Entrevista

“Devemos ter a liga de futebol, pois com ela os clubes terão muitos benefícios”

O presidente do Petro de Luanda é de opinião que devemos ter a liga de futebol, pois com ela os clubes terão muitos benefícios que virão da publicidade, direitos audiovisuais, bem como diferenciação na contratação de atletas no mercado.

O presidente do Petro Atlético de Luanda, Tomás Faria, explica os contornos da sua gestão à frente da agremiação desportiva com mais títulos em Angola. O contabilista diz que a gestão económico-financeira de uma organização desportiva como é óbvio não diferencia muito do tecido empresarial comum, todavia, há ligeiras diferenças, por exemplo na contratação do principal activo (atleta), não há concurso público, não se faz na base de um custo competitivo, aqui a qualidade dificilmente casa com o menor custo e a qualidade é escassa. Então contrata-se na base daquilo que pode influenciar positivamente os corações dos adeptos, pois são estes que trazem receitas para os jogos.

O Petro completou 40 anos. Mantém-se um clube robusto financeiramente?


O termo robusto financeiramente pode ter várias interpretações. Prefiro dizer que tem condições financeiras para competir (lutar pelos troféus) nas três modalidades nucleares (Futebol, Basquetebol e Andebol Feminino). Agora, falando do ponto de vista contabilístico sim, é robusto, porque está organizado, teve nas contas de 31-12-2018 e, pela primeira vez na sua história, o relatório de auditoria com opinião sem reserva, facto que não é comum no sistema desportivo angolano.

O que é isto de gestão económico-financeira de uma organização desportiva?


A gestão económico-financeira de uma organização desportiva como é óbvio não diferencia muito do tecido empresarial comum, todavia, há ligeiras diferenças, por exemplo na contratação do principal activo (atleta), não há concurso público, não se faz na base de um custo competitivo, aqui a qualidade dificilmente casa com o menor custo e a qualidade é escassa. Então contrata-se na base daquilo que pode influenciar positivamente os corações dos adeptos, pois são estes que trazem receitas para os jogos. Além do facto de que a qualidade é relativa, um atleta pode ser bom numa determinada equipa, mas não adaptar-se à outra, pois existem muitos factores que influenciam (adeptos, novos colegas, filosofia de treino/jogo, etc.). No final de tudo é gestão de emoções, porque a competitividade de custos é no sentido de quem dá mais.

Para o sucesso de uma organização financeira desportiva há pressupostos primários a respeitar: elaboração de um fluxo de caixa; planeamento e elaboração orçamental com a finalidade de tomar decisões de curto, médio e longo prazo. Está a faltar isto aos nossos clubes?


Não conheço a realidade de outros clubes do nosso mercado. Logo, não posso comentar. No Petro, nós actuamos com base nos instrumentos de gestão (Plano estratégico, Plano anual, Orçamento, Indicadores de desempenho, Plano de Caixa e avaliamos o desempenho. Isto tem ajudado no estado desportivo das nossas equipas, pois quando a base está boa, a estrutura funciona.

A indústria desportiva representa de 2,0 a 3,0 por cento do PIB em nações desenvolvidas. Em Angola, que representação tem o desporto no PIB nacional?


Em Angola, o dinheiro que sustenta o desporto ainda não vem deste, é uma situação a inverter. Logo, apesar de faltar informação, os números devem estar muito abaixo de 1,0 por cento.


Quais as razões e como encontrar soluções?

Uma das razões deve-se a não profissionalização do futebol e a criação de uma Liga para gerir a competição. Particularizo o futebol, porque é a modalidade que dá a maior receita. As soluções passam por alterar o formato actual, porque a fonte de receitas dos grandes clubes é o Estádio, direitos audiovisuais e Marketing. Claro que precisamos ter um bom produto (boa equipa) que vende. Mas um bom marketing à volta da competição é o principal garante da afluência do público aos jogos, bem como para os publicitadores, é por isso que uma Liga pode vir a impulsionar a situação actual. Senão vejamos; a Europa é fria e chove durante o ano todo. Têm luz permanentemente, mas os Estádios na maior parte dos países enchem, logo, havendo um clima melhor no nosso país também deveríamos ter sempre casa cheia.

Desporto contribui bastante para o emprego

No Brasil, país em desenvolvimento, essa participação é estimada em cerca de 2,0 por cento, ou r$ 40 biliões, e é responsável pelo emprego de mais 320 mil pessoas. Em Angola, a questão do desemprego é gritante. Que papel o desporto pode exercer, já que parece que tudo gravita à volta do desporto?  
No que concerne ao emprego, o desporto angolano contribui bastante. É verdade que tem havido reclamações de pagamentos aos desportistas, mas há muitos atletas, treinadores ao nível dos diversos escalões que encontram emprego no desporto.



Definindo a indústria desportiva como sendo o mercado no qual os produtos oferecidos aos interessadosse relacionam ao desporto, ao fitness, à recreação ou ao lazer e outras, que papel pode desempenhar o sector público e o privado?


Vejo o desporto no grupo do entretenimento. A única diferença é que enquanto um assistente (adepto) de um clube pode ficar sem almoçar ou jantar porque a sua equipa perdeu, ao assistente do cinema isto não acontece. O sector público deve cuidar da legislação do sector desportivo, do apoio à massificação e o privado irá naturalmente aparecer como parceiro, pois necessitará publicitar os seus bens ou serviços.

