Entrevista

“A antiga PCA foi o problema”

O jornalista e investigador, José de Oliveira, em entrevista exclusiva ao JE, é da opinião de que a Sonangol tem de se reestruturar, começando por deixar de ter negócios que não estejam ligados à actividade petrolífera, o que na maioria dos casos não é muito difícil.

O jornalista e investigador, José de Oliveira, em entrevista exclusiva ao JE, é da opinião de que a Sonangol tem de se reestruturar, começando por deixar de ter negócios que não estejam ligados à actividade petrolífera, o que na maioria dos casos não é muito difícil. Segundo ele, e como o Estado ainda há pouco tempo lá meteu dinheiro e se calhar vai ter de lá pôr mais, até as questões de compensações financeiras dos negócios a retirar à Sonangol ficam facilitadas.

Isabel dos Santos foi um problema ou uma solução para a Sonangol?
Quando a Administração presidida por ela tomou posse havia uma grande expectativa, em especial das companhias operadoras e não só. Que a empresa ia melhorar os seus métodos de trabalho. Mas, pouco tempo depois todos se aperceberam que a única tecla na função Concessionária era baixar custos a toda a força. A maior parte da atenção era voltada para a gestão empresarial das dezenas de filiais do grupo Sonangol que pouco tem a ver com a função concessionária que é a mais importante da companhia nacional.
Por outro lado internamente a sua gestão não soube cativar os técnicos e actuou como se tivesse entrado “em terreno inimigo” o que é uma falha de gestão quando se pretende mudar os métodos de trabalho duma grande empresa que tem muitos quadros competentes.
A estes dois aspectos acrescente-se a centralização que ela impôs tirando capacidade de decisão aos seus colegas da Administração, o que acabou por gerar a demissão dos dois membros mais competentes e conhecedores da indústria petrolífera que se ocupavam da função concessionária que ela bloqueou.
Em suma, a antiga PCA poderia ter sido parte da solução mas foi o problema que levou as companhias operadoras a pedirem, pela primeira vez, na história de Angola, uma entrevista colectiva ao Presidente da República, para lhe exporem as questões prementes que têm de ser equacionadas para que a indústria petrolífera funcione dentro dos parâmetros normais.

A gestão de Isabel dos Santos conseguiu baixar os custos de produção do barril em Angola?
Quem baixa custos de produção ou de operação de petróleo são as operadoras. A Sonangol o que pode é pressionar ou ajudar, o que foi fazendo. Inclusivamente iniciou um processo que considero muito positivo de começar a pagar parte das suas contribuições, nos blocos onde é investidora, em moeda nacional. Os custos de produção dependem muito dos custos dos equipamentos e de serviços petrolíferos de acordo com a evolução do mercado internacional e aqui só o tempo dirá o que se vai conseguir em futuros desenvolvimentos.
As companhias operadoras conseguiram sim baixar os custos de operação – são os que dizem respeito às despesas do dia-a-dia da produção de petróleo – de US$8.45/barril em 2014 para US$7.62/b em 2016. Espera-se que este ano venham para menos de US$7.50 por barril. Os nossos custos de produção são elevados por serem dependentes de investimentos em águas profundas, mas os de operação são bons a nível mundial.

As petrolíferas queixam-se do excesso de burocracia na Sonangol. O que provoca este aspecto no desenvolvimento na indústria petrolífera?
Em poucas palavras atrasa ou complica o dia-a-dia da actividade, aumentando custos pelo maior tempo despendido a resolver as questões. Este é um dos problemas que há muito dentro da Sonangol se tem a noção que tem de ser resolvido.

A nova Administração é a solução?
A nova equipa de gestão da Sonangol tem já um desafio pela frente que é negociar com as companhias o que foi acordado com base nos trabalhos da Comissão nomeada pelo PR que acabou a recolha de problemas e exigências há semana passada. E como ela é dirigida por um hábil e experiente negociador – Carlos Saturnino foi mais de dez anos Director de Negociações da Sonangol – podemos estar certos de que as companhias não vão precisar outra vez de pedir uma entrevista colectiva ao Presidente, pois a função concessionária vai voltar a ser exercida. E espero que se aproveite para eliminar desde já alguns aspectos burocráticos da concessionária.
Agora em termos globais a nova administração tem de motivar os responsáveis a todos os níveis da sede e de todas as empresas afiliadas, a melhorarem desde já os seus procedimentos e a tomar sempre decisões, analisando o custo/benefício de cada uma, prática muito esquecida em todo o grupo, que motivou críticas dos consultores da BCG quando se deparam com gestores individualmente competentes mas descurando esse princípio elementar de gestão. Esta doença, de não fazer contas antes de decidir que não é só da Sonangol, eu diria que é nacional, foi agravada, nos últimos anos, com os altos preços do barril. E pode-se dizer que a ausência de uma boa gestão foi a principal causa das derrapagens da Sonangol levando-a para uma crise financeira de que ainda não se recuperou.
Portanto em termos de empresa nacional temos de esperar para ver o que a nova gestão consegue melhorar.

