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Vieira Lopes prevê inflação

As reacções de vários economistas ao Programa de Estabilização Macroeconómica (PEM) apresentado na quarta-feira, em Luanda, pela equipa do Governo reflectem algum sentimento de desconfiança e incertezas para com as medidas.

As reacções de vários economistas ao Programa de Estabilização Macroeconómica (PEM) apresentado na quarta-feira, em Luanda, pela equipa do Governo reflectem algum sentimento de desconfiança e incertezas para com as medidas.
O economista Precioso Domingos entende que uma decisão corajosa do Presidente da República seria a de contratar uma auditoria externa à dívida pública, pois entende que possa existir muita dívida injusta, que ele mesmo explica como sendo uma dívida contraída, mas que não foi aplicada em benefício da economia nacional.
Precioso Domingos, que é ainda docente universitário e investigador do Centro de Estudos da Universidade Católica de Angola, diz, por outro lado, que o Programa de Estabilização Macroeconómica vai encarecer a vida dos cidadãos por via do que se está a chamar de depreciação, pois, na verdade, o kwanza será desvalorizado por via da perda do poder de compra da moeda, ainda que isso ocorra de forma mais lenta e progressiva.
“O efeito é o mesmo. A intenção do Governo é não alarmar o mercado. É preciso admitir que a medida não é má, mas também não é dócil”, disse.
Uma forma de menorizar o custo dessas medidas, na sua opinião, seria se a política orçamental privlegiasse o controlo da despesa. Para o economista, as famílias devem, a partir de agora, reduzir as despesas e substituir mesmo alguns bens por outros de menor custo.
Já o economista Fimoleno Vieira Lopes, também investigador do CEIC da Universididade Católica de Angola, disse que as medidas mais mediáticas relacionadas com a contenção da despesa pública, o aumento da receita pública e o equilíbrio da taxa de câmbio oficial e do parelelo são a retirada do subsídio aos combustíveis, a formalização do informal e o alargamento do imposto predial e a “flutuação da taxa de câmbio”, respectivamente.
O investigador social disse ainda que a conjugação das medidas da redução dos subsídios aos combustíveis e a da flutuação da taxa de câmbio ocasionarão ao certo a inflação que, no contexto actual, pode mesmo chegar a híper-inflação, uma vez que a diferença entre a taxa do mercado oficial e paralelo é grande. Será muito difícil esperar que as medidas de política monetária, em sentido adverso, possam contrariar no imediato essa propensão inflacionista, pois o Executivo também pretende acautelar o crescimento económico, libertando o crédito. A generalidade dos produtos tenderá a subir no período de 3 meses desde os transportes públicos, a alimentação e bebidas e mesmo os serviços. A população poderá ter acesso ao dólar, mas ao novo nível da taxa de câmbio.
Para ele, embora a flutuação cambial vá no sentido de produzir uma taxa de câmbio real que equilibre o poder de compra interno com o externo, a verdade é que, não estando a grande maioria dos salários indexada ao dólar, o poder de compra vai diminuir drasticamente, no curto prazo, o que é grave num contexto de pobreza. Disse ainda que aplica-se o termo depreciação porque o regime de taxa flutuante é livre e provocará de forma automática, no mercado cambial local, uma depreciação da moeda. Não se trata d uma “desvalorização administrativa”, situação que apenas ocorrerá após a normalização cambial com a referida banda cambial.
Na visão do economista Carlos Rosado de Carvalho, o BNA já devia ter alterado há muito tempo o regime de câmbio fixo para o flutuante, medida que permitiria reduzir o diferencial do preço das divisas entre o mercado formal e o paralelo.
Para o economista, quanto menor for o diferencial entre as taxas de câmbio do mercado formal e do informal, melhor será para os agentes económicos e quando a taxa de câmbio do BNA reflectir a procura e a oferta das divisas, haverá a redução gradual da actividade das kinguilas.
Carlos Rosado afirma que o que se pretende não é eliminar as kinguilas, tendo em conta que em todo o mundo existe o mercado paralelo, que tem auxiliado quando as taxas de câmbio não reflectem a procura e a oferta. “Espera que o preço das moedas transaccionadas no mercado venha a ser definido com base na procura e na oferta de divisas”.
Por outro lado, o docente universitário e consultor de empresas, Inocêncio das Neves, pensa que ao permitir a flutuação da taxa de câmbio, que passa a ser determinada pela procura dos bancos comerciais e a oferta do Banco Central, o mercado primário acabará por permitir a longo prazo, uma maior sustentabilidade à economia.
Para ele, ficará mais em conta para os investidores externos trazerem os fundos em moeda estrangeira, pois esta será convertida a uma taxa fixada dentro da mesma banda que a taxa do mercado paralelo, sobre a qual o preço da grande maioria dos factores de produção está indexada, nomeadamente, os salários, os equipamentos, os terrenos e as rendas dos edifícios.
Segundo o consultor, outra vantagem é que isto permitirá, a longo prazo, a manter os níveis de reservas internacionais ligeiramente com menos pressão, levando o BNA, com menor dificuldade, fazer baixar as taxas de juro de referência para que a banca comercial possa financiar as empresas e as familias a custos mais baixos.
Já o gestor de empresas, Hélder Batalha, este plano vai permitir sobretudo a redução da inflação, ajustar as taxas de juros, bem como controlar a despesa pública. Para ele, todos os cidadãos são chamados a contribuirem para a efectivação do programa, e assim o país voltar a retomar o crescimento e desenvolvimento que se registou nos anos anteriores a 2014.