Que relação se pode estabelecer entre o turismo e o desporto, ou seja, até que ponto algum insucesso desportivo obstaculiza o sucesso financeiro ao turismo?


O desporto é um bom atractivo para o turismo, isto pode-se ver quando são realizados os grandes eventos continentais e mundiais (jogos olímpicos, mundiais de várias modalidades, etc.), logo, o sector hoteleiro deveria cobrar aos seus clientes uma taxa que canalizaria para o sector do desporto, um pouco à semelhança da taxa municipal. Hoje vê-se como o pessoal da Ásia vai muito a Barcelona e não só fazer turismo, os hotéis beneficiam mas graças ao desporto, logo, sendo uma fonte das suas receitas devem contribuir para o seu desenvolvimento.  

As organizações desportivas, dessarte, são entidades sociais envolvidas na indústria desportiva e, como tal, devem ser administradas por profissionais preparados e especializados na gestão dos diversos recursos organizacionais (financeiros, físicos, humanos e tecnológicos). Que visão tem à respeito?


Sem dúvida que para gerir um clube é necessário profissionais dos sectores que referiu, porém, é necessário ter domínio desportivo. Por exemplo, numa equipa todos contribuem para o mesmo objectivo mas, há atletas que ganham às vezes o triplo dos outros, porém, deve-se fazer jogar a equipa com estas diferenças. No desporto utilizamos o guião salarial que é diferente do sector empresarial. Aqui deve-se dominar muito os aspectos ligados à motivação.

Neste contexto, que papel se deve atribuir à gestão financeira de organizações desportivas como o Petro, D´Agosto até um 1º de Maio?


A gestão financeira dos clubes não visa o lucro em primeiro lugar, visa atender o aspecto desportivo. Por exemplo, podemos ter casa cheia num jogo e com isso arrecadar muito dinheiro na bilheteira mas, se perdermos o jogo os adeptos não ficarão satisfeitos, porque o fim é desportivo, a parte financeira aparece em segundo plano.

Sem uma organização plena, não se pode falar de engrandecimento com clubes como Santa Rita. Há nestes clubes, ditos pequenos, boa planificação financeira?


Não conheço a realidade dos outros clubes mas, nos casos em que não assistimos reclamações indicia alguma estabilidade. É verdade que no nosso mercado as equipas que mais trabalham na base, por vezes emprestam aos pequenos atletas que não têm espaço nas suas equipas principais e assumem o salário, logo, estes clubes podem com isto ter estabilidade. Isto por quê? Porque ao gestor financeiro cabe, em última análise, desenvolver e implementar estratégias empresariais que visam o seu crescimento e a melhoria da sua posição competitiva. Ao gestor financeiro cabe a responsabilidade pela eficiência financeira. Temos insuficiência neste campo e daí a fragilidade do Girabola e outras modalidades. Sendo um mercado muito fechado apenas posso falar do Petro Atlético e de algumas Federações onde tenho estado em assembleias. Posso afirmar que há Federações que nem sequer contas no verdadeiro sentido têm, fiquei admirado a primeira vez que vi tal situação. Sinceramente é inconcebível.



O conhecimento das actividades do gestor financeiro, bem como das principais decisões e objectivos ligados à sua actividade, no caso asdesportivas, não acha serem de fundamental importância para a manutenção e melhoria da performance uma boa organização e gestão dos clubes? Parece faltar?


Claro que sim. Sem as bases na área financeira fica difícil gerir e liderar o clube. Por algumas reclamações que se assistem no mercado, sinto que é a falta de bases que muitas vezes cria dificuldades a muitos clubes. Nós no passado também tivemos dificuldades, hoje estamos melhor, todas as possíveis fontes de receitas são aproveitadas e há quem as deixa de fora por não saber.



Que fórmula ou soluções financeiras para os nossos clubes, se tivermos em linha de conta que a desqualificação do Maio tem muito a ver com as debilidades no campo financeiro?


Aqui principalmente, devemos ter a liga do futebol, pois com ela os clubes terão muitos benefícios que virão da publicidade, direitos audiovisuais, bem como diferenciação na contratação de atletas no mercado.



Disse há dias que o rendimento do futebol deve vir do futebol, citando a última supertaça espanhola. O que nos falta para transformarmos o nosso desporto numa verdadeira actividade lucrativa?


Como referi antes, falta ter uma liga e profissionalizar o futebol e basquetebol que são as modalidades que dão receitas aos clubes. Têm luz permanentemente, mas os Estádios na maior parte dos países enchem, logo, havendo um clima melhor no nosso país também deveríamos ter sempre casa cheia.

A trajetória do clube Petro Atlético de Luanda 

40 anos
Estão a ser comemorados pelo clube, que foi fundado a 14 de Janeiro de 1980

15
Títulos de Girabola já conquistados pela equipa de futebol

3
São as modalidades principais do clube, designadamente Futebol, Basquetebol e Andebol

40 mil
Número de espectadores que se pretende acomodar no futuro estádio de futebol ainda sem data marcada para o seu arranque

50
São os treinadores de Angola que frequentaram, este mês, uma formação de iniciativa do clube em aprceria com o FC Barcelona de Espanha, nas comemorações do seu aniversário

5
Títulos consecutivos já conquistados pela equipa de futebol que a torna na única pentacampeã nacional até o presente momento