros seis meses serão determinantes para avaliar a política externa da sua administração e a forma como quer se relacionar com o mundo e se esta vai continuar a ser global ou se haverá um proteccionismo dos mercados, diante de um comércio mundial cada vez mais necessário para o equilíbrio mundial.      

Quais são os grandes desafios de Donald Trump e a sua administração?
O ano de 2016 foi, de facto, surprendido por dois acontecimentos diferentes:  a saída do Reino Unido da União Europeia e  as eleições nos EUA. Ninguém previu Trump como vencedor. Nessa altura, os mercados tiveram uma reacção negativa. Depois de alguma ponderação, voltaram a registar fortes valorizações. Penso que o Trump tem como principal desafio moderar o seu discurso, recuperar a confiança do sistema financeiro internacional, as relações bilaterais, multilaterais e as relações internacionais no geral.    
Na verdade, espero que depois da sua tomada de posse, apareça com um novo discurso, moderado e com palavras de um verdadeiro líder. Dizem os grandes analistas que todos os impérios que tentaram desafiar o mundo perderam, oque  significa que se Trump ir por esta via pode ser desastroso para a política externa norte-americana e para o mundo. Espero que paute por ter uma política de “Soft Power” e não “Hard Power”,  e que acima de tudo saiba negociar.
 
Mas a moderação não parece ser uma característica pessoal do novo inquilino da Casa Branca...
Quando me refiro a uma política de “Soft Power”, com as competências que tem como Presidente, deve saber conciliar os interesses com o Congresso, Senado e os seus principais conselheiros, no caso o Conselho de Segurança Nacional e os Chefes Supremos das forças armadas, para obter uma visão mais estadual e não imperial. Ele pode congregar os interesses dos EUA e sair-se bem.

E como é que isto pode ser visto do ponto de vista geopolítico e geoestratégico?
Se olharmos por áreas geopolíticas, a primeira questão que se levanta, é como Trump e a Reserva Federal norte-americana vão se relacionar com o sistema monetário e financeiro internacional, porque vários investidores vão querer continuar a investir naquele país, por ser estratégico e importante na geoestrátegia global. Mas, se houver uma política restritiva, de proteccionismo, a relação dos EUA com o resto do mundo pode ser má. Repare, se não permitirem que os produtos alheios entrem no seu território, os outros países também vão fazer o proteccionismo.
E, hoje, vemos que o mercado europeu, o asiático, fundamentalmente, que é o mercado mais competitivo do mundo tem  um peso incalculável na sua economia. Se olharmos para a China no mundo e a Índia, por exemplo que está a crescer mais que a China ou os outros países da Ásia, que ocupam cerca de 60 por cento da economia mundial, vamos ver que a relação que os EUA vão ter com aquela parte do globo, sobretudo com a China, é fundamebntal. O proteccionismo não é bom, nem para os EUA, nem para nenhum outro Estado. A política de retaliação é desastrosa.

E como os EUA vão se posicionar frente a podesora Rússia?  
A questão da Rússia nesse contexto, apesar dos problemas económicos e sociais internos, não se pode esquecer que é hoje se não a maior potência militar, até nalguns casos ultrapassa o próprio EUA. Neste sentido, pode haver uma paridade do ponto de vista militar. Mas os esses dois Estados têm uma responsabilidade grande no sistema segurança global, e se não se entenderem, adoptando uma política hegemónica do sistema internacional, claro que vai existir muita conflitualidade, porque a Rússia tem hoje um peso estratégico em algumas regiões do mundo, como no Médio Oriente, no Báltico, Ucránia e na chamada Euroásia, que faz toda diferença.
A nova política de Trump não deve ser de hostilização da Rússia, mas deverá ir à busca de soluções para os grandes conflitos mundiais, que começaram sobretudo em 2001, com a estratégia errada de George Bush. Espero que este Presidente tenha uma política de aproximação à Rússia, levantando as sanções económicas, e porque até tem projectos estratégicos comuns ligados a exploração do espaço. Seria importante que não entrassem numa guerra fria, mas que existisse uma política de cooperação.

E com a Europa, o que se perspectiva?  
Os EUA desde 1971-1972, no tempo de Richard Nixon e Henry Kissinger, que tinham adoptado a chamada política externa do “pingue-pongue”, que é o amigo do meu inimigo, meu amigo é, naquela altura, a China tinha divergêcias com a Rússia sobre a verdadeira criação da Nação socialista. Essa contradição entre o modelo maoista e leninista levou ao afastamente entre esses dois países e foi nesta altura que os EUA fizeram uma aproximação vantajosa com a China, tornando-se, em 1971, membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o que lhe permitiu proceder reformas económicas e 40 anos depois, tornou-se na maior economia mundial.