A restruturação da empresa impõe-se? Acha que a Sonangol deve manter áreas de negócios fora do petróleo?
Acho que a Sonangol tem de se reestruturar, começando por deixar de ter negócios que não estejam ligados à actividade petrolífera, o que na maioria dos casos não é muito difícil. E como o Estado ainda há pouco tempo lá meteu dinheiro e se calhar vai ter de lá pôr mais, até as questões de compensações financeiras dos negócios, a retirar à Sonangol, ficam facilitadas.
Agora em termos de se seguir ou não o modelo que os consultores contratados em 2015 esboçaram para o grupo Sonangol, há que analisar as possibilidades da sua implementação a médio prazo.
Pessoalmente gosto do modelo que é original a nível mundial, isolando a função concessionária de todos os negócios – a única excepção é a manutenção do Bloco 0 que pode ser resolvida quando se renegociar a Concessão de Cabinda dentro de alguns anos – pecando apenas pela criação da Agência Nacional de Petróleos. Com a Sonangol Concessionária isolada de negócios ela passa apenas a ter a função de árbitro na indústria, pelo que não é preciso um segundo árbitro, a Agência. Coloque-se a funcionar melhor o que existe e deixemo-nos de criar instituições novas que não vão ter técnicos suficientes para funcionar, ficando assim dependuradas na consultoria que nos custa milhões de dólares/ano.
Outros aspectos que têm de ser equacionados pela nova administração quanto antes são os que dizem respeito ao aproveitamento dos bons técnicos que têm estado em casa, e são uma dezenas, e de muitos reformados que com a sua experiência e competência podem ajudar a empresa a melhorar o seu funcionamento.
Importante também dar-se seguimento imediato ao estudo de redução de pessoal, com pré-reformas, que a anterior administração elaborou pois haverá muitas áreas com trabalhadores a mais.

Ainda se pode considerar a Sonangol como uma empresa credível no mundo do petróleo?
A Sonangol atingiu o pico do seu prestígio internacional ao fim de cerca de 20 anos de funcionamento. Depois manteve-o por algum tempo, mais por crescimento da indústria petrolífera em Angola, do que pelas suas práticas de funcionamento, nomeadamente, da função concessionária. Ao longo dos últimos anos esse prestígio foi-se perdendo em paralelo com a baixa de eficiência da empresa que culminou na crise financeira em 2014 e que continuou a agravar-se com a gestão agora demitida.
Cabe agora a difícil tarefa à nova administração de tentar recuperar pelo menos parte desse prestígio, lidando correcta e francamente com os seus parceiros, nacionais e estrangeiros e trabalhar para que a crise financeira em que a empresa vive seja o mais rapidamente possível saneada, a fim do grupo Sonangol deixar de ser um mau pagador das suas obrigações contractuais. A anterior administração parece ter diminuído a dívida externa da empresa, o que pode abrir uma possibilidade de ela contrair novos empréstimos para reduzir as colossais dívidas de “cashcall”, nos blocos onde é investidora e a fornecedores de serviços e bens.

A solução do desenvolvimento do país ainda passa pelo petróleo?
Menos do que anteriormente pela simples razão de que os anos dourados da renda petrolífera, quando o barril andava pelos 100 dólares, não devem voltar, mesmo que os preços subam no futuro para valores idênticos, porque hoje os custos de colocação em produção são mais elevados que nos anos 90.
O desenvolvimento do país, a médio prazo, em termos de geração de riqueza, quanto a mim, passa pelo aumento da produção agropecuária – Angola tem de passar a comer nacional e, por exemplo, deixar de importar carne porque pode abater animais do grande parque pecuário do sul do país – e pelo lançamento da indústria mineira, que depende do investimento estrangeiro, já que o país tem vários recursos além dos diamantes. Um dos problemas mais complicados de resolver é o do aumento da produtividade, pois ela, em Angola, é uma das mais baixas do continente africano e na África Austral está muito longe dos índices dos países vizinhos. A baixa produtividade inviabiliza quase por completo o estabelecimento de indústrias de exportação com competitividade para os mercados vizinhos da África Austral.
A longo prazo o desenvolvimento de qualquer país depende em grande parte da qualidade de educação dos seus cidadãos e, depois, da saúde pública e aqui nós estamos muito mal e ainda não começamos a trabalhar a sério para inverter esta situação. O fraco nível da nossa educação, primária, secundária e universitária – com raras excepções – vai ser um travão ao pleno desenvolvimento do país, nas próximas décadas.

O petróleo não é um recurso renovável. Faz sentido investir-se noutras fontes energéticas?
Faz todo o sentido e é isso que se está a fazer embora, em meu entender, não da melhor forma, porque estamos a concentrar todos os grandes investimentos da energia na bacia do Kwanza, no norte do país, quando devíamos, após Laúca, investir noutras barragens mais pequenas, mas nalguns casos, aumentando o rendimento de investimentos anteriores. Um exemplo é a barragem de Cacombo no rio Catumbela para regularizar o caudal no tempo seco de forma a que o Lomaun pudesse produzir a mesma quantidade de energia ao longo do ano. Sem Cacombo o Lomaun não tem água para gerar energia de acordo com a sua capacidade durante metade do ano!