Então qual deve ser o posicionamento do novo presidente com a China por exemplo?  
Em função do que disse anteriormente, penso que o novo presidente não pode ter um discurso que mina as relações com a China, porque se não cria desde logo clivagens entre os dois países, que pode prejudicar as relações bilaterais e o apaziguamento de algumas regiões da Ásia onde a China tem grande influência.

Nas duas semanas que antecederam a tomada de posse foram marcadas por críticas de Donald Trump à política migratória europeria. Ele tem legitimidade para as fazer?
Essa postura é um grande erro. Penso que Donald Trump deve mudar a sua forma de se comunicar com o mundo. É claro que ele tem razão num aspecto, que os europeus não gostam de fazer guerra, contribuem pouco para o orçamento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), onde os EUA têm a maior quota de contribuição, mas essa organização é importante porque faz o equilíbrio geoestratégico da Europa com a Rússia. Apesar de falar que está obsoleta, afirma que manterá o compromisso. Se não se manter, a Europa ficará à mercê da Rússia, porque não tem o peso e a capacidade tecnológica dos EUA. Também concordo com ele quando afirma que OTAN precisa ser reformulada e pede que a Europa avance com o seu exército, que está em todos os tratados, mas nunca saiu do papel.

Ele tem ou não razão em críticar os países da União Europeia?
A Europa é uma comunidade e o Governo americano não tem competência para criticar a política interna e externa da UE. A questão da vaga de refugiados foi causada pelos norte-americanos. A culpa deste todo processo chama-se Bush, por causa do 11 de Setembro e o problemas das armas químicas e biológicas no Iraque e os terroristas no Afeganistão. Isso criou o problema na Tunísia, Líbia e na Síria. Os americanos, ingleses e franceses é que são os culpados por este conflitos que obrigou os refugiados a irem para a Europa. Angela Merkel, considerada a senhora europeia, criou uma espécie de sentido de protecção da vida por uma questão de direitos humanos. É que claro que correndo o risco de no seio desses refugiados serem infiltrados terroritas. É melhor essa política de abrir as fronteiras do que deixar as pessoas morrerem.

E do ponto de vista económico, como olha para a relação entre os EUA e a União Europeia?   
Também haverá problemas. A primeira grande questão tem a ver com a revisão dos acordos comerciais actuais, que gera uma guerra comercial, porque estes subvencionam os agricultores europeus, causando uma concorrência desleal de produtos. Então, a Europa está contra está subvenção interna que fazem com os seus agricultores. Certamente que vão continuar a negociar esse acordo, que até agora não se conseguiram grandes passos.
O presidente Trump terá que escolher se prefere entrar de forma musculada na Europa ou se quer sentar-se à mesa das negociações para um entendimento que privilegie o comércio transantlântico.
 
Como antevê as relações entre Donald Trump com os países africanos? O que que se pode esperar?   
Donald Trump começou primeiro por fazer acusações muito duras aos líderes africanos sobre a corrupção, a má gestão da coisa pública e a política dos seus países e com esses problema todos, acha que os africanos não precisavam de ajuda externa. Acredito que vai mudar a sua visão com relação à África, porque os EUA têm alguns compromissos com o continente que são estratégicos.
A américa não esteve ligada ao continente africano durante muito tempo. Foi com Bill Clinton, que aconteceu a mudança de paradigma, passando estes a criar  programas de oportunidades de negócios, com políticas e incentivos que colocam os produtos africanos nos EUA. Acho que a cooperação não vai ser alterada e espero que se mantenha a política americana de financiamento aos programas de combate à malária, a sida e tuberculose.
Por exemplo, Angola recebeu, recentemente, uma verba de reforço de quatro milhões de dólares para o programa de desminagem. É um bom sinal. Espero que esses programas ligados sobretudo à saúde possam não deixar de existir, por serem estatais e importantes para o continente.

Com a África parece haver a maior preocupação?
Penso que não! Há um outro programa de incentivo aos empresários americanos em investir no continente, que também deve ser mantido. Porque a África é um continente do futuro, com muitos recursos minerais estratégicos. Quanto mais a américa estabelecer parcerias estratégicas maior  desenvolvimento vamos continuar a ter a presença dos EUA.

As questões que têm a ver com a democracia em África também vão merecer da nova administração uma particular atenção. O que acha que deve acontecer?
Estou de acordo que devem continuar a fazer pressão para que os processos democráticos que estão acontecer em África possam ser cada vez mais consolidados, mais transparentes no que toca principalmente à gestão da coisa pública e que possa haver menos corrupção, que tem dilapidado os países africanos. Com essa pressão feita, penso que será bom. Não acredito que os americanos fechem os olhos ao continente africano.
Aliás, os EUA têm estabelecido algumas parcerias fundamentais com África Subsariana, como é o caso de Angola, Nigéria, África do Sul, Senegal, Quénia, Tanzânia e outros, que são países estratégicos. Há também a boa relação que existe com União Africana, que vai poder monitorar os processos de transformação das políticas africanas que o continente mantém e precisa continuar a consolidar com o apoio dos EUA.

Angola no caso pode estar descançada?
Já não estamos na época da guerra fria. Somos hoje um país soberano, independente, que não está na órbita de ninguém. Estamos a iniciar um novo ciclo, que a partir de Agosto com as eleições, a transição política vai ser de continuação no estreitamento das relações bilaterais. Temos empresas americanas a explorar petróleo no nosso mar, como outras que estão interessadas noutros sectores. Há um grande interesse do mundo em relação ao continente africano e de multinacionais que procuram oportunidades de negócios em Angola, nos domínios da banca, petróleos, agro-indústria, transportes e em outras de interesse nacional estratégico que estão abertas aos investimentos.
Penso que não haverá muita alteração da política externa americana com a Angola. O que pode acontecer sim é uma maior parceria dos programa que estão a ser hoje implementados ou uma certa pressão para que haja maior transparência na gestão dos nossos bancos comerciais. A relação com o banco emissor e o central angolano deve igualmente melhorar, cumprindo o que está estabelecido nos acordos de Basileia 1 e 2, que apela à transparência, o combate ao terrorismo e ao branqueamente de capitais. Se Angola tiver um sistema financeiro que seja transparente e crédivel, creio que não terá conflitos com a nova administraçao americana.

O novo presidente toma hoje posse com os níveis de popularidade muito aquém do esperado, acha que vai recuperar a sua credibilidade?
Donald trump é um presidente imprevisível. Acho que foi um actor inteligente durante a campanha, mas agora é hora da realidade. Acho que vai mudar o seu comportamento durante o  mandato. Se não mudar, os EUA podem perder a sua credibilidade internacional. Mas acredito que como presidente ele vai consequir elevar o seu nome, porque está a receber uma boa herança de Barack Obama, com altos índices de emprego, estabilidade da indústria automóvel e coesão do povo americano. O ex-presidente deixa uma América mais estabilizada e mais reconciliada. Ele veio dividir com os seus discursos e atitudes e, por isso, tem uma árdua tarefa pela frente. Sabemos que a sociedade está contra ele. Para mudar esse quadro, tem que alterar o seu comportamento e creio que conseguirá.
 
Existe ainda a questão do México, de Cuba, da América Latina e do Brasil. Que cenário se avizinha?
A relação com o México continuará a ser cordial e não musculosa.  Por exemplo, o presidente mexicano já disse que não vai pagar a construção do muro, o que pode abrir um ponto de tensão, mas não afectará as relações. Existe ainda  o  Tratado Norte-americano de Livre Comércio (NAFTA) que envolve três países, os EUA, Canadá e México e esse acordo quando surgiu era para relançar a economia destes países para contrapor o mercado da União Europeia e o asiático, e isso funcionou. Não é agora que vão desistir.
Com relação à Cuba, seria um erro grave da administração se voltasse atrás. A indústria farmacêutica cubana é benéfica para os EUA. Portanto, eventualmente que vai perder mais os cubanos, devido ainda ao turismo. Cuba só precisa modernizar a sua economia, abrir-se mais ao mundo e integrar-se na economia de mercado. As re+lações com o Brasil também não sofrerão grandes alterações, embora exista um conflito de transferência de tecnologia. Não podemos esquecer que o Brasil é a maior potência da América do Sul.
No que diz respeito à América Latina, as relações não vão se aletarar muito, o que pode alterar mais é com a Venezuela e com o chamado núcleo socialista, onde estão países como o Equador, Bolívia, Nicarágua, que podem vir a sofrer mais pressões mais do que o normal, por serem antí-americanos e vir a existir uma política de estabilização destes países pelos EUA.